O que vejo no retrovisor?

Por vezes quando estou a ajustar o retrovisor e me vejo, assusto-me! Diz Cláudia (nome fictício) em relação aquilo que ela chama das suas esquisitices de sempre. Não tenho por hábito ver-me ao espelho. E na verdade nunca percebi a necessidade de tantos espelhos na vida das pessoas! Excepto se pensar nos espelhos dos carros e no facto das pessoas de uma maneira geral necessitarem de se "adorar!", conclui. Cláudia agendou uma consulta de psicologia para esclarecer algumas dúvidas. Mais uma vez, como ela própria sublinha, dizendo que já o tentou desesperadamente fazer ao longo destes anos todos. Cláudia tem 39 anos e há 21 anos que anda nisto - de procurar esclarecer umas dúvidas. Tem lido muito sobre várias coisas, seja dos seus interesses que foram variando, alguns, ao longo dos anos. Mas também têm lido sobre o comportamento e mais especificamente sobre os comportamentos que ela própria identifica em si desde sempre. Como a próprio disse a certo ponto da consulta - Se os profissionais de saúde não me respondem às questões e necessidades, tive de ser eu a ir à luta. Mas é uma luta injusta. E além disso, até eu própria sei que preciso da compreensão do outro na relação, nomeadamente com os profissionais de saúde, para obter ajuda e compreensão em relação à minha pessoa e ao Mundo.

"I took a drive today

Time to emancipate

I guess it was the beatings made me wise

But I'm not about to give thanks, or apologize"


Rearviewmirror, Pearl Jam


Cláudia, durante 21 anos, sensivelmente após ter feito os 18 anos, que coincidiu com a sua entrada na Universidade, decidiu que havia de ir procurar alguém que a ajudasse a compreender algumas das muitas questões acumuladas ao longo daqueles anos. Por que é que as raparigas passam horas intermináveis a conversar sobre coisas que parecem não ter sentido alguma a não ser para elas próprias? Por que é que o interesse nos rapazes, pelo menos a partir de certa altura, parece suplantar outros interesses maiores? Por que é que necessitam de estar sempre ligadas online a enviar emojis, palavras que muitas das vezes nem estão escritas de forma correcta ou parecem fazer sentido, e smiles de todos os feitios? Por que é que as pessoas quando dizem uma coisa ao fim de muito pouco tempo a estão a desdizer ou contradizer? Por que é que as regras sociais parecem estar tão frequentemente a mudar? E ainda por cima parece que dificultam a vida ao invés de facilitar! Por que é que eu sempre me dei bem com os meus irmãos, pelo menos até à entrada da adolescência e não com as outras pessoas? E agora parece que cada vez menos me dou com cada vez mais pessoas? Como se tivesse perdido a paciência para a humanidade! Por que isto, por que aquilo. Cláudia tinha respostas para tudo aquilo. Mas eram as suas respostas. E essas já não lhes chegava. Até porque continuava sem compreender. E para si as respostas serviam para compreender.


A tarefa de procura de um psicólogo não foi fácil. Até porque não sabia o que procurar. Quais as características? Ser homem ou mulher? E além do mais para si tomar decisões sempre foi tarefa difícil. Não que não tenha ideias. Mas porque tem sempre muitas ideias. E não dava para pedir referências a alguém, porque também não conhecia ninguém a esse ponto de fazer uma pergunta tão pessoal e importante. Para isso teria de ter um amigo ou amiga e essa pessoa teria de ser competente ou conhecedora da situação em questão. E isso não havia. Nem uma coisa nem outra. Mas também nunca ninguém lhe disse que isso não deveria ser assim - não ter amigos. Isso, só o veio a descobrir mais tarde na vida. Até por que aquilo que tinha na vida lhe era satisfatório. Falava com os colegas, ou pelo menos com alguns, com aqueles que pensava fazer sentido. E pouco mais. Além do mais tinha os irmãos e os primos e primas. Ainda que a partir de determinada altura os pais de Cláudia começassem a ver que a aproximação mais habitual em crianças deixava de ser tão grande. Mas deram a explicação de que deveria ser coisas próprias da adolescência e de que a Cláudia era uma rapariga mais introvertida.


Mas a Cláudia era e é muito mais do que introvertida. E se questionassem os bonecos com que a Cláudia ficava a fazer brincadeiras tiradas das suas fantasias, porventura ficaram a saber a verdade. Era com eles que desabafava e sentia que eles lhe respondiam. Na verdade, que lhe respondia era ela própria. Mas a Cláudia gostava de imaginar que eram eles. Sentia-se melhor assim. E já bastavam os momentos difíceis ao longo dos dias martirizantes na escola. Ao menos quando chegava a casa, nos fins de semana e nas férias podia aliviar-se. Também por isso os pais sempre sentiram que não se passava nada com a Cláudia. Eles atém diziam que a filha parecia feliz. E naqueles momentos específicos até poderíamos dizer que sim. Isto apesar da Cláudia dizer que não sabe muito bem se sentia felicidade ou outra coisa qualquer. Refere que nunca foi muito boa a destrinçar emoções, nela e nos outros. Aquilo que sabe foi aprendendo, literalmente.


Chegou a fazer um ou outro acompanhamento psicológico durante alguns anos. Mas sentia que as questões e as sensações permaneciam e ao fim de algum tempo, recebia alta ou então ela própria acabava por desistir. Os seus pais foram vendo validadas algumas das suas ideias de que não se passava nada de errado com a sua filha. Ainda que a partir de determinada altura a mãe pudesse suspeitar de alguma coisa mais mas que não conseguia perceber o quê, nem como conseguir chegar perto da filha para saber. Foi experimentado outros profissionais de saúde, como psiquiatras e neurologistas. Até porque na Universidade sentiu que as algumas das suas competências pareciam estar a ficar comprometidas. E durante um período a Cláudia penso que o problema estava no cérebro. E na verdade estava, como ela própria acabou por perceber mais tarde. Bem mais tarde. Não demasiado, porque sinto que estou sempre a tempo do que quer que seja!, desabafa Cláudia ao fim de umas sessões quando ouviu - tem uma Perturbação do Espectro do Autismo.


Continuamos ao fim destes 80 anos de autismo a ver, ouvir, histórias destas como a da Cláudia. E a lamenta-las. E a perguntar como é que é possível que ao longo destes anos todos e de todo o conhecimento desenvolvimento em relação ao autismo, se continue a falhar ou a não diagnosticar como Perturbação do Espectro do Autismo aquilo que está ali apresentado na pessoa de uma forma clara. Para alguns dirão! É preciso continuar a dizer aos profissionais de saúde que a Perturbação do Espectro do Autismo não se esgota nos critérios de diagnóstico na DSM e na ICD. Que a Perturbação do Espectro do Autismo nas raparigas e mulheres apresenta características qualitativas diferentes dos rapazes e homens autistas. É preciso mais formação para todos os profissionais de saúde? Sim, claro. Mas é importante também que todos os profissionais de saúde se possam questionar, tal como a Cláudia continua a fazer ao longo da vida à procura de uma melhor compreensão das coisas.

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