Not for medical usage
- pedrorodrigues

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Nota mental: Não é um texto sobre o autismo no adulto, mas é um texto sobre o autismo no adulto.
A inscrição surge como um aviso técnico, aparentemente neutro, quase desprovido de intenção, mas nela habita uma ironia difícil de ignorar. “Not for medical usage”. Uma frase que procura limitar o alcance de uma imagem, circunscrevê-la a um uso específico, como se fosse possível conter aquilo que nela se revela. No entanto, o que ali se observa não é apenas um artefacto visual, nem um simples registo anatómico. É um fragmento de humanidade, um vestígio vivo de tudo aquilo que pensamos, sentimos, tememos e decidimos. É, de algum modo, uma geografia íntima onde se inscreve a história de cada pessoa.
As técnicas de neuroimagem abriram uma possibilidade que durante séculos pertenceu mais ao imaginário do que à prática científica. Pela primeira vez, tornou-se possível olhar para o cérebro vivo, não como um objecto silencioso dissecado após a morte, mas como um sistema em permanente actividade. A ressonância magnética e outras tecnologias permitiram aceder a essa complexidade sem a violência da intervenção directa, substituindo a trepanação literal por uma espécie de transparência iluminada. Se outrora se perfurava o crânio na tentativa de libertar forças invisíveis, hoje tentamos compreender padrões, redes, dinâmicas. Passámos da expulsão do desconhecido para a tentativa de o integrar no conhecimento.
E, no entanto, apesar desta aproximação inédita ao funcionamento do cérebro, a interrogação mantém-se quase intacta. Por que razão o ser humano continua a tomar decisões que parecem contrariar a sua própria sobrevivência, o seu bem-estar, a sua dignidade colectiva?
A ciência oferece pistas, mas não respostas finais. Sabemos que a tomada de decisão não é um acto puramente racional. O cérebro não funciona como um tribunal lógico onde cada argumento é ponderado de forma equilibrada. Emoções, memórias, expectativas e contextos entrelaçam-se numa coreografia complexa. Há sistemas que privilegiam a rapidez em detrimento da reflexão, que respondem ao imediato antes de considerar o longo prazo. Esta herança evolutiva, que foi essencial para a sobrevivência em ambientes hostis, revela-se por vezes desajustada face aos desafios contemporâneos. Mas reduzir o problema a esta dimensão biológica seria empobrecer a sua profundidade.
O comportamento humano emerge sempre numa relação. Não existe isolado do contexto social, cultural e histórico. A forma como percebemos o outro, como definimos o que é aceitável ou ameaçador, como construímos narrativas de pertença ou exclusão, tudo isso molda as nossas decisões. A capacidade de empatia pode expandir-se ou retrair-se consoante as circunstâncias. E, nesse movimento, torna-se possível justificar aquilo que, noutro contexto, seria impensável.
Vivemos numa época em que a liberdade é frequentemente invocada como princípio absoluto, quase como um território sem fronteiras. Fala-se de liberdade de expressão com uma intensidade que revela tanto a sua importância como a sua fragilidade. No entanto, essa mesma liberdade é, não raras vezes, utilizada como instrumento de imposição. Em nome dela, silenciam-se vozes, deslegitimam-se existências, restringem-se direitos. A bandeira que deveria proteger torna-se, por vezes, um mecanismo de pressão. E nesse gesto, profundamente humano e profundamente contraditório, revela-se a ambiguidade da nossa condição.
A discussão em torno da diversidade, incluindo a diversidade de género e de expressão da sexualidade, é um exemplo particularmente sensível desta tensão. A ciência tem vindo a mostrar que a variabilidade humana é mais ampla do que as categorias rígidas que durante muito tempo estruturaram o pensamento social. O cérebro, na sua plasticidade e singularidade, não se encaixa facilmente em dicotomias simples. E, no entanto, perante esta complexidade, emergem respostas que procuram reduzir, simplificar, controlar. Não necessariamente por malícia consciente, mas muitas vezes por necessidade de estabilidade, por receio do desconhecido, por dificuldade em integrar aquilo que desafia referências antigas.
Neste cenário, assiste-se a um fenómeno inquietante, uma espécie de afastamento progressivo entre o conhecimento científico e as decisões colectivas. A evidência deixa de ser critério suficiente. Narrativas alternativas, muitas vezes desprovidas de sustentação empírica, ganham espaço e influência. A dúvida, que é essencial ao pensamento científico, transforma-se por vezes em desconfiança generalizada. E, nesse processo, corre-se o risco de voltar a fechar o cérebro, não fisicamente, mas simbolicamente. De limitar o seu estudo, de rejeitar a sua complexidade, de preferir explicações simplistas que oferecem conforto imediato.
A imagem da antiga trepanação ressurge aqui como metáfora. Não já como prática médica, mas como impulso cultural. Em vez de compreender o que é diferente, tenta-se removê-lo, isolá-lo, classificá-lo como erro. A diferença torna-se incómoda, e o incómodo procura resolução rápida. Como se ainda navegássemos numa nau de incerteza, procurando afastar aquilo que não conseguimos integrar.
E talvez seja neste ponto que a frase inicial ganha uma nova densidade. “Not for medical usage” pode ser lida não apenas como limitação técnica, mas como provocação. O conhecimento do cérebro, por mais sofisticado que se torne, não é suficiente para resolver os dilemas humanos. Não substitui a necessidade de reflexão ética, de responsabilidade colectiva, de abertura ao outro. Não há imagem que capture a totalidade da experiência humana, nem tecnologia que elimine a necessidade de escolha.
O cérebro que se observa na imagem, seja ele o de quem a contempla ou o de qualquer outra pessoa, contém em si a possibilidade de criar, de destruir, de cuidar, de excluir. É simultaneamente lugar de vulnerabilidade e de potência. E talvez a verdadeira questão não seja apenas compreender como funciona, mas interrogar o que fazemos com esse funcionamento. Entre o impulso e a acção existe um espaço. Um espaço frágil, mas decisivo. É nesse intervalo que se joga, silenciosamente, o futuro do humano.




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