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Podes parar de olhar para as minhas pernas!?!

Há algo de profundamente revelador na forma como uma sociedade olha para a deficiência. Não para a deficiência enquanto condição humana, mas para as pessoas que a vivem. Durante séculos, o olhar dominante foi construído pelas pessoas sem deficiência, por quem ocupava a posição confortável da norma. E quando apenas um dos lados conta a história, a narrativa acaba inevitavelmente incompleta.


A história das pessoas com deficiência é, em muitos aspetos, a história da exclusão humana. Durante diferentes períodos da humanidade, as pessoas com deficiência foram escondidas, abandonadas, institucionalizadas, consideradas incapazes, perigosas ou indignas de participar plenamente na vida social. Em alguns momentos foram objeto de piedade. Noutros, de medo. Em muitos, simplesmente de invisibilidade.


As marcas desse passado não desapareceram. Continuam presentes na forma como pensamos, falamos e organizamos o mundo.


A maioria das pessoas sem deficiência tende a olhar para a deficiência como uma característica individual. A deficiência é vista como algo que pertence à pessoa, como uma limitação que ela transporta consigo e que condiciona a sua vida. A conversa centra-se frequentemente nas dificuldades, nas incapacidades, nas barreiras biológicas ou funcionais. Pergunta-se o que a pessoa não consegue fazer. O que lhe falta. O que precisa de superar.


Esta perspetiva parece natural porque foi durante décadas apresentada como a única possível. Contudo, contém um erro fundamental: coloca o problema exclusivamente na pessoa.


Quando uma criança não consegue frequentar uma escola porque não existem adaptações adequadas, o problema não é apenas da criança. Quando um adulto não consegue aceder a um emprego devido a preconceitos ou à ausência de condições de acessibilidade, o problema não é apenas desse adulto. Quando uma pessoa não consegue utilizar um transporte público, entrar num edifício ou participar numa atividade cultural, estamos perante uma falha coletiva e não apenas individual.


Mas existe também uma outra perspetiva, menos ouvida e muitas vezes desconfortável para a maioria. É a perspetiva das próprias pessoas com deficiência.


Muitas delas crescem num mundo que lhes transmite constantemente a ideia de que são diferentes, problemáticas ou menos capazes. Desde cedo aprendem que os espaços não foram pensados para elas, que terão de pedir ajuda para coisas que outros consideram banais e que frequentemente serão definidas pela sua condição antes de serem reconhecidas como pessoas.


Ao longo do tempo, algumas interiorizam estas mensagens. Outras revoltam-se contra elas. Muitas alternam entre ambos os estados.


Não é raro que uma pessoa com deficiência olhe para as pessoas sem deficiência com uma mistura de admiração, frustração e desconfiança. Admiração pelas facilidades que possuem sem sequer se aperceberem delas. Frustração pela incapacidade de compreenderem obstáculos que nunca tiveram de enfrentar. Desconfiança porque a história ensina que as boas intenções nem sempre se traduzem em verdadeira inclusão.


Existe uma experiência de vida que quem nunca viveu com uma deficiência dificilmente consegue compreender na totalidade. A experiência de ser constantemente observado. De ser alvo de curiosidade. De ouvir elogios por realizar tarefas banais. De ser transformado em exemplo de superação apenas por existir.


Por detrás de muitos discursos aparentemente positivos continua a esconder-se uma visão paternalista. Uma visão que continua a olhar para a pessoa com deficiência como alguém que necessita de proteção em vez de cidadania, de ajuda em vez de direitos, de compaixão em vez de igualdade.


Talvez seja precisamente aqui que reside uma das maiores contradições da atualidade.


Vivemos numa época que se apresenta como inclusiva, consciente e progressista. Produzimos leis, campanhas de sensibilização e discursos institucionais sobre igualdade. No entanto, quando observamos a realidade concreta das pessoas com deficiência, encontramos taxas mais elevadas de desemprego, maiores níveis de pobreza, mais isolamento social, mais dificuldades no acesso à educação, aos cuidados de saúde e à participação comunitária.


A distância entre o discurso e a realidade continua a ser enorme.


E essa distância não existe por falta de conhecimento técnico. Existe porque continua a prevalecer uma visão da deficiência construída a partir da norma. Uma visão que aceita pequenas adaptações, mas resiste a questionar profundamente a forma como a sociedade foi desenhada.


A verdadeira inclusão começa quando deixamos de perguntar como podem as pessoas com deficiência adaptar-se ao mundo e começamos a perguntar como pode o mundo adaptar-se à diversidade humana.


Porque a deficiência não é uma realidade marginal. Faz parte da condição humana. Qualquer pessoa pode tornar-se uma pessoa com deficiência em qualquer momento da vida. O envelhecimento, a doença, o acidente ou simplesmente a passagem do tempo recordam-nos essa evidência.


Talvez por isso a questão da deficiência nunca tenha sido apenas sobre uma minoria.


É, na verdade, uma questão sobre quem somos enquanto sociedade.


E a forma como continuamos a responder a essa questão diz muito mais sobre nós do que sobre as pessoas que insistimos em chamar diferentes.


 
 
 

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