top of page

Atlântico Neurodivergente: identidade, linguagem e as múltiplas formas de existir

Portugal e Brasil partilham mais do que uma língua. Partilham uma história longa, complexa e profundamente entrelaçada, construída ao longo de séculos através de encontros humanos, deslocações, conflitos, afetos, perdas e transformações mútuas. Há algo de paradoxal nesta relação: somos simultaneamente próximos e diferentes, familiares e estrangeiros, semelhantes na origem e distintos na expressão.


A língua portuguesa talvez seja o símbolo mais evidente dessa proximidade. No entanto, quem verdadeiramente habita a língua sabe que ela nunca é apenas gramática ou vocabulário. A língua é ritmo, memória, corpo, emoção e cultura. É a forma como uma sociedade aprende a sentir o mundo e a organizá-lo simbolicamente. E é precisamente aí que Portugal e Brasil revelam as suas diferenças mais subtis e, ao mesmo tempo, mais ricas.


Há palavras que mudam de significado de um lado para o outro do Atlântico. Expressões que, embora formalmente iguais, carregam tonalidades emocionais distintas. Formas de estar que revelam diferentes relações com o tempo, com o corpo, com a proximidade, com a dor e com a alegria. O português europeu tende, por vezes, à contenção, à interioridade e ao não dito. O português do Brasil frequentemente expande-se na musicalidade, na expressividade e numa maior abertura afetiva da linguagem. Nenhuma destas formas é mais verdadeira do que a outra. São apenas manifestações diferentes de uma mesma raiz linguística que cresceu em solos culturais distintos.


Talvez seja precisamente aqui que possamos encontrar uma metáfora importante para pensar o autismo.


Na prática clínica, uma das dificuldades mais persistentes continua a ser a tendência para procurar uma imagem única e homogénea daquilo que significa ser autista. Ainda hoje ouvimos frases como: “Mas eles são tão diferentes, não parece possível terem o mesmo diagnóstico.” Como se a diferença na expressão anulasse a legitimidade da identidade neurodivergente.


Mas o autismo nunca foi uniformidade.


Dois irmãos autistas podem partilhar a mesma génese neurológica e, ainda assim, expressarem-se de formas profundamente distintas. Um pode ser mais verbal, outro mais silencioso. Um pode procurar intensamente relações e contacto, enquanto o outro necessita de maior distância e recolhimento. Um pode viver a sensorialidade de forma exuberante e corporal, enquanto outro a processa de forma mais cognitiva e interna. Um pode ser emocionalmente expansivo; outro pode ter dificuldade em nomear aquilo que sente. E, apesar dessas diferenças, ambos continuam a habitar uma experiência autista legítima.


O problema surge quando confundimos diferença de expressão com ausência de identidade comum.


Tal como acontece entre Portugal e Brasil, também no autismo a diversidade interna não elimina a existência de uma matriz partilhada. Pelo contrário, talvez seja precisamente essa multiplicidade que revela a profundidade da condição humana e a impossibilidade de reduzir identidades complexas a modelos rígidos ou imagens simplificadas.


Durante muito tempo, o olhar clínico procurou no autismo padrões fixos, quase caricaturais, esperando encontrar sempre as mesmas manifestações, os mesmos comportamentos, as mesmas dificuldades visíveis. Mas as pessoas autistas não existem para confirmar expectativas diagnósticas. Existem como sujeitos singulares, atravessados por cultura, género, linguagem, história familiar, trauma, inteligência, corpo e contexto social.


O diagnóstico não apaga a individualidade. A individualidade não invalida o diagnóstico.


Talvez uma das aprendizagens mais importantes da neurodiversidade seja precisamente esta: compreender que identidade não significa uniformidade. Existe uma tendência humana para procurar coerência visual e comportamental nas categorias que criamos. Queremos que as coisas “pareçam fazer sentido” segundo aquilo que esperamos encontrar. Mas o real raramente se organiza dessa forma.


Há autismos silenciosos e autismos exuberantes.Autismos profundamente verbais e autismos feitos de imagem, gesto e sensação. Autismos que procuram o outro intensamente e autismos que precisam de distância para sobreviver ao excesso. Autismos que se camuflam até à exaustão e autismos que recusam desde cedo qualquer tentativa de adaptação normativa.


Nenhuma destas formas invalida a outra.


Talvez o verdadeiro desafio, tanto na clínica como na sociedade, seja aprender a reconhecer continuidade dentro da diferença. Conseguir olhar para múltiplas expressões sem perder a capacidade de perceber aquilo que as une profundamente.


Portugal e Brasil ensinam-nos isso de forma silenciosa. A mesma língua pode soar diferente sem deixar de ser a mesma língua. A mesma origem pode gerar múltiplas formas legítimas de existir.


Talvez o autismo também precise de ser compreendido assim. Não como uma imagem fixa, mas como uma vasta geografia humana de expressões possíveis.


 
 
 

Comentários


Informação útil:

Cadastre-se

  • Facebook Social Icon
  • YouTube Social  Icon
  • Instagram Social Icon
  • Twitter Social Icon

©2018 by Autismo no Adulto. Proudly created with Wix.com

bottom of page