Onde cabe o meu corpo?

Raúl (nome fictício), agora com 42 anos, tem um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo desde os quatro anos de idade. Nos seus primeiros anos de vida não falava. Aquilo que se designa frequentemente de Autismo não-verbal. Se fosse diagnosticado nos dias de hoje, Raúl teria uma Perturbação do Espectro do Autismo nível 2. A sua situação clinica apresenta um grau maior de severidade devido ao impacto das suas dificuldades motoras e da fala. O certo é que Raúl conseguiu escrever com relativa autonomia desde cedo. E isso também lhe permitiu narrar a sua experiência subjectiva enquanto pessoa com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. As suas palavras escritas foram contando a sua história, na medida de como o Raúl via as pessoas e o Mundo. O meu autismo não é aquele que me diagnosticaram, mas sim aquele que eu conto, diz a determinado momento da consulta. A ideia não é questionar a evolução que o diagnóstico de autismo foi tendo ao longo da vida, ou a forma como este mesmo diagnóstico é realizado. A ideia, se é que pode ser chamado de ideia, passa por pensar a pessoa e a sua experiência subjectiva, aquela que ocorre na primeira pessoa. O que podemos designar de experiência fenomenológica. Nunca me perguntaram como é que eu via, pensava ou sentia as coisas, refere. Limitavam-se a dizer como é que eu tinha de fazer ou não fazer as coisas, continua. E alguns dos terapeutas também o fizeram. Não apenas os meus pais e irmãos. A esses consegui perdoa-los. Não me souberam amar. Os terapeutas não tinham de me amar. Precisavam de me compreender e respeitar. E isso é bem mais fácil do que amar, concluiu. Muitas vezes ouvi dizer que a minha pessoa não apresentava intencionalidade, fosse de falar ou fazer alguma coisa. Na altura em questão ainda não dizia nada, é verdade. Mas escrevia, e mais do que isso, pensava e sentia aquilo que vivia. Mais tarde escrevi que a intencionalidade não é apenas uma coisa do nível da consciência, mas também uma forma de como o Mundo se apresenta para nós, refere pausadamente lendo alguns apontamentos que tinha trazido consigo. A intencionalidade é essencialmente uma intencionalidade motora e corporal. A forma como o meu corpo está direccionado para o Mundo no momento em que realizo as minhas actividades práticas e perceptivas. Esse é a forma como nós procuramos entender o Mundo. Essa foi decididamente a forma como eu o entendi, e a mim também, concluiu. As pessoas insistiam na correção. E principalmente na interpretação da minha acção. Ao ponto de afirmarem aquilo que as minhas experiências poderiam fazer ou não significado para mim. Mais tarde, quando aprendi a fazê-lo, sorri. Como é que as pessoas poderiam pensar uma coisa dessas?, questiona-se em voz alta. Nem eu próprio percebia porque o fazia! Algumas delas apenas fui percebendo ao longo do tempo. Aquilo que faz o Mundo aparecer como um sistema significativo de objectos na minha experiência, não é a maneira que eu penso sobre o mundo ou no fazer julgamentos sobre isso. Nem é a maneira como o meu corpo, tal qual um pacote de processos químicos e físicos são projectados para senti-lo. O que torna o mundo significativo para mim é sim a maneira como meu corpo, em virtude da percepção forma um sistema com o mundo. Quando eu me colocava na esquina da casa dos meus pais a apanhar com o sol apenas em parte do meu corpo, não tinha a ver sobre o que eu pensava sobre o sol. Aquilo que eu pensava sobre o sol aprendia-o em livros. Da mesma maneira que não tinha a ver com o que eu pensava sobre o que eu estava ali a fazer. Por vezes sentia nem pensar, suspira. Aquele momento singular em que ali estava voltado daquela forma na interacção com o sol, e do modo como tudo aquilo se conjugava, isso sim era o significado a extrair. Muitas das vezes gritavam comigo para tirar a cabeça do sol. Ou quando vinham falar comigo tapavam o sol com a sua mão, não o deixando sequer aquecer o seu rosto. A minha forma pareci-me ser uma tentativa honesta de experimentar o Mundo. E essa objectivo está firmemente fundamentado na suposição básica de que se queremos entender o autismo, a compreensão de como ele se manifesta na experiência da primeira pessoa é absolutamente Indispensável, encosta-se e afunda no cadeirão. A Teoria da Mente, desde 1980 que tem mantido uma posição dominante como quadro explicativo na investigação do Autismo, localizando o núcleo do autismo num déficit nos processos cognitivos, indiscutivelmente responsável pela nossa capacidade de compreender a mente dos outros. O termo "teoria da mente" tem desempenhado, desde então, um papel importante nas discussões sobre a natureza da compreensão social em psicologia e filosofia da mente, e acabou por ganhar o rótulo de paradigma na psicologia cognitiva. A ideia básica de que a compreensão social requer a aplicação de conceitos do estado mental por meio de habilidades cognitivas de ordem superior teve um tremenda influência na investigação convencional e na abordagem terapêutica no Autismo, onde as dificuldades sociais proeminentes apresentadas por autistas são explicadas como um déficit no nível sistema cognitivo responsável por compreender os outros. Mas tal como no Espectro do Autismo assistimos a uma tão complexa e intricada heterogeneidade. Também nos parece importante que os quadros de referência de leitura e conceptualização do Autismo possam ser variados. Por exemplo, no campo da filosofia, a fenomenologia é uma tradição que desde o início do século 20 tem proporcionado análises abrangentes e profundamente interessantes no campo da psicologia, tal como a subjectividade, intersubjectividade e o embodiment. Além disso, as ideias fenomenológicas apresentam um desafio aos pressupostos básicos da investigação da Teoria da Mente e fornecem uma base teórica estrutural que produz diferentes respostas de como entender o autismo. Por exemplo, os problemas corporais e perceptivos, que são fundamentais para o Autismo, continuam sem ter uma explicação adequada. Mas também o facto de que o Autismo pode ser estudado sem referência à experiência subjectiva das próprias pessoas. Sendo que esta última nos parece ser ainda assim aquela mais preocupante. Durante sua infância, Raúl sentia depender fortemente em ser capaz de realizar certos movimentos e ações, a fim de se sentir à vontade consigo mesmo e no controlo do seu próprio corpo. Na minha casa havia uma ventoinha de tecto na sala. Eu costumava colocar-me mesmo debaixo dela e procurava girar o meu corpo o mais rápido que podia. E ao mesmo tempo que girava perguntava-me se alguma vez me tornaria transparente como a ventoinha. Sentia que conseguia reunir as partes do meu corpo enquanto girava, para que conseguisse sentir os meus braços, pernas e dedos, num controlo total. Eu tinha a certeza dos meus movimentos e do que eu deveria ver à medida que girava com mais e mais força. Sentir-me seguramente acalmava os meus sentidos, diz. Penso que o terapeuta chamava aquilo de rituais e também de comportamentos esterotipados, enfim. Nós somos o nosso próprio corpo, e só como sujeito corpo é que consigo exercitar o meu ser no Mundo. Da mesma forma que quando movimento o meu braço para alcançar a chávena de café, eu não estou a ter consciência de todos os músculo que estou a movimentar para o fazer. Aquilo que estou a fazer é dirigir todo o meu corpo em direção ao objectivo pretendido. Estou consciente do meu corpo como um todo na minha direccionalidade em relação à situação. Adquirir um hábito, tal como o procurar agarrar a chávena do café, é o desenvolvimento de uma compreensão corporal do mundo. Quando o nosso corpo aprende a interagir com os objetos da maneira habitual, o objecto deixa de ser um objeto para nós, e passa a ser incorporado no espaço corporal como uma extensão dele. Por exemplo, para abotoar a minha camisa, usei apenas uma mão no começo. Eu não poderia usar as duas mãos de duas maneiras diferentes. O comportamento de abotoar precisa de duas mãos a trabalhar de duas maneiras diferentes, cada mão apoiando a outra num esforço cooperativo. [...] Como a minha mãe começou lentamente a colocar mais responsabilidade em mim para abotoar a minha camisa, e sem que eu percebesse, comecei imediatamente a usar ambos os braço e mãos. Uma vez que eu entendi a tarefa, eu poderia mapeá-la bem em torno do meu corpo. Cada tentativa bem sucedida tinha esse tipo de mapeamento bem estabelecido na minha mente. Eu poderia fazer essas cosias de forma independente. [...] E foi assim que eu comecei a mapear os botões, não apenas como um deficiente visual o faz, como eu fazia anteriormente, acrescenta. Há um número infindável de comportamentos que observamos todos os dias nas pessoas que nos rodeiam. Será provavelmente aquilo que mais fazemos na nossa vida, independentemente de ser psicólogos ou não. E no caso das pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo igualmente. Mas a nossa conceptualização face aquilo que são um conjunto de comportamentos normalmente encontrados na Perturbação do Espectro do Autismo, leva-nos a assumir que é assim que aquela pessoa que ali se encontra na nossa frente o viveu, sentiu e o descreve. Mas tal como o Raúl o disse, O meu autismo não é aquele que me diagnosticaram, mas sim aquele que eu conto.


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