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(IA)2: Intolerância à Incerteza em Autistas Adultos

"Two roads diverged in a yellow wood,

And sorry I could not travel both

And be one traveler, long I stood

And looked down one as far as I could

To where it bent in the undergrowth;"


Robert Frost, in The road not taken


Muito provavelmente Robert Frost também teria algum nível de intolerância à incerteza. Afinal, perante uma estrada bifurcada, encontrou tempo e estado de espírito suficientes para escrever um dos poemas mais icónicos da literatura. Fica a nota mental, com a devida ironia, de que até a contemplação poética pode ser uma forma elegante de negociar com o desconhecido.


A incerteza não é um acidente da experiência humana. É uma condição estrutural da existência. Desde os primeiros momentos de vida, passando pela infância, pela turbulência da adolescência e pela entrada na vida adulta, até às transições mais tardias, como a parentalidade ou o envelhecimento, o percurso humano é marcado por momentos em que o previsível se dissolve e o futuro se torna opaco. Em cada uma destas etapas, somos convocados a reorganizar expectativas, redefinir identidades e tolerar a ausência de garantias.


Se, para muitos, a pandemia de COVID-19 tornou mais visível a experiência da incerteza, ela sempre esteve presente. A história da humanidade está atravessada por períodos em que o desconhecido se impôs de forma abrupta, como durante a Primeira Guerra Mundial ou a Segunda Guerra Mundial. No entanto, para além destes acontecimentos extraordinários, importa reconhecer que a incerteza habita também o quotidiano mais banal, silenciosa mas persistente.


A intolerância à incerteza pode ser entendida como uma dificuldade significativa em suportar o desconforto associado ao não saber. Trata-se de uma predisposição psicológica que envolve dimensões cognitivas, emocionais e comportamentais. Quando presente de forma acentuada, manifesta-se como uma espécie de “alergia” à ambiguidade, na qual a incerteza é percecionada como ameaça, injustiça ou falha intolerável do mundo. O resultado é frequentemente um aumento da ansiedade, da preocupação e de estratégias de controlo rígido, muitas vezes infrutíferas.


Importa sublinhar que esta característica existe em todos nós, variando em intensidade e expressão. Está associada, por exemplo, a níveis mais elevados de ansiedade e a estilos cognitivos mais orientados para a antecipação de risco. Contudo, no caso de adultos autistas, a experiência da incerteza tende a assumir uma magnitude qualitativamente distinta.


No contexto do Perturbação do Espectro do Autismo, a intolerância à incerteza não é apenas mais frequente, é também mais estrutural. Está profundamente entrelaçada com características nucleares do funcionamento autista, como a preferência por previsibilidade, a necessidade de rotinas consistentes, a dificuldade em lidar com ambiguidade social e a tendência para um processamento mais literal e detalhado da informação.


Para muitos adultos autistas, a incerteza não é apenas desconfortável. É desorganizadora. Pequenas variações no ambiente, alterações inesperadas de planos ou ausência de informação clara podem desencadear níveis elevados de ansiedade, levando a respostas como evitamento, rigidez comportamental ou sobrecarga emocional. Aquilo que para uma pessoa não autista pode ser uma ligeira perturbação do plano, para uma pessoa autista pode representar uma quebra significativa da previsibilidade interna que sustenta o seu funcionamento diário.


Do ponto de vista funcional, os seres humanos, tal como outros animais, procuram reduzir a incerteza para melhor prever e responder ao ambiente. Esta tendência é adaptativa. Permite evitar ameaças, procurar recompensas e manter um sentido de segurança. No entanto, quando a necessidade de reduzir a incerteza se torna excessiva, pode conduzir a ciclos disfuncionais. A procura incessante de informação, a necessidade de confirmação constante ou a tentativa de controlo absoluto do ambiente acabam por amplificar, em vez de reduzir, a ansiedade.


Este fenómeno torna-se particularmente relevante em contextos contemporâneos, onde o acesso à informação é praticamente ilimitado. Durante a adolescência, uma fase já marcada por instabilidade e transformação, a exposição contínua a fluxos informativos ambíguos, contraditórios ou emocionalmente carregados pode intensificar a incerteza. A tendência para a sobreamostragem de informação, ou seja, a procura repetida e excessiva de dados na tentativa de alcançar certeza, pode transformar-se num ciclo vicioso. Procura-se informação para reduzir a incerteza, mas a própria natureza da informação disponível mantém ou aumenta essa incerteza.


Em jovens e adultos autistas, este ciclo pode ser ainda mais pronunciado. A necessidade de clareza e previsibilidade, combinada com dificuldades em filtrar, hierarquizar e integrar informação ambígua, pode levar a estados prolongados de ansiedade e exaustão cognitiva. Nestes casos, estratégias estruturadas de gestão da informação tornam-se particularmente relevantes. Definir previamente o que se procura, limitar o tempo de exposição e aceitar que nem toda a incerteza pode ser resolvida são passos fundamentais.


A questão central mantém-se. Porque é que alguns indivíduos conseguem avançar apesar da incerteza, enquanto outros ficam bloqueados? A resposta não é simples, mas passa, em grande medida, pela forma como a incerteza é interpretada. Quando é vista como parte inevitável da vida, pode ser integrada. Quando é percecionada como intolerável, transforma-se num obstáculo persistente.


No trabalho clínico com adultos autistas, torna-se essencial reconhecer que a intolerância à incerteza não é um traço isolado a corrigir, mas sim uma dimensão a compreender e a integrar no plano terapêutico. Intervenções baseadas em modelos cognitivo-comportamentais podem ser adaptadas para incluir exposição gradual à incerteza, desenvolvimento de flexibilidade cognitiva e construção de um sentido interno de previsibilidade que não dependa exclusivamente do ambiente externo.


Talvez o objetivo não seja eliminar a incerteza, tarefa impossível, mas transformar a relação com ela. Entre a necessidade de controlo absoluto e a aceitação resignada, existe um espaço intermédio onde é possível viver com alguma margem de desconhecido, sem que isso implique colapso. É nesse espaço que, lentamente, se constrói uma forma mais sustentável de habitar o mundo.


 
 
 

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