Onde é que se vê daqui a 20 anos?
- pedrorodrigues

- 28 de jan. de 2021
- 4 min de leitura
Esta pergunta habitualmente feita em entrevistas de emprego ou em conversas circunstanciais entre amigos, seria interessante de ser respondida por qualquer um dos membros dos Rolling Stones. Longevidade à parte, a pergunta - Onde é que se vê daqui a 20 anos?, quando feita a uma pessoa autista, traz-nos a muitos de nós um maior desafio. Maior ainda do que a fórmula de longevidade do Keith Richards. Se formos perguntar a um jovem de 15 anos diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo, onde é que ele se vê daqui a 20 anos, muito provavelmente não iríamos conseguir obter uma resposta, ou pelo menos uma que nos ajudasse a compreender antecipadamente o que a pessoa pensa que pode acontecer. Até porque no Espectro do Autismo a vivência da noção de tempo apresenta algumas variantes e que leva a que esta vivência seja diferente. O tempo é uma característica onipresente da experiência humana e, portanto, tem sido ele próprio, objecto de investigação desde o início da civilização. Desde Santo Agostinho, ou pelo advento da psicologia moderna com William James, 1890. O tempo é tão fundamental para a nossa compreensão do mundo que é difícil imaginar um mundo sem ele. Procurem imaginar a incapacidade de representar a duração de um minutos, um ano, ou sermos incapazes de prever a mudança iminente do trânsito, ou a duração e um filme. Como saberíamos se as coisas já se teriam iniciado ou chegado ao fim? A nossa capacidade de perceber a estrutura temporal e nossa sensibilidade para cronometrar em escalas variadas, seja de curtas durações a longas durações, em termos perceptuais, conceptuais e níveis linguísticos, é central para o nosso funcionamento adaptativo, e todo comportamento é em última análise, assente sob o controle do tempo. Mas afinal onde é que a pessoa se vê daqui a 20 anos? E se essa pessoa é autista? A pergunta em questão é feita muito frequentemente pelos pais quando os filhos são diagnosticados na infância ou adolescência. E principalmente quando os pais começam a sentir que há muitas daquelas características que vão permanecer. Além de começarem a sentir que os filhos irão ter um conjunto maior de dificuldades ao longo da vida. E como tal, os pais procuram colocar esta pergunta - Onde é que ele estará daqui a 20 anos, porque a possibilidade de verem respondida essa pergunta sentem que conseguem prever alguns dos acontecimentos e desenvolver algumas estratégias para prevenir alguns desses mesmos acontecimentos, por exemplo. Mas os investigadores e os clínicos também colocam essa questão. Tentam procurar compreender como é que será o desenvolvimento das situações de vida das pessoas autistas, e que variáveis são promotoras de um melhor desenvolvimento, assim como quais aquelas que irão trazer um pior prognóstico. Assim, entre 1995 e 1998, uma equipa de investigadores começou a seguir um grupo de participantes autistas durante um período de cerca de 20 anos. Do total de 187 participantes, 153 rapazes e 34 raparigas, todos com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Sendo que 33% destes 187 tinham na altura entre 3 a 5 anos de idade, 35% entre os 6 e os 10 anos e 9% entre os 16 e 21 anos. Cerca de 12% (22) dos irmãos deste grupo também apresentava um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. O crescimento pré-natal apresentou um desenvolvimento normativo e ao nível pós-natal foi igualmente robusto. A média do QI foi de 49, sendo que 84% tinha um perfil cognitivo abaixo de 70 o que implica a coexistência de um défice cognitivo. É importante perceber que nem todas as pessoas no Espectro do Autismo apresentam um perfil cognitivo abaixo de 70. Ainda assim, cerca de ⅔ das pessoas no Espectro do Autismo enquadram-se neste perfil.Trinta e seis deste grupo nasceu antes das 37 semanas de gestação. Sessenta e quatro fizeram Terapia da fala e cerca de 31 alcançaram uma linguagem significativa. O tempo da terapia da fala variou consideravelmente entre cinco anos ou menos para 13 dos participantes, enquanto outros 15 tiveram terapia da fala entre 6 a 10 anos, e 27 fizeram durante 11 anos. Quarenta e um fez Terapia Ocupacional, com um tempo de terapia igualmente variável (i.e., entre 6 meses a 30 anos), e 21 deles fizeram ABA entre 1 a 30 anos. Quarenta e oito participantes receberam o seu diploma do final do Ensino Secundário. Trinta e nove tiveram situações clinicas de foco epiléptico. A maioria dos participantes que continuaram o estudo (149 dos iniciais 187) continuaram a receber apoio dos serviços de saúde e sociais. Cento e cinco do total vive em casa com os seus pais e cerca de 31 vivem em residências adaptadas na comunidade. Vinte e dois reportaram não ter tido nenhuma experiência profissional e entre os trinta e sete com experiências profissionais, estas ocorrem ao abrigo de programas comunitários. Apenas uma percentagem mínima dos participantes sabia gerir dinheiro. E no sentido oposto, uma percentagem elevada não tinha manifestado interesse em constituir uma família. Após a leitura deste post alguns ficarão a pensar - Certo, mas afinal onde é que uma pessoa autista vai estar ao fim de 20 anos? É uma pouco como as pessoas se sentem ao ouvir o Mick Jagger a cantar I can't get no satisfaction. Conseguem cantar mas não percebem boa parte daquilo que o Mick está a dizer. É fundamental poder continuar a compreender e a acompanhar as pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo ao longo da vida. Principalmente no maior período desta - a vida adulta. Para tal parece importante todo um conjunto de preparativos. Seja o poder continuar a ser investido mais no diagnóstico precoce, mas não deixar de descurar a relevância do diagnóstico em outros períodos da vida, nomeadamente no adulto. É importante poder trabalhar de uma forma diferente o processo de transição no acompanhamento da pessoa autista. Independentemente do seu perfil, havendo um maior ou menor compromisso em termos do quadro clínico. Ou seja, mesmo que a pessoa autista possa apresentar um conjunto maior e mais diversificado de competências e possa inclusive vir a concluir o Ensino Superior. É importante ter em conta que continua a haver um conjunto de competências, principalmente aquelas mais relacionadas com as questões funcionais e do quotidiano e que precisam de ser trabalhadas com a pessoa e a família. Certamente, que o trabalho a fazer não se centra apenas na pessoa autista. Há em todos nós um caminho de sensibilização a fazer.




Comentários