Os vizinhos de cima

Os vizinhos de cima foi um peça de teatro em cena que fazia uma reflexão sobre a vida conjugal e a sexualidade através de dois casais que vivem no mesmo edifício. Quem já viveu ou vive em prédio já viveu situações mais insólitas, principalmente barulhos vindos dos seus vizinhos, seja do andar de cima, mas não só. Desde o casal recém-casado que se mudou para o prédio e que vive a lua de mel tórrida e intensa durante anos. A vizinha que sai cedo para o trabalho e anda em casa às 05h30 da manhã de salto alto. Ou o vizinho que sai logo atrás e que tem dificuldade em fechar a porta com suavidade. Aquilo a que muitos designam de fechar o portão da quinta. Eu próprio já tive de conversar com um vizinho aconselhando-o a suar fones para que pudesse ouvir as celebrações religiosas da sua igreja durante o período da noite. Na altura expliquei-lhe que seria uma experiência muito mais interessante e intensa. Facto que ele me agradeceu ao fim de algum tempo. Mas isto nem sempre resulta assim tão bem. E quando se tem crianças com Perturbação do Espectro do Autismo as coisas podem ficar um pouco mais difíceis de controlar, seja com as crianças, mas também com os vizinhos.

Há alguns anos atrás as relações de vizinhança eram diferentes. As pessoas eram mais próximas, conhecedoras da vida dos seus vizinhos, das coisas boas mas também das menos boas e principalmente das dificuldades. Era sempre possível pedir a um vizinho que ficasse a tomar conta do nosso filho durante uma tarde enquanto nós tivéssemos que ir tratar de um assunto que surgiu de imprevisto. Desde as situações mais simples de estarmos a fazer um bolo em casa e percebermos que nos falta farinha e vamos rapidamente pedir aos nossos vizinhos que nos facilitem um caneca de farinha. E ao fim de umas horas tocávamos à campainha para os presentear com umas fatias de bolo de laranja. Percebíamos que por vezes o casal se zangava e que estavam a passar por um mau bocado. Ou que os filhos dos nossos vizinhos tinham determinado problema de saúde ou outro e que havia sempre alguma boa vontade em recomendar algum tempo de remédio para os ajudar. Mas a vida comunitário foi-se alterando. As pessoas passaram a ter uma maior mobilidade geográfica. Não parece que tenhamos passado a trabalhar mais tempo, até porque os horários de trabalho sempre foram alargados. Mas os interesses das próprias pessoas passou a ser diferente e muitas famílias passaram a viver mais voltadas para dentro de si, ficando mais isoladas e afastadas das relações de vizinhança. Esta leitura sociológica feita um pouco à pressa na verdade serve o propósito de contextualizar o facto das pessoas saberem um pouco mais acerca dos seus vizinhos e como tal conseguiam enquadrar algumas das coisas que se iam passando, nomeadamente os barulhos que se ia ouvindo ao longo do dia e da noite.


As familias com crianças com Perturbação do Espectro do Autismo sabem que em determinados momentos, situações especificas ou períodos do dia é mais complexo conseguir ajudar a conter e a regular determinados comportamentos dos seus filhos. Na realidade isto é verdade para a grande maioria dos miúdos. Quem os tem sabe que os finais do dia são quase sempre mais difíceis. Seja porque as crianças já estão cansadas das múltiplas actividades que tiveram e o facto dos pais quererem imprimir mais um conjunto de regras e ainda por cima numa velocidade maior leva a que as crianças reajam e por conseguinte os pais também. Nas crianças autistas há todo um conjunto de questões que leva a que estas situações possam ser mais intensas e demoradas em conter. E as situações podem ocorrer ao longo do dia e da noite, muitas vezes de forma inesperada. Por exemplo, uma criança autista não verbal que acordou a meio da noite mais excitada que fica a saltar em cima da cama. Uma situação destas pode tornar-se difícil para os vizinhos de baixo que procuram descansar. Mas será certamente uma situação ainda mais complexa para aquela família, que igualmente procura descansar e que no dia seguinte terá trabalho e escola. Não é o envio de mensagens mais ou menos anónimas e ameaçadoras. Marcação de reunião de condóminos ou a realização de um baixo assinado para que as pessoas se vão embora da sua casa que os vais ajudar.


Todos as famílias, numa ou noutra situação da sua vida precisam de ajuda, e nem sempre têm alguém que os possa ajudar e principalmente compreender. Até porque algumas situações que leva a que as crianças autistas se desregulem emocionalmente pode ter a ver com alguns ruídos que vêm precisamente da casa dos vizinhos neurotipicos. Como tal, e tendo em conta a experiência que a Humanidade têm, a capacidade de os vizinhos se poderem envolver para procurar resolver a situação será certamente a melhor via.

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