Do que me vale ter aprendido a nadar num tanque se afinal passamos maior parte da vida no mar?
- pedrorodrigues

- há 1 dia
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Há uma estranha ironia no modo como falamos hoje de autismo. Nunca soubemos tanto. Nunca diagnosticámos tão cedo. Hoje conseguimos identificar sinais consistentes de autismo a partir dos 24 meses de idade. Nunca tivemos tantos modelos de intervenção precoce, tantos protocolos adaptados às crianças e às famílias, tanta produção científica, tanta formação, tantos discursos sobre inclusão. As escolas aprenderam novas palavras. As universidades começaram a construir gabinetes de apoio. As empresas descobriram a linguagem da neurodiversidade. Os serviços psicológicos tentam adaptar modelos terapêuticos. Os programas de treino de competências sociais prolongam-se ao longo do ciclo de vida. A legislação da educação inclusiva abriu possibilidades que, há poucos anos, eram impensáveis.
E, no entanto, continua a existir uma pergunta desconfortável que quase ninguém quer fazer em voz alta:
Do que vale aprender a nadar num tanque, se a vida acontece quase toda no mar?
Porque talvez o grande problema do autismo contemporâneo não esteja apenas no diagnóstico, nem sequer na infância. Talvez esteja no enorme vazio que existe entre preparar alguém para sobreviver em contextos protegidos e garantir que consegue viver num mundo real, imprevisível, excessivo, rápido, socialmente ambíguo e profundamente pouco adaptado à diferença.
Criámos tanques relativamente seguros. Alguns mais inclusivos. Alguns mais atentos. Alguns até verdadeiramente transformadores. Mas continuamos sem conseguir transformar o oceano.
Continuamos a assistir a uma realidade brutalmente contraditória: cerca de 80% das pessoas autistas adultas vivem de forma dependente, muitas vezes com famílias envelhecidas, exaustas e quase sem apoio enquanto cuidadoras informais. Cerca de 70% continuam fora do mercado de trabalho. Muitas vivem há anos num processo silencioso de isolamento social progressivo. Não porque lhes falte inteligência, vontade ou potencial. Mas porque o mundo adulto continua a exigir precisamente aquilo que mais penaliza muitas pessoas autistas: flexibilidade social implícita, tolerância extrema ao ruído relacional, multitarefa emocional, ambiguidade constante e adaptação permanente a regras nunca totalmente explícitas.
Há empresas que afirmam querer contratar pessoas autistas e, no entanto, os próprios critérios de recrutamento parecem revelar outra coisa: procuram pessoas com diagnóstico de autismo, mas sem características demasiado visíveis de uma pessoa autista. Quer-se a diferença enquanto conceito. Não enquanto realidade humana concreta.
Também os serviços de saúde continuam frequentemente despreparados. Muitas pessoas autistas adultas encontram enormes dificuldades no acesso a cuidados médicos adaptados às suas necessidades sensoriais, comunicacionais e cognitivas. E demasiados profissionais continuam a interpretar características do autismo como desinteresse, oposição, rigidez ou falta de colaboração.
Mesmo o ensino superior, frequentemente apresentado como espaço de inclusão e pensamento crítico, continua a revelar números preocupantes. As taxas de abandono acima dos 60% mostram-nos que entrar não significa necessariamente conseguir permanecer. A inclusão formal não garante pertença emocional, estabilidade psicológica ou sustentabilidade funcional.
Talvez tenhamos investido demasiados anos a pensar apenas em como ensinar pessoas autistas a adaptar-se ao mundo, e demasiado poucos a perguntar se o próprio mundo está disponível para aprender novas formas de existir.
Porque o mar continua perigoso.
Continua cheio de correntes invisíveis para quem nunca precisou de lutar contra elas. Continua desenhado para corpos, mentes e ritmos considerados normativos. Continua a recompensar competências sociais espontâneas, rapidez relacional, tolerância ao caos e resistência sensorial como se fossem capacidades universalmente distribuídas.
E talvez seja precisamente aqui que a discussão sobre autismo ao longo da vida se torna inevitável.
Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não pode medir o seu sucesso apenas pela capacidade de identificar crianças mais cedo. Nem apenas pelo número de alunos integrados nas escolas. Nem pelo discurso institucional sobre diversidade. O verdadeiro teste da inclusão começa quando termina a infância. Quando desaparecem os apoios escolares. Quando os pais envelhecem. Quando o mercado de trabalho exige produtividade constante. Quando a solidão deixa de ser invisível e passa a estruturar uma vida inteira.
Talvez a pergunta mais séria que hoje o autismo nos obriga a enfrentar seja esta:
Estamos realmente a preparar pessoas autistas para viver no mar, ou apenas a ensiná-las a sobreviver melhor dentro de tanques cada vez mais sofisticados?




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