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O meu Punch chama-se ToM

Quando era criança diziam que eu era fria porque não gostava de abraços. O que ninguém percebia é que o toque me queimava por dentro quando estava sobrecarregada. Eu queria proximidade, só não conseguia recebê-la da forma que esperavam.”, Cláudio (nome fícticio), pessoa autista hoje com 32 anos referindo-se a si quando era criança


Certamente estão recordados do episódio do macaco bebé de nome Punch que viralizou nas redes sociais pela sua aparente necessidade de procura de companhia e de a ter encontrado junto de um peluche comercializado no IKEA. Acontecimento esse que reactivou na memória de muitos as experiências de Harry Harlow relativamente à teoria de vinculação e de como esta é fundamental para o desenvolvimento infantil.


Pois bem, este texto não fala do Punch. Até porque este se chama ToM. Ainda que o texto se vá debruçar sobre a vinculação mas nas pessoas autistas. O texto surge à boleia da partilha do colega e amigo Mário Veloso que sempre atento traz temas que muito pouco frequente são abordados mas que não lhes falta importância.


A teoria da vinculação, inicialmente desenvolvida por John Bowlby e posteriormente aprofundada por Mary Ainsworth, revolucionou a compreensão do desenvolvimento humano ao defender que a necessidade de proximidade emocional não é apenas psicológica, mas profundamente biológica. O bebé humano nasce neurologicamente programado para procurar segurança numa figura cuidadora e, a partir dessa experiência relacional repetida, constrói modelos internos sobre si próprio, sobre os outros e sobre o mundo.


Durante décadas, a teoria da vinculação foi aplicada de forma relativamente universalista. Assumiu-se que certos comportamentos, como procurar colo, chorar na separação, sorrir socialmente ou usar o cuidador como “base segura”, seriam expressões consistentes do apego seguro. Porém, à medida que o conhecimento sobre o espectro do autismo evoluiu, tornou-se evidente que muitos destes pressupostos precisavam de ser revistos. Não porque as pessoas autistas não desenvolvam vínculos. Mas porque frequentemente os expressam noutra linguagem.


A minha mãe achava que eu a rejeitava porque ficava em silêncio no quarto depois da escola. Hoje ambos percebemos que eu estava em shutdown. Não era afastamento emocional. Era exaustão neurológica.” Catarina (nome ficticio), pessoa autista hoje com 28 anos referindo-se à sua infância


A criança autista pode amar profundamente e, ainda assim, evitar o toque. Pode procurar proximidade através da repetição de frases, da permanência silenciosa na mesma divisão ou da necessidade insistente de rotinas partilhadas. Pode parecer distante quando, na verdade, está sobrecarregada sensorialmente. Pode não procurar contacto ocular intenso e, mesmo assim, viver uma dependência emocional profunda da figura cuidadora. Durante muitos anos, estes comportamentos foram erradamente interpretados como sinais de evitamento emocional, frieza afectiva ou ausência de apego. Hoje sabemos que esta leitura é profundamente limitada.


A vinculação na pessoa autista não deve ser medida apenas pela aparência externa dos comportamentos, mas pela função reguladora que a relação assume no sistema nervoso da criança. O cuidador continua a ser porto seguro. Apenas muda a forma como essa segurança é comunicada.


Este ponto torna-se ainda mais relevante quando consideramos que muitas famílias de crianças autistas são, elas próprias, neurodivergentes. É frequente encontrarmos pais autistas não diagnosticados, adultos com PHDA, ansiedade crónica, perturbações obsessivo-compulsivas, depressão, historial traumático ou outras condições neuropsiquiátricas. Isto altera profundamente a dinâmica relacional.


Um pai autista pode amar intensamente o filho e, simultaneamente, sentir enorme dificuldade em interpretar sinais emocionais subtis ou tolerar sobrecarga sensorial constante. Uma mãe com PHDA pode oscilar entre momentos de elevada responsividade emocional e períodos de exaustão cognitiva profunda. Pais em burnout parental podem aparentar distanciamento quando, na verdade, estão neurologicamente colapsados.


A teoria clássica da vinculação valorizava muito a sensibilidade parental. Contudo, quando pensamos o autismo dentro de um paradigma neurodiversificado, somos obrigados a ampliar a definição de sensibilidade. Sensibilidade não é apenas responder de forma imediata, calorosa e previsível segundo normas neurotípicas. É conseguir reconhecer a necessidade por trás do comportamento, mesmo quando essa necessidade surge de forma não convencional.


Uma crise sensorial não é manipulação. Um shutdown não é rejeição emocional.A ausência de contacto ocular não é ausência de amor. O stimming não é desorganização afectiva.


A capacidade parental mais importante talvez seja aquilo que alguns autores designam como insightfulness, a capacidade de imaginar o mundo interno da criança para além do comportamento observável. O cuidador que compreende que determinada reacção resulta de dor sensorial, medo, confusão ou exaustão, responde de forma reguladora em vez de punitiva. E é precisamente essa resposta que constrói segurança emocional.

No entanto, esta tarefa pode tornar-se extremamente difícil quando o próprio cuidador vive em estado de sobrevivência.


A parentalidade de crianças autistas, sobretudo quando existem maiores necessidades de suporte, níveis elevados de sofrimento sensorial, perturbações do sono, dificuldades comunicacionais ou comportamentos externalizantes, pode conduzir a um desgaste crónico severo. Muitos pais vivem anos sem descanso fisiológico adequado. O sistema nervoso parental entra frequentemente em hipervigilância contínua. A exaustão emocional, cognitiva e sensorial afecta inevitavelmente a disponibilidade relacional. E isto não significa ausência de amor. Significa apenas que a vinculação precisa de ser compreendida dentro de contextos reais, humanos e neurobiológicos.


Por vezes, o maior acto de vinculação segura não é a perfeição emocional do cuidador, mas a sua capacidade de regressar após a ruptura. Reparar. Tentar novamente. Adaptar-se. Aprender uma nova linguagem relacional.


Ao longo da adolescência, estas dinâmicas tornam-se ainda mais complexas. Muitos adolescentes autistas acumulam anos de experiências de incompreensão, rejeição social, bullying ou tentativas constantes de normalização. Aprendem que certas formas espontâneas de existir são mal recebidas e desenvolvem estratégias de masking, escondendo traços autistas para obter aceitação social.


Mas o masking tem um custo. O adolescente pode parecer funcional externamente enquanto internamente vive uma profunda insegurança relacional e um esgotamento nervoso progressivo. Alguns tornam-se emocionalmente inacessíveis não porque não necessitem de vínculo, mas porque aprenderam que mostrar vulnerabilidade conduz frequentemente à dor, crítica ou exclusão.


Nestes casos, a função da vinculação segura torna-se particularmente importante. O cuidador deixa de ser apenas uma base para exploração do mundo externo. Passa a ser um dos poucos lugares onde o adolescente pode retirar a máscara, regular o sistema nervoso e existir sem necessidade constante de performance social.


As abordagens contemporâneas mais eficazes no autismo têm vindo precisamente a abandonar modelos correctivos e normalizadores. Certas intervenções focam-se em ajudar os pais a reconhecer sinais subtis de comunicação e sincronizar-se com a criança em vez de a forçar a adaptar-se a padrões neurotípicos rígidos. Da mesma forma, práticas afirmativas da neurodiversidade procuram criar ambientes relacionais onde a segurança emocional emerge da aceitação e não da camuflagem.


Talvez uma das mudanças mais importantes seja esta: deixar de perguntar se a pessoa autista é capaz de vinculação e começar finalmente a perguntar se o mundo aprendeu a reconhecer as suas formas próprias de amar, procurar segurança e permanecer ligada aos outros.


Porque muitas pessoas autistas passaram a vida inteira a ouvir que eram distantes, quando na verdade estavam apenas a tentar sobreviver num mundo relacional construído noutra frequência.


O meu pai também era autista, embora nunca tenha sido diagnosticado. Cresci numa casa onde ninguém sabia falar sobre emoções, mas havia lealdade absoluta. Só mais tarde percebi que aquilo também era amor.” Raúl (nome ficticio), pessoa autista hoje com 45 anos referindo-se à sua infância


Orangotango grande e outro menor.
Orangotango grande e outro menor.

 
 
 

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