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Entre Silêncios e Presença: A Paternidade no Autismo

A paternidade no autismo permanece, ainda hoje, um território pouco cartografado. Se é verdade que o conhecimento científico sobre o autismo tem crescido de forma significativa nas últimas décadas, também é verdade que esse crescimento tem sido desigual, deixando zonas de sombra importantes. Entre essas zonas, destaca-se a compreensão do homem adulto autista e, de forma ainda mais marcada, a experiência daqueles que são pais.


Durante muito tempo, o autismo foi conceptualizado como uma condição predominantemente masculina na infância, o que contribuiu para uma focalização excessiva em rapazes e numa visão desenvolvimental centrada nos primeiros anos de vida. Esta lente reducionista teve consequências. Por um lado, invisibilizou mulheres autistas. Por outro, cristalizou a ideia de que o autismo é essencialmente um fenómeno infantil, negligenciando o percurso ao longo do ciclo de vida. Hoje sabemos que a diferença entre homens e mulheres autistas não é tão acentuada quanto se pensava. Ainda assim, continuamos a saber surpreendentemente pouco sobre o que significa ser um homem adulto autista, e menos ainda sobre o que significa ser pai nessa condição.


Importa reconhecer que muitas das características associadas ao autismo não são exclusivas desta condição. Dificuldades na comunicação social, padrões cognitivos específicos, necessidade de previsibilidade ou sensibilidade sensorial acrescida podem surgir em diferentes quadros clínicos ou até em variações da normalidade. Esta constatação convida a uma abordagem mais dimensional e menos categorial, mas também reforça a necessidade de compreender a singularidade da experiência autista em contextos concretos, como é o caso da parentalidade.


A paternidade, por si só, é um constructo profundamente moldado por representações sociais. Em muitas sociedades ocidentais, persiste a imagem dominante da família nuclear de classe média, composta por dois progenitores heterossexuais, em primeira união, com filhos biológicos, sendo o pai associado ao papel de provedor e a mãe ao de cuidadora principal. Esta narrativa é reforçada por instituições sociais diversas, incluindo os meios de comunicação, os sistemas jurídicos, a linguagem quotidiana e, em muitos contextos, a religião. Não se trata apenas de uma descrição, mas de uma prescrição implícita sobre o que deve ser uma família.


Este enquadramento cultural influencia profundamente a forma como concebemos a maternidade e a paternidade. Molda expectativas, legitima determinados comportamentos e invisibiliza outros. Consequentemente, também condiciona a forma como olhamos para famílias onde existe uma criança com diagnóstico de perturbação do espectro do autismo. É frequente ouvir-se que estas famílias tendem a ser monoparentais, com uma sobrecarga assumida maioritariamente pela mãe. No entanto, esta ideia, amplamente disseminada, carece de sustentação científica robusta. Trata-se, em grande medida, de um estereótipo que se autoalimenta, reforçado por narrativas mediáticas e por enviesamentos na investigação.


Quando introduzimos a variável de um pai que é ele próprio autista, a complexidade aumenta. Este pai encontra-se frequentemente numa posição paradoxal. Por um lado, pode partilhar com o filho ou filha modos de percecionar o mundo, sensibilidades e padrões cognitivos que favorecem uma compreensão empática profunda, ainda que não necessariamente expressa nos moldes convencionais. Por outro, pode enfrentar desafios específicos na gestão das exigências da parentalidade, sobretudo em contextos que exigem elevada flexibilidade, comunicação implícita ou multitarefa social.


Alguns pais autistas descrevem esta experiência com uma clareza que raramente encontramos nos discursos normativos sobre a parentalidade. “Ser pai obrigou-me a aprender uma linguagem emocional que nunca me foi ensinada, mas que sempre existiu em mim.” Outro testemunho revela a tensão entre exigência externa e autenticidade interna: “Sinto que estou constantemente a representar o papel de pai que esperam de mim, quando, na verdade, a minha forma de cuidar é mais silenciosa e estruturada.


A relação com filhos também autistas pode, em alguns casos, abrir espaços de reconhecimento mútuo. “Quando o meu filho se desorganiza com o barulho, eu não preciso que ele explique, eu sei exatamente o que está a sentir.” Ainda assim, essa proximidade não elimina as dificuldades. “Há dias em que o caos dele encontra o meu e ficamos os dois sem saber como sair dali.”


A ausência de modelos positivos e diversificados de paternidade autista contribui para o isolamento destes homens. Sem referências, muitos constroem a sua identidade parental em silêncio, entre a tentativa de corresponder a expectativas normativas e a necessidade de respeitar o seu próprio funcionamento. “Nunca tive um exemplo de um pai como eu, tive de inventar o caminho enquanto caminhava.” Acresce que os serviços de apoio e intervenção continuam, em grande medida, centrados na díade mãe-criança, relegando o pai para um papel periférico. Esta marginalização institucional reforça a invisibilidade já existente no plano social.


É fundamental, portanto, promover uma mudança de paradigma. Tal implica reconhecer a heterogeneidade das experiências familiares e abandonar conceções normativas rígidas. Implica também investir em investigação que inclua explicitamente homens autistas adultos, enquanto indivíduos e enquanto pais, explorando não apenas dificuldades, mas também competências, estratégias adaptativas e recursos internos.


A paternidade no autismo não deve ser entendida como uma versão deficitária de um modelo idealizado, mas como uma forma legítima e potencialmente rica de exercer o cuidado, a vinculação e a responsabilidade parental. Como descreve um pai: “Posso não ser o pai mais espontâneo, mas sou consistente, presente e profundamente comprometido.” Em vez de perguntar em que medida estes pais se aproximam de um padrão normativo, talvez seja mais fecundo perguntar o que nos ensinam sobre outras formas de estar em relação. Num campo ainda marcado por lacunas, abrir espaço à escuta destas experiências não é apenas uma exigência científica. É, sobretudo, um imperativo ético.


 
 
 

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