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Os colonizados

Em criança ninguém queria ser dos indios quando brincavamos aos cowboys. Até porque diziamos e perguntavamos se os outros queriam brincar ao cowboys e nunca aos indios. Ainda que houvesse uns que faziam questão de dizer que era aos Indios e cowboys. E se algum adulto porventura perguntava a um de nós porque ninguém queria ser dos indios, a resposta era imediata - os indios perdem sempre no fim. Ou então era referido que nos filmes os ínidios eram sempre os maus. Isto durou assim na minha cabeça até ao dia em que fui visitar uma exposição sobre a história das tribos indias do continente americano a Lisboa. Já não me lembro com que idade, mas sei que a minha visão acerca dos índios e do facto de a grande maioria de nós insistir em querer ser dos cowboys ficou muito mais claro e esclarecido na minha cabeça. Entretanto deixei de ter idade para brincar ao indios e cowboys, mas as escolhas sobre o lado a pertencer não deixou de estar presente e esclarecido na minha forma de sentir e ser.


Esta história toda para quê, perguntam vocês. Para falar daquilo que parece ser uma hipercentralização do diagnóstico. Atenção que isso não significa que falar sobre o diagnóstico e outras temáticas afim não sejam importantes, porque o são. Contudo, não esgotar a narrativa apenas aqui.


A tendência para reduzir a pessoa autista adulta à sua condição não é apenas um efeito discursivo casual, mas antes o resultado de uma convergência de fatores científicos, sociológicos, etnopsiquiátricos e psicológicos que moldam a forma como a diferença é conceptualizada e comunicada. Este fenómeno inscreve-se numa tradição mais ampla das ciências da saúde mental, particularmente da Psicologia Clínica e da Psiquiatria, que historicamente operam através de categorias diagnósticas como unidades centrais de análise. O diagnóstico, sendo simultaneamente ferramenta de compreensão e de organização do conhecimento, acaba por adquirir um peso ontológico indevido, como se descrevesse a totalidade do sujeito e não apenas uma dimensão da sua experiência.


Do ponto de vista científico, esta centralidade do diagnóstico é reforçada por lógicas metodológicas. A investigação privilegia variáveis mensuráveis e grupos homogéneos, o que favorece estudos centrados em características nucleares do autismo, como padrões de comunicação, processamento sensorial ou funcionamento executivo. Consequentemente, dimensões como participação cívica, identidade política ou envolvimento cultural permanecem subexploradas, não por falta de relevância, mas por menor operacionalização nos modelos tradicionais. Mesmo quando emergem paradigmas alternativos, como o da Neurodiversidade, que propõe uma leitura não patologizante, persiste uma tendência para recentrar a identidade em torno do neurotipo, ainda que sob uma valência positiva.


A sociologia oferece uma lente complementar para compreender este fenómeno. As sociedades contemporâneas organizam-se em torno de categorias identitárias que funcionam como dispositivos de reconhecimento e reivindicação. Neste contexto, o autismo torna-se não apenas uma condição clínica, mas também uma identidade social mobilizável. Este processo é, em parte, emancipatório, pois permite visibilidade, direitos e pertença. No entanto, também pode gerar um efeito de essencialização, no qual a pessoa é interpelada sobretudo enquanto representante de uma categoria. Tal dinâmica aproxima-se de outras experiências de rotulação associadas a condições como Esquizofrenia ou Depressão Major, embora no autismo exista uma particularidade. Por se tratar de uma condição do neurodesenvolvimento, frequentemente interpretada como estrutural e permanente, tende a ser percecionada como um eixo organizador de toda a subjetividade.


A etnopsiquiatria acrescenta uma dimensão cultural a esta análise. Diferentes contextos culturais atribuem significados distintos ao autismo, variando entre interpretações biomédicas, espirituais ou relacionais. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, marcadas por uma forte medicalização da diferença, o diagnóstico assume um papel de narrativa dominante. Ele oferece uma explicação coerente e socialmente legitimada para experiências de estranheza ou desajuste. Para muitos adultos com diagnóstico tardio, esta narrativa tem um efeito organizador profundo. Permite reconfigurar o passado, reinterpretar dificuldades e construir um sentido de continuidade. No entanto, essa reorganização narrativa pode também tornar-se totalizante, sobretudo quando é reforçada por comunidades discursivas que privilegiam a partilha de experiências centradas no autismo.


Do ponto de vista psicológico, este fenómeno pode ser compreendido à luz dos processos de construção identitária. A identidade não é uma entidade fixa, mas um sistema dinâmico de significados que integra múltiplas dimensões do self. Quando um diagnóstico tardio ocorre, é comum observar-se uma fase de saliência identitária elevada, na qual a pessoa investe significativamente na exploração e integração dessa nova dimensão. Este processo é adaptativo e, em muitos casos, necessário. Contudo, se não houver espaço para a reintegração de outras dimensões da experiência, o risco é a cristalização de uma identidade unidimensional. A pessoa passa a narrar-se predominantemente através do diagnóstico, não porque este esgote a sua realidade, mas porque se tornou o eixo mais disponível e validado para a autoexplicação.


Importa também considerar o papel das expectativas sociais. Pessoas autistas são frequentemente convocadas a falar sobre autismo, sendo menos reconhecidas enquanto interlocutores em temas gerais. Esta forma de enquadramento limita a expressão da pluralidade individual e reforça a associação entre pessoa e condição. É um fenómeno subtil, mas persistente, que contribui para a reprodução do ciclo discursivo.


Assim, o que emerge não é apenas uma sobrevalorização do autismo, mas uma combinação de estruturas epistemológicas, dinâmicas culturais e processos psicológicos que favorecem a sua centralidade. O desafio contemporâneo consiste em manter o valor explicativo e identitário do diagnóstico sem permitir que este se torne redutor. Tal implica um movimento deliberado, tanto na ciência como na prática clínica e no espaço público, no sentido de reconhecer as pessoas autistas como sujeitos plenos, cujas vidas se estendem muito para além da condição. São cidadãos que participam, criam, contestam, desejam e pertencem, não apenas enquanto autistas, mas enquanto pessoas no mundo, atravessadas por múltiplas pertenças e experiências que nenhuma categoria, por si só, consegue conter.

fotografia de um membro de uma tribo índia americana.
fotografia de um membro de uma tribo índia americana.


 
 
 

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