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Do que me vale ter aprendido a nadar num tanque se afinal passamos maior parte da vida no mar?

Há uma estranha ironia no modo como falamos hoje de autismo. Nunca soubemos tanto. Nunca diagnosticámos tão cedo. Hoje conseguimos identificar sinais consistentes de autismo a partir dos 24 meses de idade. Nunca tivemos tantos modelos de intervenção precoce, tantos protocolos adaptados às crianças e às famílias, tanta produção científica, tanta formação, tantos discursos sobre inclusão. As escolas aprenderam novas palavras. As universidades começaram a construir gabinetes de apoio. As empresas descobriram a linguagem da neurodiversidade. Os serviços psicológicos tentam adaptar modelos terapêuticos. Os programas de treino de competências sociais prolongam-se ao longo do ciclo de vida. A legislação da educação inclusiva abriu possibilidades que, há poucos anos, eram impensáveis.


E, no entanto, continua a existir uma pergunta desconfortável que quase ninguém quer fazer em voz alta:


Do que vale aprender a nadar num tanque, se a vida acontece quase toda no mar?


Porque talvez o grande problema do autismo contemporâneo não esteja apenas no diagnóstico, nem sequer na infância. Talvez esteja no enorme vazio que existe entre preparar alguém para sobreviver em contextos protegidos e garantir que consegue viver num mundo real, imprevisível, excessivo, rápido, socialmente ambíguo e profundamente pouco adaptado à diferença.


Criámos tanques relativamente seguros. Alguns mais inclusivos. Alguns mais atentos. Alguns até verdadeiramente transformadores. Mas continuamos sem conseguir transformar o oceano.


Continuamos a assistir a uma realidade brutalmente contraditória: cerca de 80% das pessoas autistas adultas vivem de forma dependente, muitas vezes com famílias envelhecidas, exaustas e quase sem apoio enquanto cuidadoras informais. Cerca de 70% continuam fora do mercado de trabalho. Muitas vivem há anos num processo silencioso de isolamento social progressivo. Não porque lhes falte inteligência, vontade ou potencial. Mas porque o mundo adulto continua a exigir precisamente aquilo que mais penaliza muitas pessoas autistas: flexibilidade social implícita, tolerância extrema ao ruído relacional, multitarefa emocional, ambiguidade constante e adaptação permanente a regras nunca totalmente explícitas.


Há empresas que afirmam querer contratar pessoas autistas e, no entanto, os próprios critérios de recrutamento parecem revelar outra coisa: procuram pessoas com diagnóstico de autismo, mas sem características demasiado visíveis de uma pessoa autista. Quer-se a diferença enquanto conceito. Não enquanto realidade humana concreta.


Também os serviços de saúde continuam frequentemente despreparados. Muitas pessoas autistas adultas encontram enormes dificuldades no acesso a cuidados médicos adaptados às suas necessidades sensoriais, comunicacionais e cognitivas. E demasiados profissionais continuam a interpretar características do autismo como desinteresse, oposição, rigidez ou falta de colaboração.


Mesmo o ensino superior, frequentemente apresentado como espaço de inclusão e pensamento crítico, continua a revelar números preocupantes. As taxas de abandono acima dos 60% mostram-nos que entrar não significa necessariamente conseguir permanecer. A inclusão formal não garante pertença emocional, estabilidade psicológica ou sustentabilidade funcional.


Talvez tenhamos investido demasiados anos a pensar apenas em como ensinar pessoas autistas a adaptar-se ao mundo, e demasiado poucos a perguntar se o próprio mundo está disponível para aprender novas formas de existir.


Porque o mar continua perigoso.


Continua cheio de correntes invisíveis para quem nunca precisou de lutar contra elas. Continua desenhado para corpos, mentes e ritmos considerados normativos. Continua a recompensar competências sociais espontâneas, rapidez relacional, tolerância ao caos e resistência sensorial como se fossem capacidades universalmente distribuídas.


E talvez seja precisamente aqui que a discussão sobre autismo ao longo da vida se torna inevitável.


Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não pode medir o seu sucesso apenas pela capacidade de identificar crianças mais cedo. Nem apenas pelo número de alunos integrados nas escolas. Nem pelo discurso institucional sobre diversidade. O verdadeiro teste da inclusão começa quando termina a infância. Quando desaparecem os apoios escolares. Quando os pais envelhecem. Quando o mercado de trabalho exige produtividade constante. Quando a solidão deixa de ser invisível e passa a estruturar uma vida inteira.


Talvez a pergunta mais séria que hoje o autismo nos obriga a enfrentar seja esta:


Estamos realmente a preparar pessoas autistas para viver no mar, ou apenas a ensiná-las a sobreviver melhor dentro de tanques cada vez mais sofisticados?

jovem sexo masculino junto a um armário com tanques de peixes vermelhos.
jovem sexo masculino junto a um armário com tanques de peixes vermelhos.

 
 
 

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