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O que eu desejo na Terapia!


Por vezes fazes-me esquecer que estou em terapia! disse Noémia (nome fictício). Não que eu não saiba que estou em terapia, mas tem sido diferente das minhas experiências anteriores de terapia enquanto pessoa autista! conclui.


Esta observação da Noémia há alguns anos atrás fez-me reflectir sobre o processo de intervenção junto das pessoas autistas adultas. Será que o processo é ou deve ser diferente? E se sim, como deve ser? E porquê? E como posso saber se isso está a ir ao encontro das necessidades das pessoas acompanhadas? E que processos psicológicos estão na base destes acontecimentos e da necessidade destas mudanças? As perguntas eram e continuam a ser muitas. E cada vez mais nos temos aproximado da necessidade de revisão dos processos e protocolos de intervenção para o acompanhamento das pessoas autistas adultas.


Quais são as experiências específicas que melhoram a psicoterapia para as pessoas adultas autistas e que recorreram à psicoterapia para os seus problemas de saúde mental e que coocorrem (i.e., Ansiedade, Depressão, etc.) com o seu diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo? Quais são as barreiras específicas que impedem a psicoterapia para as pessoas adultas autistas que fizeram/fazem psicoterapia? O que é que os adultos autistas gostariam de ter experimentado/experimentar na psicoterapia, mas que não estava disponível na altura em que recorreram à psicoterapia? As perguntas não terminam. Até porque as questões das pessoas autistas adultas continuam a chegar.


Quando pensamos na Psicoterapia estamos a falar num método, um conjunto de técnicas baseadas na evidência cientifica, que tem como objectivos modificar comportamentos, pensamentos e emoções, no sentido de reduzir o sofrimento psicológico e promover o desenvolvimento pessoal e o bem-estar. Sendo que esta psicoterapia assenta numa relação de confiança entre profissional e cliente, baseado num diálogo colaborativo. Esta é uma definição global e que se encontra expressa nos manuais de Psicologia. Contudo, quando temos um cliente que apresenta um perfil bastante diferente daquele que habitualmente encontramos nos clientes que recorrem à psicoterapia, parece fundamental reflectir sobre estas mesmas técnicas, métodos e procedimentos. Até para podermos ir ao encontro dos objectivos desejados pelo cliente.


E por isso lembrei-me do titulo - O que eu desejo na terapia! Ou seja, o que é que as pessoas autistas adultas vão dizendo que necessitam e gostariam de sentir a acontecer na terapia?


Dizer as coisas sem precisar de um filtro e sentir-me aceite, diz Cláudia (nome fictício). Ser um espaço caloroso e convidativo onde me posso abrir. É bom saber ou sentir que tenho alguém com quem posso falar e que não preciso de filtrar as coisas. Posso desligar o filtro e terapeuta simplesmente compreende, conclui.


Bem, fundamentalmente, sabemos que vamos entrar numa sala com alguém que não acredita em nós e não nos compreende, diz Manuel (nome fictício). Ele formou a sua própria opinião e, com base na opinião que tem sobre os problemas, vai continuar a dar-lhe ferramentas dessa pilha específica. Isso só prejudica a capacidade de obter ajuda. E pedir ajuda não é algo que me seja fácil e não é algo que eu tenha feito na minha vida até as coisas ficarem realmente más, conclui.


Apenas a validação de que a vida é difícil, mesmo que eles não sejam a pessoa que me pode ajudar a ultrapassá-la, diz Cristina (nome fictício)... Dessa forma não teria chegado a pensamentos suicidas do tipo: "Não me encaixo em lado nenhum. Não mereço ser humano ou ninguém me quer porque não me encaixo em lado nenhum". Haveria um valor intrínseco à minha humanidade pelo simples facto de alguém dizer: "hum, isso é difícil", conclui.


A minha terapia inicialmente centrou-se no regresso ao trabalho depois de uma licença, pelo que muitas das nossas discussões se centraram na identificação das coisas que têm de mudar e que estão sob o meu controlo, e das coisas com as quais tenho de aprender a estabelecer limites para evitar uma recaída, diz Carlos (nome fictício). Por isso, foi muito pragmático enumerar uma preocupação e discutir o que posso e não posso fazer, conclui.


Estou à procura de aconselhamento que me dê um roteiro em termos do que é apropriado e não apropriado e das estratégias que podem ser utilizadas, refere António (nome fictício) ... Quero falar sobre o que se está a passar e procuro feedback em termos de "bem, provavelmente os seus colegas estão a receber as coisas desta forma", conclui.

Não durmo o suficiente antes de ir à terapia porque estou a ensaiar na minha cabeça o que vou dizer ao terapeuta e depois a ensaiar o que espero que eles digam, e depois acaba por nem sequer ir nessa direção, refere Andreia (nome fictício). Acabo por perder o sono a pensar como me vou explicar ou justificar as decisões que tomei. Estou constantemente à espera de ser escrutinada e depois fico obcecada com isso porque estou a antecipar o escrutínio, mas depois o escrutínio nunca acontece realmente, conclui.


Saber o que a terapia vai implicar, em que é que vamos trabalhar e que tipo de coisas devo ter em mente para as nossas consultas, acrescenta Cristiano (nome fictício). Coisas em que pensar e que tipo de perguntas o terapeuta vai fazer ou querer saber, conclui.


A rotina era também, por vezes, uma faca de dois gumes, diz Alexandra (nome fictício)... Só porque sabia que era todas as quartas-feiras às 13:00, também era como se fosse todas as quartas-feiras às 13:00, no sentido em que também tinha de marcar tudo à volta disso. Por vezes, essa parte era frustrante. Era como se eu conhecesse a rotina, mas tinha de preparar tudo para a sessão seguinte, conclui.


Por vezes, posso não querer falar durante muito tempo, porque se me envolver demasiado, fico stressado e depois vêm ao de cima todas estas emoções negativas, refere Júlio (nome fictício). Por isso, talvez fosse bom, no início, ter sessões mais curtas e depois ir aumentando o tempo à medida que ganho mais confiança e uma melhor relação com o terapeuta. Por isso, talvez seja bom começar com sessões frequentes de 20 minutos, depois talvez meia hora, depois 40 minutos, depois uma hora e depois talvez começar a espaçá-las ainda mais, conclui.


O meu terapeuta garantiu-me que estou a lidar bem com a situação porque consigo sentar-me naquela sala e não fugir, refere Madalena (nome fictício). Mas, mais uma vez, isso parece ser uma falta de compreensão de que, com o autismo, o interno e o externo são regularmente desfasados. Portanto, o facto de eu estar sentado naquela sala não significa que estou bem, conclui.


Posso não me encaixar nos requisitos de um grupo porque sou uma pessoa autista, refere Paulo (nome fictício). Não tenho uma dependência. Posso ter algumas compulsões ou obsessões ... mas não são dependências. Não estou em crise de saúde mental porque não sou suicida. E depois não posso aceder aos apoios através de pessoas com deficiências ou atrasos de desenvolvimento porque o meu QI é demasiado elevado. Não sou elegível para um trabalhador de apoio comunitário. Sou demasiado inteligente para os programas de apoio a pessoas com deficiência e não estou suficientemente doente ou em crise para os serviços de saúde mental. Então onde é que eu me encaixo? pergunta.


A minha mãe achava que a terapia não estava a resultar, quando para mim estava, diz Catarina (nome fictício). A minha mãe não percebe a auto-confiança com que eu saí da terapia. Eu saí sem me sentir inútil, mas ela achava que eu precisava de ir à terapia por outras razões, por aquilo que ela achava que eu devia fazer, e não por aquilo que eu precisava de fazer, conclui.


Um aspecto sempre fundamental a ser tido em conta na psicoterapia e aqui especificamente com pessoas autistas por parte dos prestadores de cuidados de saúde mental, é o de cuidar da relação terapêutica, empregando competências terapêuticas fundamentais de escuta, empatia e validação. E muitos pensarão que isso é o básico, expectável e que não é nada diferente do que já fazem. Mas se assim fosse, não deveria haver pessoas autistas a dizerem que não se sentem acolhidos a esse nível. E principalmente quando em conversa com outros profissionais de saúde sobressaem certas características das pessoas autistas que parecem elevar as dificuldades dos profissionais de saúde na relação terapêutica. Seja a inflexibilidade ou a duvida patológica que leva às mesmas questões abordadas sistematicamente ao longo de inúmeras sessões, ainda que a pessoa tenha alcançado intelectualmente a questão. Ou a forma própria como a pessoa autista se envolve na relação terapêutica. Seja como for, são lugares fronteira que as pessoas autistas nos levam a estar na relação terapêutica quando os acompanhamos. Nestes momentos recordo uma frase que ouvi quando estudante e que não sei se será do António Coimbra de Matos, Carlos Amaral Dias ou outro percursor - Na terapia temos de ter a disponibilidade para dar a mão ao nosso cliente e descermos ao seu inferno para caminhar com ele.


Embora as intervenções baseadas na TCC (Terapia Comportamental e Cognitiva) tenham sido consideradas eficazes para tratar predominantemente a ansiedade e a depressão em adultos autistas, os profissionais de saúde mental devem ter em conta que esta abordagem pode não ser eficaz nem preferida por todos os clientes autistas. No início da terapia, os profissionais de saúde mental devem informar os clientes autistas (tal como fariam com os clientes não autistas) sobre o seu estilo terapêutico, fornecer uma visão geral de como funciona a sua abordagem e conhecer as preferências de tratamento do cliente. Pode parecer desafiante e possivelmente pouco ético para os clínicos afastarem-se das abordagens de TCC, tendo em conta as provas limitadas que apoiam as abordagens alternativas. No entanto, continuar a prestar serviços que são individualmente ineficazes ou que vão contra os desejos do cliente também apresenta riscos de danos e práticas pouco éticas.


Por exemplo, os prestadores de cuidados de saúde mental podem considerar a vantagem de incluir membros da família ou pessoas de apoio no processo terapêutico, directa ou indirectamente. Seria prudente discutir os riscos e benefícios de o fazer com cada cliente e obter o devido consentimento para esse envolvimento. É importante considerar a forma como os membros da família ou outros apoios informais podem ser incluídos no processo terapêutico de modo a satisfazer as necessidades e oferecer apoio ao cliente adulto. Embora a qualidade da relação terapêutica possa variar com clientes autistas, eles são certamente dignos do nosso respeito, aceitação e não julgamento.


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