O degelo autista
- pedrorodrigues

- há 28 minutos
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Todos nós temos ouvido cada vez mais falar do degelo que afecta glaciares, o Ártico e a Antártida. Assim como o quanto este fenómeno acelera a subida do nível do mar, ameaçando cidades costeiras, altera correntes oceânicas e liberta gases de efeito de estufa ao derreter o permafrost.
Mas o que é que o autismo tem a ver com o degelo? Ou como é que se descongela o autismo?
Se chegou até aqui merece que eu lhe diga que não há degelo nenhum autista e muito menos se descongela o autismo.
Posto isto, vamos falar da ideia que muitas pessoas têm acerca do autismo e da pessoa autista - ser uma pessoa fria.
Durante muito tempo, criou-se uma imagem rígida acerca das pessoas autistas: a ideia de que são emocionalmente frias, distantes, incapazes de verdadeira ligação afectiva. Uma caricatura antiga, simplista e profundamente injusta, que continua a sobreviver no imaginário social, mesmo entre profissionais de saúde. Como se a dificuldade em expressar emoções fosse equivalente à ausência delas. Como se silêncio emocional significasse vazio.
Mas a realidade é muito mais complexa. E, sobretudo, muito mais humana.
As pessoas autistas não são emocionalmente todas iguais. Algumas são intensas, calorosas e profundamente afectivas. Outras mais reservadas, contidas ou difíceis de ler emocionalmente. Algumas vivem emoções com enorme intensidade interna mas quase não as demonstram externamente. Outras parecem emocionalmente expansivas, mas sentem-se internamente desconectadas. E há ainda quem oscile entre proximidade e afastamento, entre necessidade profunda de vínculo e necessidade extrema de isolamento.
“Dizem que pareço fria. A verdade é que sinto tanto que às vezes fico paralisada.”
Este tipo de testemunho surge repetidamente entre adultos autistas. Muitas pessoas descrevem uma experiência interna emocional rica, mas difícil de traduzir para fora. Não porque não sintam, mas porque identificar, organizar e expressar emoções pode ser extraordinariamente exigente.
A alexitimia, presente numa parte significativa da população autista, ajuda a compreender esta realidade. Não se trata de ausência emocional. Trata-se de dificuldade em reconhecer o que se sente, colocar isso em palavras ou diferenciar estados emocionais entre si. Algumas pessoas percebem apenas um mal-estar difuso, uma tensão interna sem nome claro.
“Sinto coisas muito fortes, mas se me perguntarem o que estou a sentir, eu bloqueio.”
Outras descrevem a emoção como algo corporal antes de ser psicológico. O corpo acelera, pesa, treme, colapsa, mas a emoção permanece confusa. Aqui entra também a questão da interocepção, a capacidade de perceber os sinais internos do corpo. Quando existe maior dificuldade interoceptiva, também o reconhecimento emocional pode tornar-se menos claro. Afinal, as emoções não vivem separadas da fisiologia.
“Percebo primeiro que estou exausto, irritado ou com dores. Só depois, às vezes horas mais tarde, percebo que estava triste.”
Muitas pessoas autistas passam anos inteiros a tentar corresponder a expectativas sociais emocionais que nunca lhes foram naturais. Aprendem a olhar nos olhos quando lhes é desconfortável. Aprendem expressões faciais socialmente aceitáveis. Aprendem a modular a voz, a responder emocionalmente “como deve ser”. Aprendem, acima de tudo, a esconder o que lhes acontece internamente para evitar rejeição, crítica ou humilhação.
E isso tem um custo.
Ao fim de décadas de masking, hipervigilância social e esforço contínuo de adaptação, algumas pessoas começam a relatar algo difícil de explicar: um embotamento afectivo progressivo. Como se o sistema emocional entrasse lentamente em saturação.
“Cheguei a um ponto em que deixei de conseguir reagir emocionalmente às pessoas. Não porque não me importasse, mas porque já estava completamente esgotado.”
Este esgotamento profundo pode surgir no contexto de burnout autista prolongado. Não é apenas cansaço. É uma erosão interna. Uma perda de capacidade de resposta emocional após anos de sobrecarga sensorial, esforço social contínuo e sobrevivência psicológica.
Algumas pessoas descrevem dissociação. Uma sensação de desligamento interno. Como se observassem a própria vida à distância.
“Houve uma altura em que a minha mãe chorava à minha frente e eu não conseguia demonstrar nada. Sentia culpa por dentro, mas externamente parecia um bloco de gelo.”
É aqui que muitas interpretações sociais falham. Confunde-se frequentemente ausência de expressão com ausência de afecto. Confunde-se exaustão relacional com falta de empatia. Confunde-se sobrevivência emocional com indiferença.
Porque uma pessoa emocionalmente esgotada pode parecer fria. Uma pessoa dissociada pode parecer distante. Uma pessoa em colapso interno pode parecer emocionalmente inacessível.
Mas aparência externa não é sinónimo de experiência interna.
Muitas pessoas autistas relatam precisamente o contrário daquilo que lhes é atribuído: não sentem pouco, sentem demasiado. Demasiado intensamente. Demasiado continuamente. Demasiado tempo.
“Passei a vida inteira a absorver tudo. As emoções dos outros, os ambientes, os conflitos. Acho que a certa altura o meu cérebro simplesmente desligou partes de mim para sobreviver.”
Talvez uma das maiores violências que as pessoas autistas experienciam seja precisamente esta: serem vistas como frias quando passaram a vida inteira a tentar sobreviver emocionalmente num mundo que constantemente lhes exigiu adaptação, leitura social intensa e supressão da própria natureza.
“Por vezes não é ausência de sentimentos. É excesso histórico de sobrevivência.”
Talvez esteja na altura de abandonar a pergunta simplista “as pessoas autistas são frias?” e começar a perguntar algo mais honesto, mais humano e mais difícil: Quanto sofrimento emocional invisível pode existir dentro de alguém que aprendeu a sobreviver em silêncio?




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