top of page

Presença sem pertença

"Passei anos a acreditar que o problema era eu não gostar suficientemente de pessoas. Hoje percebo que muitas vezes o problema era outro: estar constantemente em espaços onde tinha de esconder partes de mim para ser aceite. Há uma diferença enorme entre estar presente e sentir pertença", refere Osvaldo (nome fícticio), pessoa autista com 47 anos.


Há uma ideia persistente quando se fala de autismo: a de que a pessoa autista vive isolada do mundo. Como se o isolamento fosse um lugar fixo onde habita permanentemente. Como se estivesse afastada das pessoas, das experiências e da vida coletiva por escolha, incapacidade ou desinteresse. Mas talvez uma das maiores falhas na forma como ainda pensamos o autismo esteja precisamente aqui: confundimos presença física com pertença humana.


As pessoas autistas não vivem necessariamente fora da sociedade. Vivem dentro dela. Estão nas escolas, nas universidades, nos locais de trabalho, nos transportes públicos, nos cafés, nos cinemas, nos teatros. Participam em reuniões, fazem apresentações, realizam trabalhos de grupo, criam amizades, mantêm relações afetivas, constroem carreiras. Muitas vezes fazem tudo aquilo que socialmente aprendemos a interpretar como sinais de integração.


E, ainda assim, falam de solidão.


Mas que solidão é esta?


Não é necessariamente a ausência de pessoas. Não é obrigatoriamente a ausência de contacto social. Muitas vezes, é a ausência persistente de reconhecimento. É a experiência de estar presente sem verdadeiramente pertencer. De existir num espaço onde o corpo está, mas onde a identidade continua constantemente colocada em causa, corrigida, invisibilizada ou traduzida por outros.


"Estou sempre rodeado de pessoas. Trabalho em equipa, participo nas reuniões, vou aos almoços, respondo às mensagens. Mas há dias em que sinto que ninguém conhece verdadeiramente a pessoa que está ali. Como se eu tivesse aprendido a ocupar espaços sem nunca sentir que pertenço realmente a eles", refere Paulo (nome fictício), pessoa autista de 51 anos.


É verdade que muitas pessoas autistas procuram momentos de isolamento. Não raras vezes, esse afastamento torna-se uma estratégia de sobrevivência psíquica e sensorial. Um mecanismo de autorregulação perante ambientes excessivamente intensos, imprevisíveis ou invasivos. Mas reduzir o isolamento autista apenas a esta necessidade regulatória ou a uma característica intrínseca do perfil neurodesenvolvimental é insuficiente. Porque deixa de fora uma dimensão profundamente humana e relacional: a experiência repetida de não ser compreendido.


Ao trabalharmos com pessoas autistas percebemos rapidamente que o sofrimento raramente nasce apenas das características do autismo. Nasce também do esforço contínuo de adaptação a contextos que continuam desenhados para um único modo legítimo de comunicar, sentir, aprender, socializar e existir.


"O mais cansativo não é lidar com o barulho ou com a confusão dos ambientes. O mais cansativo é perceber constantemente que os outros interpretam mal aquilo que eu sou. Se fico calado, acham que não quero saber. Se preciso de sair, acham que estou a exagerar. Se explico como me sinto, muitas vezes parece que estão a ouvir outra coisa qualquer", acrescenta Maria (nome fictício), pessoa autista de 43 anos.


Mesmo dentro de comunidades neurodivergentes ou autistas, muitas pessoas continuam a descrever uma sensação persistente de desencontro. E isso obriga-nos a pensar de forma mais complexa. Porque talvez o isolamento autista não seja apenas uma questão de afastamento social. Talvez seja, muitas vezes, uma experiência de desalinhamento constante entre a forma como a pessoa vive o mundo e a forma como o mundo insiste em interpretá-la.


Continuamos a assistir a diagnósticos tardios em números significativos de adultos autistas. Continuamos a ouvir relatos de pessoas cujas características foram desvalorizadas, minimizadas ou interpretadas como traços de personalidade, ansiedade, imaturidade ou exagero emocional. Continuamos a observar escolas, universidades e serviços de saúde que falam de inclusão enquanto exigem que a pessoa autista suporte, silenciosamente, ambientes incompatíveis com as suas necessidades.


E talvez uma das maiores violências invisíveis esteja precisamente aqui: a sociedade aceita a presença da pessoa autista desde que ela consiga sobreviver às condições impostas sem perturbar demasiado o funcionamento esperado.


Aprender a flexibilizar, tolerar ou mascarar dificuldades tornou-se, para muitas pessoas autistas, uma competência de sobrevivência social. Mas aquilo que frequentemente é elogiado como adaptação representa, na realidade, um custo energético brutal. Um desgaste contínuo do sistema nervoso. Uma vigilância permanente sobre o próprio comportamento, expressão facial, tom de voz, linguagem corporal, intensidade emocional e reação sensorial.


O problema é que o mundo tende a celebrar o resultado visível dessa adaptação e ignorar completamente o sofrimento invisível necessário para a sustentar.


"As pessoas dizem que eu sou muito funcional. Que me adapto bem. O que não vêem é o cansaço absurdo de passar o dia inteiro a monitorizar tudo: a forma como falo, a expressão da minha cara, o tom de voz, os silêncios, o contacto visual. Às vezes não me sinto isolada porque estou sozinha. Sinto-me isolada porque passei o dia inteiro sem conseguir existir de forma natural", comenta Telma (nome fictício), pessoa autista de 29 anos.


E talvez seja precisamente por isso que tantas pessoas autistas descrevem uma vida marcada por uma estranha sensação de exílio interno. Não porque estejam fora da sociedade, mas porque passaram demasiado tempo a aprender a existir nela sem nunca terem a garantia de que seriam verdadeiramente reconhecidas dentro dela.


Inclusão não pode significar apenas permitir presença. Uma pessoa não pertence a um espaço apenas porque conseguiu entrar nele. Pertencer implica ser reconhecida na sua forma legítima de existir sem que precise de apagar continuamente partes de si para merecer permanecer ali.


Talvez o verdadeiro isolamento das pessoas autistas não seja a distância em relação aos outros. Talvez seja a experiência profundamente cansativa de viver constantemente rodeado de pessoas e, ainda assim, sentir que quase ninguém consegue realmente vê-las.



 
 
 

Comentários


Informação útil:

Cadastre-se

  • Facebook Social Icon
  • YouTube Social  Icon
  • Instagram Social Icon
  • Twitter Social Icon

©2018 by Autismo no Adulto. Proudly created with Wix.com

bottom of page