Onde fica a (neuro)diversidade?

Nos últimos tempos muito se tem falado e escrito sobre a camuflagem social, e em particular nas pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). Além do termo camuflagem social, também poderão encontrar outras designações possíveis, tais como, mascaramento, compensação, ou pretensão para ser normal. As estratégias de camuflagem são diversas. Algumas são relativamente simples, como por exemplo, quando alguém toma a decisão de não fazer seus stims favoritos quando estão entre pessoas não autistas, ou desenvolve regras para usar o contacto ocular de uma forma convencional. Mas outras estratégias de camuflagem são mais elaboradas e complexas, desenvolvidas por meio de uma campanha de aprendizagem cuidadosa, consciente e duradoura no tempo. Mas afinal o que se trata quando falamos de camuflagem social e afinal de contas este comportamento é exclusivo nas pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo? Em relação à primeira pergunta, a camuflagem social é um termo usado para descrever um conjunto de comportamentos que escondem ou mascaram aspectos de si mesmo das outras outros, ou para passar despercebido nas interações sociais quotidianas. Em relação à segunda questão - não, a camuflagem social, não é algo exclusivo das pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo. Mas então? A questão é bem mais complexa do que se possa pensar. Tornarmo-nos seres humanos, estaremos a falar de um nível diferente, de nos tornarmos Francês, Mongol ou Afro Americano. E será certamente diferente de me tornar Pedro Rodrigues, José Saramago ou Mário Soares.

Nas pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), esta questão da camuflagem social tem sido bastante abordada por várias razões. Seja porque a camuflagem social explica o porquê de continuar a haver muitas raparigas e mulheres que são diagnosticadas tardiamente com PEA. Principalmente as mulheres, mas também há rapazes e homens em que esta mesma situação ocorre. Mas também porque se sabe que há um agravamento do sofrimento psicológico nas pessoas que se camuflam. Quanto mais a pessoa usa estratégias de compensação social na interacção com os Outros, maior desgaste físico e emocional, e por conseguinte de sofrimento psicológico. Além do facto destes indicadores estarem relacionados com o aumento dos números de suicídio no Espectro do Autismo. Mas esta questão da camuflagem social também nos leva a poder reflectir da forma como as pessoas não autistas pensam acerca do que são as características da PEA. E de como as pessoas com PEA pensam acerca do que necessitam de ser para se sentirem integradas.


Ainda assim, esta questão da camuflagem social não é exclusiva do Espectro do Autismo. Os seres humanos desde há muito que têm conjunto de comportamentos mais ou menos complexos usados para esconder ou mascarar aspectos da sua própria pessoa junto dos outros. Se pensarmos nas pessoas durante o período da adolescência por exemplo, podemos lembrar que é algo comum de ocorrer. Numa altura em que se procura a identidade própria e a pertença ao grupo, é frequente verificarmos comportamentos que denotam algumas características de camuflagem social.


Quando se fala de camuflagem é frequente dizermos que a visibilidade da pessoa é dependente do destaque da mesma em relação ao contexto envolvente. Além de que a camuflagem está intimamente ligada à mimética. Ambas referem-se a relações opostas. A camuflagem é um logro, mas não pode ser entendida sem um conceito de realismo mimético. Elas colocam ênfase na confiança e na desconfiança, respectivamente. Ao designar questões opostas, elas também se referem a técnicas idênticas de relacionamento com o mundo, resultando em repetição e criatividade. E embora o termo camuflagem não tenha sido usado antes do século XIX, a mimética pode ser rastreada até a origem da literatura e filosofia europeias. De Platão em diante, a mimética tem sido um conceito para uma relação próxima com a realidade.


A experiência de camuflagem está intimamente ligada à imitação. E esta relação pode ser observada nos seres humanos mas também nos animais. Por exemplo, é comum podermos observar na natureza um conjunto de exemplos em que certos animais procuram imitar o som de outras espécies como forma de se protegerem. Mas também verificamos que este comportamento de imitação pode servir o propósito de aproximação.


E no caso dos ser humanos verificamos que muito da modelagem social assenta sobre este comportamento de imitação. A criança desde pequena imita o comportamento do Outro para poder aprender. Ou imita determinados papéis sociais para poder aprender e desenvolver competências. E quantas vezes na infância, mas não só, a criança aprende que o facto de imitar o que o Outro faz é positivo e por conseguinte é reforçada? Um parte significativa da infância, nomeadamente na Escola, vamos sendo ensinados a pensar e agir de uma forma standardizada, de acordo com as normas do grupo. E o que acontece quando em crianças e jovens temos comportamentos diferentes do grupo? Normalmente somos alvo de discriminação e julgamento social. E em adultos em contexto de trabalho por exemplo, é habitual usar a imitação para facilitar a aprendizagem de determinado processo de trabalho.


No entanto, o conceito de camuflagem social é complexo, e precisamos de entender que historicamente este conceito também foi sendo associado ao logro, ao engano. E como tal, seja a pessoa que está a ter o comportamento de camuflagem, mas também os que estão a interagir consigo, vão poder deduzir um sentimento negativo dessa experiência. O que usa a camuflagem inclusive por sentir que não está a ser ele próprio e a sentir que tem de ser outro alguém para ser aceite. As outras pessoas principalmente vão sentir que foram enganadas.


E podemos sempre pensar que muitos de nós, senão mesmo todos, já usaram estratégias de camuflagem social em determinada situações. Por exemplo, na festa de Natal da empresa a pessoa procura disfarçar que está bem, mesmo que possa saber que em janeiro irá terminar o seu contrato de trabalho. Ou então, podemos inclusive pensar em algo bem mais simples e frequente no nosso quotidiano. Quantas vezes nos perguntam - Como estás? E frequentemente respondemos - Estou bem!, quando na verdade não o estamos. E para aqueles que já experimentaram dizer - Não estou muito bem!, qual não foi a reacção da pessoa com quem interagiam?


Ficamos com esta sensação de que devemos tender para a norma, aproximarmo-nos daquilo que pensamos ser normativo, com a ideia de que se o fizermos seremos aceites. E isto é algo tão real, seja para pessoas autistas e não autistas. Ainda que no caso destes últimos estes estejam mais desprotegidos e vulneráveis do pronto de vista psicológico.


Precisamos de ajudar as pessoas a aprenderem a se conhecer, mas também a valorizar a sua identidade. E no caso de estarmos a fazer isto de uma forma alargada iremos estar a proteger o individuo para uma sensação de segurança em serem eles próprios. E isto mais uma vez é verdade para pessoas autistas e não autistas. A intervenção nas pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo precisam de fazer incidir este aprofundamento e empoderamento. Além do mais, precisamos todos de reflectir onde está o espaço para a (neuro)diversidade, para a capacidade criativa. Ficamos frequentemente assustados com o diferente, com aquilo que foge do normativo. E esse aspecto é corroborado por várias outras forças, nomeadamente, os manuais de diagnóstico das perturbações mentais, que reforçam que os comportamentos atípicos são alvo de diagnóstico, e por conseguinte de serem olhados como sendo negativos, a remover.

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