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A minha mãe é autista

Este é o desenho da minha mãe! disse Francisco (nome fícticio) de 7 anos. O Francisco tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo e está a frequentar o 3º ano. A professora pediu para os alunos fazerem no fim de semana um desenho da mãe, até porque no domingo dia 8 de março era o dia internacional das mulheres. Na segunda-feira quando mostrou o desenho na aula houve quem colegas que riram, enquanto que outros nem repararam enquanto procuravam mostrar os seus desenhos aos colegas. A professora chegou junto do Francisco e pediu o desenho para ver melhor. Ficou algum tempo a olhar enquanto procurava dizer aos outros alunos para não fazerem muito barulho. A professora está a aprender a lidar com o Francisco e ainda mais a procurar perceber melhor o que é ter um aluno com esta condição. É nova na escola, mas já percebeu que o Francisco é um aluno capaz de muitas outras coisas. Baixou-se e perguntou-lhe - Onde é que a tua mãe está no desenho? Não se vê! diz Francisco. Mas onde está a tua mãe no desenho? insistiu a professora. Não se vê. Ela estava atrás de mim enquanto eu a desenhava e por isso é que ela não aparece no desenho! diz Francisco. Eu pedi à minha mãe para ela vir para ao pé de mim para eu fazer um desenho dela para trazer para a professora e ela ficou atrás de mim a olhar para eu a desenhar! A minha mãe é autista! disse.


A Cláudia (nome ficiticio) é a mãe do Francisco. A Claúdia tem 42 anos e tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. A Cláudia tem um outro filho mais velho de um casamento anterior.


Este texto não é sobre o Francisco, ainda que a história do Francisco seja também ela muito interessante. O texto também não irá ser sobre a Cláudia. Pelo menos não será apenas só sobre ela, mas antes sobre as mães autistas.


Durante muitos anos, falar de autismo significou quase automaticamente falar de infância. Ou seja, estariamos apenas a falar do Francisco. A imagem social do autismo ficou associada à criança, à escola, ao desenvolvimento inicial. Contudo, nas últimas décadas, o campo tem vindo a alargar-se e a complexificar-se. Fala-se hoje mais sobre o autismo nas pessoas adultas, discute-se o fenótipo do autismo no feminino e começa lentamente a emergir atenção para as pessoas autistas acima dos 65 anos. Neste movimento de expansão do olhar, surgem novas perguntas e novas realidades. Entre elas, uma que continua relativamente pouco explorada, a experiência das mães autistas.


Curiosamente, quando as mães autistas entram na conversa pública ou científica, muitas vezes é sobretudo através de uma lente de vulnerabilidade. Fala-se do burnout parental mais elevado, de níveis acrescidos de stress ou de sintomas psicológicos mais intensos quando comparadas com mães neurotípicas. Também se abordam as dificuldades práticas que podem surgir quando uma pessoa com diagnóstico de perturbação do espectro do autismo navega as exigências sociais, sensoriais e organizacionais da parentalidade. Estas dimensões são reais e merecem reconhecimento e apoio. No entanto, reduzir a maternidade autista apenas a um conjunto de dificuldades clínicas ou funcionais empobrece profundamente a compreensão desta experiência.


Ser mãe, para qualquer mulher, não é apenas uma função biológica ou social. É também uma experiência existencial, identitária e relacional. O mesmo acontece com as mulheres autistas. A maternidade começa muitas vezes antes da própria gravidez, no pensamento sobre a possibilidade de vir a ser mãe, nas expectativas, receios e desejos que se constroem ao longo do tempo. Segue-se a gravidez, com as suas mudanças físicas, emocionais e sensoriais, frequentemente vividas de forma particularmente intensa por algumas mulheres autistas. Depois vem o pós-parto, período que convoca adaptações profundas, tanto no cuidar do bebé como no cuidar de si própria enquanto pessoa que continua a ter uma história, necessidades e limites.


Muitas mães autistas descrevem também pontos fortes específicos associados ao seu modo de funcionamento. Algumas relatam uma grande atenção ao detalhe no cuidado quotidiano, uma forte consistência nas rotinas familiares, uma dedicação intensa aos interesses e necessidades dos filhos e uma profunda sensibilidade às experiências internas das crianças. Estas características podem constituir recursos significativos na parentalidade. Não se trata de romantizar o autismo, mas de reconhecer que as formas diferentes de perceber, organizar e responder ao mundo também podem gerar competências particulares no contexto familiar.


Ao mesmo tempo, a maternidade autista é frequentemente atravessada por desafios que não se explicam apenas pelo funcionamento individual. Muitas mulheres relatam experiências de exclusão sistémica, estrutural e social. Sentem-se frequentemente observadas, avaliadas ou mesmo policiadas nas suas práticas parentais. Descrevem contextos institucionais onde as suas dificuldades são rapidamente patologizadas e onde a sua autoridade enquanto mães pode ser questionada por profissionais de saúde, educação ou serviços sociais. Esta dinâmica pode gerar sentimentos de desconfiança, vulnerabilidade e isolamento.


A intersecção entre identidade autista e identidade materna torna-se, assim, um espaço particularmente complexo. Algumas mulheres descobrem o seu próprio autismo apenas depois de terem filhos, frequentemente quando procuram compreender melhor o desenvolvimento das suas crianças. Outras já têm diagnóstico, mas enfrentam sistemas que raramente estão preparados para apoiar mães autistas de forma informada e respeitosa. Em ambos os casos, a ausência de modelos, de investigação e de reconhecimento social contribui para uma experiência muitas vezes solitária.


Não surpreende, portanto, que os estudos apontem para uma maior prevalência de dificuldades psicológicas e uma necessidade acrescida de apoio entre mães autistas. Contudo, este dado deve ser interpretado com cautela. Parte destas dificuldades pode estar menos relacionada com o autismo em si e mais com contextos sociais pouco adaptados, expectativas normativas rígidas sobre o que significa “ser uma boa mãe” e sistemas de apoio que raramente consideram a neurodiversidade na parentalidade.


Falar de mães autistas, portanto, não é apenas acrescentar mais uma categoria ao discurso sobre o autismo. É abrir espaço para compreender a maternidade a partir de uma diversidade de experiências neurológicas, identitárias e sociais. É reconhecer que mulheres autistas não são apenas pacientes ou cuidadoras exaustas, mas também mães que pensam, sentem, escolhem, criam e constroem relações significativas com os seus filhos.


Talvez o verdadeiro desafio esteja em aprender a escutar estas experiências sem as reduzir a diagnósticos ou estereótipos. Porque, quando isso acontece, torna-se possível ver algo simples e profundamente humano. As mães autistas não são apenas mães que enfrentam dificuldades particulares. São mães que habitam o mundo de uma forma própria e que, nesse caminho, continuam a procurar aquilo que todas as mães procuram, cuidar, proteger e acompanhar os seus filhos enquanto também tentam permanecer fiéis a si mesmas.


 
 
 

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