Play games, not war

Podia ser um qualquer slogan da actualidade para promover a paz no mundo, mas não é! Quer dizer, pode muito bem ser usado para travar uma outra "guerra" - aquela contra os videojogos pela internet. Já não é a primeira vez que o digo - não sou nenhum gamer, mas tenho alguns na consulta. Há muita coisa que não sou, mas também não é por isso que não tenha interesse, conhecimento e algo para contribuir. Neste como em outro fenómeno no comportamento humano, as causas são multifactoriais e precisa existir a contribuições de vários de nós gamers ou não gamers para que haja uma coexistência o mais saudável possível. Fait vous jeux, rien ne vas plus!

Como alguns da minha geração tive a oportunidade de ter um Zx Spectrum. Se ainda hoje continuássemos a usar o mesmo modelo com as mesmas funcionalidades, facilmente as dificuldades existentes seriam o dobro. O tempo de espera para iniciar um jogo em média era de 20 minutos. Alguns jogos hoje em dia dura bem menos tempo para serem jogados. E o ruído necessário para correr o jogo no leitor de cassetes era igualmente irritante. Mas as coisas já não estão nesse patamar e é importante todos nós termos uma ideia acerca do que temos para podermos inferir sobre o que se pode passar. Bem como também podemos intervir nas mais variadas situações e com diferentes papeis.


Os meus clientes com Perturbação do Espectro do Autismo, mais novos e mais velhos, têm uma determinada aproximação às Tecnologias de Informação (TI's) de uma maneira geral, aos acrãs, mas também aos videojogos pela internet, seja no modo jogador único ou multi jogadores. E como tal, também eu precisei de me instruir. O tempo do Zx Spectrum já lá vai. Mas quem tem um companheiro, colega de profissão e gamer como o João Faria, essa tarefa fica muito facilitada. basta ouvi-lo com muita atenção.

Vou procurar orientá-lo pelos diferentes tipos de jogos e explicar como jogar com alguma regularidade esses jogos pode ser muito benéfico para as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), tanto velhos quanto jovens! Os pais podem enfrentar os conflitos mais difíceis com os filhos em relação ao quanto brincam - ou até mesmo tentando impedir que seus filhos joguem à noite para dormir. Mas esses pais podem não estar cientes dos benefícios que seus filhos podem estar a obter ao brincar! Sim, brincar. Porque jogar e jogar videojogos pela internet pertence ao brincar. Indiscutivelmente, o formato de jogo mais popular e mais diversificado no tipo, género e estilo de jogos que podem ser jogados é o de consola (PlayStation, Nintendo e Xbox).


Jogo, com muito pouca frequência, mas faço-o desde cedo. E lembro com muita satisfação, excitação até e conforto, ao assistir às linhas amarelas e pretas hipnotizantes a moverem-se no ecrã durante os tais 20 minutos de carregamento de cada jogo. E quando o jogo encravava antes do carregamento completo precisamos de começar todo este processo de novo. Nunca comprei nenhuma consola para mim. Fui jogando no Pc e mais recentemente no smartphone. Apenas este ano comprei uma consola para o meu filho, sendo que a mesma ainda está a aguardar maturidade suficiente dele para começar a jogar. Mas brincadeira é coisa que não lhe falta. E esta é apenas mais outra!


Mas sempre que jogava e ainda jogo, ou quando estou a "surfar" na internet, sinto-me frequentemente a mergulhar, umas vez de forma mais ou menos imersa, num mundo que me acalma, seja o meu estado de activação inicial ou de pensamentos mais ou menos erráticos. Tudo o que preciso de fazer é focar a minha atenção no ecrã e cumprir os objectivos do jogo. O resto lá fora passa para uma dimensão diferente. E os problemas ficam lá fora. Se isso significa necessariamente que não estou a socializar com as outras pessoas? Penso que a resposta mais rápida é Não. Mas é preciso pensar no que este comportamento pode representar em outras pessoas e em outras condições. É verdade que em momentos em que esteja mais tempo a jogar mais estou necessariamente mais imerso no jogo que estou a fazer. E isso em alguns momentos poderá representar uma fuga à realidade, ou uma forma de regular as minhas próprias emoções e ansiedade.


Actualmente, os jogos são muito mais avançados do que os jogos Amiga que muitos adoravam no início dos anos 90. Os aspectos gráficos, de jogo, controles, aspectos online e da comunidade nos jogos modernos são incríveis - assim como as oportunidades para desenvolver competências importantes e diferentes tipos de pensamento.


Por exemplo, pensemos nos jogos FPS (First Person Shooter). Aquilo que para alguns poderá não fazer sentido algum e até mesmo ser causador de comportamentos violentos ou outros, tem um alcance muito mais vasto. Desafie-se a pensar para lá do óbvio do ecrã. A realidade que ali está a aparecer, aqueles milhões de pixels que a compõem e que não os vemos dessa forma mais micro, traduzem um conjunto infindável de oportunidade.

As competências criadas ao jogar esse tipo de jogo são: coordenação olho-mão, resolução de problemas, pensamento crítico, destreza, análise rápida, adaptação, tempo, planeamento, organização, motricidade fina, consciência espacial, velocidade e gestão de recursos. Se o jogo for um formato multiplayer online, você também terá a desenvolver competências de comunicação, social, cooperação, formação de equipas e audição. Outros benefícios incluem aprender a correr riscos, recompensas, regulação das emoções e regulação da ansiedade através da imersão no jogo. Muitos desses jogos também são historicamente precisos e fornecem muito contexto para as lições aprendidas nas aulas. Que melhor maneira de aprender sobre a Segunda Guerra Mundial do que vivê-la no jogo? Fechar o mundo por um tempo, aliviar a frustração ou a agressão, socializar e fazer amigos se estiver a jogar com um multiplayer online - isso pode ser vital para a sobrevivência.


As possibilidades, como já referi, são infindáveis, como as próprias vidas nos jogos que jogamos, mas também na multiplicidade de jogos que existem para além deste que ainda agora referi. Brincar aos índios e aos cowboys era uma verdadeira delicia e que na altura não trocava por nada. Disparei muito, "matei" muitos índios quando fui cowboy e o contrário também. Havia a possibilidade de fazermos de uns e outros. Experimentarmos papeis diferentes e com características e perfis diferentes. Construíamos armas. Como na altura a própria industria dos brinquedos ainda não estava assim tão avançada, construíamos as nossas próprias armas. Gritávamos uns com os outros - Batota, dizíamos alto, batota, tu morreste! Eu matei-te e já não podes jogar! E se fossemos chamados a meio de uma batalha para irmos comer era uma dificuldade parar. E que normalmente teria de ser feita com uma ameaça qualquer. E se isso acontecesse muitas vezes tornava-se mais difícil de sermos chamados para brincar a esse mesmo jogo da próxima vez. Ou se participássemos mais assiduamente passávamos a ser capitão de equipa e éramos lembrados durante um fim de semana inteiro com aquele que mais pontos tinha.


Tudo aquilo era importante e continua a sê-lo, ainda que agora a realidade possa ser algo diferente, virtual ou não, online ou não. Mas importante sem dúvida. Muitas coisas continuam a assumir os mesmos papeis. E algumas características do próprio brincar continuam a assumir determinadas dimensões. A de poder experimentar matar e morrer sem que isso aconteça da forma mais horrível como ainda hoje e ao longo da história da humanidade continuamos a assistir e a sofrer. Pensarmos que os videojogos são causadores da "guerra" é um primeiro passo para lá chegar e da pior forma. É fundamental podermos todos ter oportunidade de viver, morrer e voltar a viver, um número de vezes tão infindável como a própria vida que temos.

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