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Paranoide? Quem? eu?

Vânia (nome fictício), tu andas a trair-me, dizia-lhe Carlos (nome fictício). Lá estás tu com esses teus ciúmes doentios, respondia-lhe ela. Estás sempre à janela, sempre, repetia-lhe ele. Olha, é para ver como é que está a roupa que eu tenho de lavar, secar e passar a ferro, gritava-lhe ela. Ao fim de algum tempo de insistência e de muitos conflitos Carlos acedeu a ir a uma consulta de psiquiatria. A situação estava a tornar-se insustentável. Depois de algum tempo de acompanhamento, um diagnóstico de Perturbação da Personalidade Paranoide e alguma medicação para ajudar Carlos no controlo dos impulsos, a situação chegou a um desfecho. O casamento de Vânia e Carlos terminara. Carlos, apesar de inconformado parecia mais calmo. Ao fim de algum tempo veio a saber por uma vizinha do 2º direito do que se passava. Afinal a sua ex-mulher andava com um outro homem que vivia nos prédios em frente. Ao que parecia contava-se que eles combinavam os encontros com uns sinais da roupa estendida no estendal. Se pusessem uma determinada peça de roupa com uma certa cor parecia significar um encontro. Carlos não sossegou até encontrar o Psiquiatria para lhe contar a história.


A investigação mais recente indica que existe Paranoia (i.e., compreende ideias de referência e perseguição) num espectro de gravidade na população em geral, semelhante ao perfil de problemas de saúde mental comuns como ansiedade e depressão.


O tipo de cognição que define a Paranoia é a ideia persecutória, ideias infundada que os pretendem de forma deliberada prejudicar a pessoa. E não é surpresa que haja um espectro de paranoia na população em geral. Todos os dias, as pessoas tomam decisões sobre se devem confiar ou desconfiar, mas avaliar com precisão as intenções de outros é difícil. E como tal, muitas pessoas têm alguns pensamentos paranoicos.


Uma das manifestações mais claras disto é que uma minoria significativa da população geral não clínica pode ter pensamentos paranoicos sobre os computadores, ou situações sociais que ocorrem em contexto das redes sociais, por exemplo. Pensem nas situações em que andaram a pesquisar qualquer informação no Google e de seguida vos começou a aparecer publicidade referente a essa informação nas vossas redes sociais.


A Paranoia, é esta ideia infundada de que os outros o pretendem deliberadamente prejudicar, e tem sido principalmente estudada associada à esquizofrenia. Mas cada vez mais, se reconhece de que há um espectro de gravidade da desconfiança excessiva em toda a população em geral. Sabemos relativamente pouco em relação à paranoia nas pessoas autistas, mas as taxas esperam-se elevadas, atendendo às dificuldades em compreender os estados mentais dos outros e as frequentes experiências de interacção social negativas. E é sabido que as pessoas autistas apresentam uma alta probabilidade de desenvolver outras perturbações neuropsiquiátricas, incluindo perturbações de ansiedade, perturbação obsessiva compulsiva, baixo humor e depressão e psicose. Da mesma forma, as características transdiagnósticas – isto é, sintomas que podem manifestar-se numa gama de outras perturbações psiquiátricas – ocorrem comumente. Como por exemplo problemas com alimentação e seletividade alimentar, perturbação do sono, desregulação de emoções e paranoia.


Eu estou sempre de pé atrás, eu sei, diz Gabriel (nome fictício). Durante muitos anos na escola percebi que os meus colegas me gozavam. E muitas vezes ficava a ouvi-los falarem mal de mim nas aulas. Eles é que não sabiam que eu os conseguia ouvir, acrescenta.


As pessoas são muito injustas, diz Joana (nome fictício). Eu não percebo por que é que nunca me trataram de forma igual. Na escola eu era a melhor aluna, mas a Rute é que era sempre falada pela professora. E hoje em dia no trabalho acontece a mesma coisa com o meu chefe a elogiar o meu colega. E eu trabalho tão ou mais e certamente melhor do que ele, diz.


Uma vez que quase por definição diferentes estados mentais estão a ser mal interpretados como sendo paranoia, teoria das deficiências mentais têm sido propostos como uma causa. Da mesma forma, a explicação dos acontecimentos em termos de outros malévolos tem implicado um estilo de atribuição generalizada e personalizador ligado a pontos de vista instáveis e negativos


Outra visão é que no centro da paranoia estão ideias sobre ameaças, ligadas à ansiedade e à depressão, às auto-crenças negativas (incluindo sensibilidade interpessoal) e experiências de vida adversas. Preconceitos de raciocínio, tais como tirar conclusões precipitadas (redução da recolha de dados), também têm sido considerado um factor causal contributivo para os níveis de convicção e não considerar explicações alternativas vistas na paranoia.


Como tal é fundamental poder melhorar a compreensão da paranoia no autismo. Um dos factores é que esta população clinica está em risco acrescido de desenvolver ideias paranoides. E em grande parte devido às consequências sociais decorrentes das dificuldades existentes. Por exemplo, as pessoas autistas desejam amizades e relacionamentos íntimos. No entanto, são muitas vezes rejeitados, e são propensos a ser intimidados e vítimas. Experiências que podem exacerbar a retirada social, aumentar preocupações de avaliação social, e encorajar crenças negativas sobre o Eu e os outros. E todos estes exemplos podem servir como factores de risco para a paranoia.


Talvez para melhor compreendermos a paranoia no espectro do autismo, seja importante poder olhar como as várias características se interligam. Por exemplo, a combinação das características nucleares do autismo. Em particular, as dificuldades em iniciar e manter a interação social, défices na qualidade e quantidade de conversação reciproca, e as preferências por uma rotina. Assim como os aspectos do funcionamento neuropsicológico, mais especificamente, dificuldade na coerência central e teoria da mente, inflexibilidade cognitiva e problemas de atenção. E que leva a um impacto na forma como as pessoas autistas pensam sobre si, o outro e o mundo.


Nomeadamente o perfil de funcionamento cognitivo comuns incluem a ruminação, bem como uma tendência para as situações pensamento tudo ou nada, generalizadas e catastróficas. Especulamos que estes factores moldam a forma como as pessoas autistas se envolvem, relacionam e procuram dar sentido ao mundo social. Por exemplo, é frequente as pessoas autistas terem uma interpretação literal de normas sociais e convenções, e que podem resultar num estilo social inadequadamente formal, incongruente ou desajeitado. Mais, em vez de estar atento às nuances sociais e às variações subtis entre as situações sociais – e, portanto, modificar os comportamentos sociais em conformidade – as pessoas autistas podem ser mais propensos a adoptar uma abordagem formulada, bastante indiscriminadamente.


E além do mais precisamos de compreender que em muitas situações as outras pessoas, normalmente neurotipicas, respondem de forma igualmente inadequada. Por exemplo notamos que as experiências sociais para esta população clínica podem muitas vezes parecer, ou ser, aversivas (e.g., ser encorajados a envolver-se em situações sociais como actividades de grupo, necessidade de lidar com interações sociais inesperadas, ou ser incapaz de realizar comportamentos. E a serem provocados, vitimizados ou rejeitados. Em qualquer dos casos, a adversidade social é provável ter influência sobre as crenças, emoções e respostas comportamentais. A sobregeneralização das experiências passadas pode incentivar o processo de ruminação, e aumentar a propensão para a catástrofe sobre as futuras situações sociais. Também é plausível que estes experiências contribuam para o esquema nuclear negativo (e.g., relacionado com temas de inferioridade, sentido de diferença, e, portanto, vulnerabilidade). E que posteriormente contribuem para pressupostos sobre os outros, e pensamentos negativos in situ, bem como interações pré e pós-sociais (e.g., Por que se estão a rir de mim?, Algo pode acontecer-me, e As pessoas não são de confiança). Além disso, prevemos que estas situações difíceis levam, ou exacerbem um efeito negativo pré-existente, como a ansiedade e o baixo humor, que são comumente experimentados nas pessoas autistas.



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