Pandemia inclusiva

Há quase um mês atrás no inicio da situação de pandemia a instalar-se em Portugal ouvia falar do vírus democrático. Uma situação que não olhava a quem para contaminar, fossemos ricos, pobres, cristão ou muçulmanos. Entretanto foi dada ordem para as Escolas encerrarem e com essa medida milhares de crianças, adolescentes e jovens vieram para casa. Uns para darem continuidade às suas aulas, agora por videoconferência, e outros para receberem por e-mail os trabalhos para irem praticando. A situação vivida é singular. Única para todos nós, professores, pais e alunos, toda a Comunidade Educativa. E o que é que isto tem a ver com o Autismo no adulto? Muitas destas crianças, adolescentes e jovens que estão em casa estão ao abrigo do Decreto-Lei 54/2018 (o anterior Decreto-Lei 3/2008), o documento que estabelece o regime jurídico da educação inclusiva. E muitas delas são filhos e filhas de adultos com uma Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) e cujos filhos e filhos também apresentam uma Perturbação do Neurodesenvolvimento. E porque importa a todos nós garantir que os direitos de todos nos valores fundamentais possam ser salvaguardados. 

A maioria das pessoas que acompanho são adultos com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), mas também alguns adolescentes e jovens universitários. Os adultos com PEA, alguns deles são pais de crianças, adolescentes ou jovens com uma Perturbação do Neurodesenvolvimento, seja PEA, ou outra como Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA) ou Dificuldade Especifica de Aprendizagem (e.g., Dislexia) ou em comorbilidade. Estamos todos a tentar procurar perceber como nos podemos adaptar a esta nova e única situação. Os próprios pais em regime de teletrabalho procuram perceber como conseguem dividir as suas funções profissionais e intercalar com as funções familiares e perceberem como conseguem encontrar tempo para si próprios e para o casal.Os professores em suas casas procuram tentar adaptar as suas metodologias que pareciam mais adaptadas para um contexto presencial, agora para um cenário virtual e à distância. E os alunos? E os alunos referenciados para a Educação Inclusiva?


Há tanto que ainda não sabemos! Qual o impacto que esta situação de isolamento social irá ter na saúde mental de todos nós, e mais especificamente, naqueles que já apresentam uma perturbação psiquiátrica e neste caso específico uma perturbação do neurodesenvolvimento? E qual o impacto que a medida de encerramento das Escolas e a existência de aulas em regime de videoconferência ou o facto de existir isso apenas para umas disciplinas e não para outras, que impacto isso pode ter nas aprendizagens? Se por uma lado não sabemos qual o impacto que poderá haver a esse nível por ser algo único até ao momento para todos nós. Contudo, existem estudos sobre qual o impacto que as férias escolares têm sobre a aprendizagem de determinadas competências, nomeadamente matemáticas e nas funções da escrita. Lembrem-se que as férias escolares do período do verão são de três meses. E são unanimes em afirmar que há impacto nas aprendizagens!


Muitas destas crianças e adolescentes ao abrigo do Decreto-Lei 54/2018 estão com medidas universais ou selectivas de acordo com as suas necessidades educativas. As medidas universais de acordo com as possibilidades previstas na legislação poderão ser: diferenciação pedagógica; acomodações curriculares; enriquecimento curricular; promoção do comportamento pró-social entre outras. Apesar das possibilidades o certo é que estes alunos já estavam a ser abrangidos e os professores e outros técnicos a operar na Escola e preferencialmente com os pais já vinham a implementar todo um conjunto de adequações para as coisas poderem funcionar. Como tal, será importante que neste período de transição estas mesmas adequações possam continuar a acontecer, ainda que possam ter de acontecer de forma diferente.


Os alunos estão em casa, conjuntamente com os seus pais que muitos deles estão em regime de teletrabalho. E como tal apresentam maiores dificuldades em conseguir acompanhar as aulas e as aprendizagens dos seus filhos. Estes por sua vez, com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção ou Dificuldade Específica da Aprendizagem (e.g., Dislexia) e que já apresentam um conjunto de necessidades no seu quotidiano vêm aumentadas as mesmas neste período. As aulas em videoconferência, em que alguns deles nunca tinham experimentado. Ou então apesar de terem experimentado é algo a que não estão habituados. Ou como na situação habitual costumam ter alguém na sala de aula a apoiar o seu trabalho neste momento em que estão em casa pode não ser possível porque os seus pais estão em teletrabalho. Ou no caso de um deles poder providenciar esse apoio é necessário que ele possa saber como melhor o fazer. As distrações que os próprios ecrãs causam com infinitos estímulos visuais e sonoros ou a quebra da ligação por causa do sinal de internet. Estes e outros são todo um conjunto de exemplos que mostra aquilo que tem sido a situação caótica vivida por muitos deles alunos, pais e também professores que sentem que os seus alunos podem não estar a beneficiar das melhores metodologias para as suas necessidades educativas.


É fundamental poder continuar a reflectir tudo isto. Seja na possibilidade do 3º período poder ou não ser realizado por videoconferência. Ou as avaliações e os testes, ou os exames de acesso ao Ensino Superior. E reflectir sobre isto não é apenas para os alunos com estas necessidades educativas. Mas sim para todos, para toda a Comunidade Educativa. É importante que os alunos que estão referenciados possam continuar a beneficiar dos seus acompanhamentos, sejam aqueles que ocorrem dentro e fora da Escola, pelos professores de Educação Especial mas também dos seus terapeutas (psicologia, terapia da fala, etc.). É continua a ser importante que todos estes se continuem a manter em contacto conjuntamente com a família dos alunos para poder providenciar uma continuidade na vida de todos. Parece crucial para todos neste momento colocar em prática a máxima de ser flexível. Ainda que muitas destes alunos com perturbações do neurodesenvolvimento possam sentir maiores dificuldades neste tópico. Isso acontece por ser uma das suas características. No caso dos demais, e ainda que possa ser uma questão mais difícil de ultrapassar, isso tem a ver na maioria das vezes com a sua estrutura de personalidade. O que quero dizer é que pais e escolas/professores precisam de ser mais flexíveis neste momento. E transmitir isso aos seus alunos de uma forma capaz. Não apenas para eles perceberem que continua a ser importante a aprendizagem realizada na Escola. Mas também para aqueles que apresentarem maiores dificuldades não sucumbirem à ansiedade e à angustia de sentirem que estão a fracassar em todas as frentes.

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