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O que quer realmente a sociedade quando fala de inclusão?

Vivemos numa época em que a inclusão se tornou uma das palavras mais repetidas no discurso público. Está em todo o lado. Nas escolas, nas universidades, nas empresas, nos congressos internacionais, nas campanhas institucionais, nos programas políticos e nas redes sociais. A inclusão tornou-se quase uma obrigação moral colectiva, uma espécie de valor consensual que poucos ousariam questionar. E, no entanto, talvez esteja precisamente na altura de começarmos a questionar o que significa verdadeiramente esta palavra quando falamos da vida concreta das pessoas autistas.


Porque já passaram décadas desde as grandes declarações internacionais sobre os direitos das pessoas com deficiência. Décadas de alertas, relatórios, conferências e recomendações dirigidas aos países para mudarem políticas, estruturas e atitudes sociais. Falamos hoje muito mais sobre autismo do que alguma vez falámos. Existe mais informação, mais sensibilização, mais diagnósticos, mais linguagem pública em torno da neurodiversidade. Mas, apesar disso, os números reais da vida das pessoas autistas continuam profundamente perturbadores.


Continuam a existir taxas elevadíssimas de desemprego e subemprego entre adultos autistas. Continuam a existir níveis muito elevados de isolamento social, burnout, ansiedade, depressão e suicídio. Muitas pessoas autistas continuam a abandonar percursos académicos, empregos e relações não por falta de inteligência, competência ou vontade, mas porque vivem permanentemente expostas a contextos que exigem adaptação contínua e invisível.


E talvez por isso seja inevitável fazer uma pergunta desconfortável: se a sociedade é hoje mais inclusiva, porque continuam tantas pessoas autistas a viver em sofrimento silencioso dentro dela?


Talvez porque, em muitos casos, aquilo a que chamamos inclusão não seja verdadeiramente aceitação da diferença. Talvez seja apenas uma forma socialmente mais sofisticada de exigir adaptação.


A sociedade diz querer incluir pessoas autistas, mas frequentemente aquilo que espera delas é aproximação ao normativo neurotípico. Espera-se que consigam comunicar de forma confortável para os outros. Que tolerem ambientes sensorialmente agressivos. Que saibam gerir interacções sociais constantes. Que consigam mascarar o desconforto. Que mantenham produtividade. Que expliquem calmamente as suas necessidades sem perturbar demasiado o funcionamento dos sistemas à sua volta.


Aceita-se a diferença, desde que ela permaneça suficientemente discreta.


E aqui talvez exista uma das maiores contradições do discurso contemporâneo sobre inclusão: celebramos a diversidade enquanto conceito abstracto, mas continuamos profundamente desconfortáveis perante a expressão concreta da diferença humana.


Porque basta uma pessoa autista precisar de silêncio, evitar contacto ocular, entrar em sobrecarga sensorial, comunicar de forma mais directa, necessitar de previsibilidade ou revelar exaustão social para que a tolerância rapidamente encontre os seus limites invisíveis.


Há uma espécie de inclusão condicional que raramente é assumida, mas que muitas pessoas autistas sentem diariamente. Uma inclusão que funciona apenas enquanto a diferença não perturbar demasiado os ritmos sociais, profissionais e relacionais definidos pela norma dominante.


E talvez seja precisamente por isso que tantas pessoas autistas vivem num estado contínuo de autojustificação. Explicam constantemente porque precisam de determinadas acomodações. Porque ficam exaustas mais rapidamente. Porque evitam certos ambientes. Porque determinadas tarefas aparentemente simples lhes exigem um esforço gigantesco. Porque necessitam de pausas. Porque precisam de previsibilidade. Porque o corpo e o cérebro entram em saturação.


Muitas passam a vida inteira a traduzir-se para os outros.


E há algo profundamente violento nesta necessidade constante de demonstrar sofrimento para obter legitimidade. Como se as necessidades humanas só fossem válidas quando suficientemente visíveis ou suficientemente dramáticas. Como se a pessoa autista tivesse permanentemente de provar que aquilo que sente é real.


Talvez uma sociedade verdadeiramente inclusiva não fosse aquela que apenas permite a presença de pessoas diferentes, mas aquela que deixa de exigir que essas pessoas escondam continuamente partes de si próprias para serem aceites.


Porque existe uma diferença enorme entre inclusão e assimilação.


A assimilação pede à pessoa autista que aprenda a funcionar o mais próximo possível da norma neurotípica. A inclusão verdadeira obriga a sociedade a flexibilizar estruturas, ambientes, expectativas e formas de relacionamento humano.


E isso é muito mais difícil do que levantar bandeiras, criar slogans ou organizar campanhas de sensibilização.


Implica redistribuição de poder social. Implica aceitar diferentes formas de comunicação, produtividade, presença e participação humana. Implica reconhecer que igualdade não significa obrigar todas as pessoas a funcionar da mesma maneira.


Talvez a pergunta mais importante não seja “como integrar pessoas autistas na sociedade?”, mas antes: que tipo de sociedade continua a exigir que tantas pessoas tenham de passar a vida inteira a adaptar-se para merecer pertença?


Porque uma sociedade inclusiva não se mede pelas palavras que utiliza sobre diversidade.


Mede-se pela quantidade de pessoas que conseguem existir nela sem terem de pedir desculpa, justificar-se ou esconder continuamente quem são.


 
 
 

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