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O meu interesse precioso

Admitam. Já todos tiveram um interesse especial.


Talvez tenha sido um brinquedo que levavam para todo o lado. Uma camisola que queriam vestir vezes sem conta. Dinossauros. Comboios. Futebol. Uma banda. Um videojogo. Uma personagem de uma série. Uma coleção de cromos. A história do Império Romano. Astronomia. Uma pessoa famosa sobre quem sabiam praticamente tudo. Talvez tenham passado semanas a falar do mesmo assunto, a procurar informação, a colecionar objetos ou simplesmente a sentir aquele entusiasmo difícil de explicar quando alguém, finalmente, fazia a pergunta certa.


Não vale a pena esconder.


Mas uma coisa também me parece certa: muitos de vocês não são pessoas com diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.


E é precisamente aqui que a conversa se torna interessante. Porque talvez a questão nunca tenha sido simplesmente ter interesses especiais. Talvez esteja na intensidade com que são vividos, no espaço que ocupam, na forma como organizam a atenção, o pensamento e a experiência emocional e, sobretudo, no papel que podem desempenhar na vida de algumas pessoas autistas.


“Quando estou cansado das pessoas, vou para os meus mapas. Não preciso de explicar nada aos mapas. Eles estão simplesmente ali.”


Durante décadas, a linguagem clínica ensinou nos a olhar para estes interesses sobretudo através daquilo que poderiam ter de excessivo. Chamamos lhes interesses “restritos”, “circunscritos”, “fixos”. Colocamo los no domínio diagnóstico dos padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Perguntamos se interferem com a socialização, se ocupam demasiado tempo, se dificultam a flexibilidade, se perturbam as rotinas familiares. Todas estas perguntas podem ser legítimas. O problema começa quando são as únicas perguntas que fazemos.


E se perguntássemos para que serve esse interesse?


Os interesses intensos são uma característica muito frequente no autismo, estando presentes numa proporção elevada de pessoas autistas ao longo da infância, adolescência e idade adulta. Podem assumir formas extraordinariamente diferentes.


Comboios, calendários e dinossauros existem, evidentemente. Mas também existem interesses intensos por psicologia, política, literatura, animais, música, línguas, plantas, meteorologia, história, filosofia, sistemas de transportes, moda, celebridades, medicina, genealogia, computadores, arte, determinadas séries televisivas ou relações humanas.

Há pessoas que mantêm o mesmo interesse durante décadas. Outras mudam periodicamente. Algumas têm um interesse dominante. Outras têm vários interesses simultaneamente.


E nem sempre são facilmente reconhecíveis como “interesses autistas”.


Uma mulher profundamente interessada por literatura pode simplesmente parecer uma leitora voraz. Um homem fascinado por informática pode transformar o interesse numa profissão socialmente valorizada. Uma adolescente que conhece todos os pormenores sobre determinado cantor pode não parecer particularmente diferente das colegas.


O contexto social decide, muitas vezes, aquilo a que chamamos paixão e aquilo a que chamamos obsessão.


“Durante anos disseram que eu era obcecada por animais. Hoje trabalho com animais. Curiosamente, quando começaram a pagar me para saber muito sobre o assunto, deixaram de lhe chamar obsessão.”


Talvez devêssemos pensar um pouco sobre isto.


O mesmo comportamento, palavras diferentes


Há algo de profundamente cultural na forma como avaliamos a intensidade dos interesses.

Um investigador que dedica vinte anos ao estudo de um fenómeno pode ser considerado extraordinariamente dedicado. Um adepto que sabe todas as estatísticas do seu clube é apaixonado. Alguém que passa horas a conhecer vinhos é um apreciador. Quem conhece centenas de espécies de aves pode ser um especialista.


Mas uma pessoa autista que acumula conhecimento extremamente detalhado sobre um tema pode rapidamente ouvir: “Isso já é uma obsessão.”


A fronteira não é simples. Naturalmente, existem interesses cuja intensidade pode provocar sofrimento, comprometer necessidades básicas, limitar significativamente a vida quotidiana ou dificultar a adaptação a determinadas circunstâncias. Uma perspetiva neuroafirmativa não significa romantizar tudo o que acontece no autismo.


Significa fazer uma pergunta clinicamente mais inteligente.


Em vez de perguntarmos apenas “Como podemos reduzir este comportamento?”, talvez devamos perguntar “Que função desempenha este interesse na vida desta pessoa?”

E a resposta pode surpreender nos.


“Quando estou ali, a minha cabeça fica finalmente quieta”


Os interesses intensos podem constituir importantes mecanismos de autorregulação. O mundo quotidiano exige constantemente processamento. Há ruído, imprevisibilidade, ambiguidades sociais, mudanças inesperadas, exigências executivas, estímulos sensoriais, decisões e necessidade permanente de adaptação. Para algumas pessoas autistas, entrar num domínio de interesse profundo pode produzir precisamente o contrário. Previsibilidade. Coerência. Controlo. Familiaridade. Prazer.


“Quando chego a casa depois de um dia difícil, vejo vídeos sobre astronomia. Não é porque queira aprender alguma coisa nova todos os dias. Às vezes vejo coisas que já sei. É como regressar a um sítio onde consigo respirar.”


Esta descrição deveria interessar particularmente à Psicologia. Porque aquilo que, observado exteriormente, pode parecer apenas repetição, pode constituir interiormente um processo sofisticado de regulação emocional.


O interesse pode diminuir a ativação fisiológica. Pode permitir recuperar depois de períodos prolongados de interação social. Pode organizar a atenção quando tudo parece demasiado disperso. Pode oferecer previsibilidade depois de um dia marcado pela incerteza. Pode funcionar como espaço de recuperação após sobrecarga sensorial ou cognitiva.

Pode, simplesmente, dar prazer. E talvez tenhamos subestimado demasiado esta última palavra.


O direito ao prazer também é uma questão clínica


Existe uma tendência compreensível na intervenção psicológica para nos concentrarmos no sofrimento. Ansiedade. Depressão. Isolamento. Burnout. Dificuldades relacionais. Rigidez. Problemas profissionais. Mas saúde psicológica não significa apenas ausência de sofrimento. Também significa existir alguma coisa para onde desejamos regressar.


“Posso ter tido um dia horrível. Mas sei que à noite tenho uma hora para trabalhar na minha coleção. Às vezes é essa hora que me ajuda a atravessar o resto do dia.”


Um interesse intenso pode constituir uma fonte estável de emoções positivas numa vida frequentemente marcada por experiências de incompreensão, esforço adaptativo ou sobrecarga.


Pode contribuir para sentimentos de competência e domínio. Pode fortalecer a identidade. Pode oferecer continuidade autobiográfica. Pode proporcionar experiências de flow, aquele estado de profunda absorção numa atividade em que atenção, competência, desafio e prazer parecem convergir. Isto não é clinicamente irrelevante. É bem estar.


“Aqui sei quem sou”


Existe ainda outra dimensão menos evidente. Os interesses podem participar na construção da identidade. Quando uma pessoa passou grande parte da vida a receber mensagens acerca daquilo que faz de forma diferente, descobrir um território onde se sente competente pode adquirir uma importância extraordinária.


“Sempre fui a pessoa que não percebia as conversas. Mas quando alguém perguntava sobre história medieval, eu sabia. Pela primeira vez não era eu que estava perdida. Eram os outros que me faziam perguntas.”


O interesse deixa então de ser apenas um assunto. Torna se um lugar psicológico. Um lugar onde existe competência num mundo que frequentemente salientou dificuldades. Um lugar onde existe previsibilidade quando o quotidiano parece ambíguo. Um lugar onde a curiosidade não precisa de ser moderada para parecer socialmente adequada. E, por vezes, um lugar onde a pessoa pode reconstruir uma narrativa sobre si própria que não começa pelas suas dificuldades.


Os interesses também podem aproximar pessoas


Durante muito tempo assumiu se que interesses muito intensos poderiam afastar as pessoas autistas dos outros. Por vezes podem. Uma conversa exclusivamente centrada num tema, sem reconhecimento dos sinais de desinteresse do interlocutor, pode naturalmente gerar dificuldades sociais. Mas esta é apenas metade da história. Os interesses também podem criar pontes.


“Não sei iniciar conversa com pessoas que não conheço. Mas se descobrir que gostam do mesmo jogo que eu, consigo falar durante horas. O problema nunca foi não querer falar com pessoas. Era não saber sobre o quê.”


Um interesse partilhado reduz uma das maiores dificuldades de muitas interações sociais: a incerteza. Já existe um tópico. Existe conhecimento partilhado. Existem regras implícitas mais previsíveis. Existe uma razão para iniciar e manter a conversa.


Comunidades online, clubes, grupos de fãs, associações, fóruns, jogos, convenções e grupos profissionais podem tornar se importantes contextos de pertença. Aquilo que parecia socialmente isolador pode, nas circunstâncias certas, tornar se socialmente agregador.


E também pode transformar se em conhecimento


Há ainda uma característica particularmente interessante dos interesses intensos: a capacidade de sustentar aprendizagem prolongada.


“Quando alguma coisa me interessa, não tenho de me obrigar a estudar. Quero perceber tudo. Uma resposta leva me a outra pergunta e essa pergunta leva me a outra.”


Muitas pessoas autistas descrevem precisamente esta relação com o conhecimento.

Não aprendem apenas factos. Constroem sistemas. Classificam. Comparam. Procuram padrões. Estabelecem relações. Regressam repetidamente ao tema. Desenvolvem níveis de conhecimento que podem ultrapassar largamente aquilo que seria esperado para alguém sem formação formal nessa área.


Em determinadas circunstâncias, esta profundidade pode transformar se numa competência académica ou profissional relevante. Mas devemos ter algum cuidado aqui. Não precisamos de transformar todos os interesses autistas em produtividade para lhes reconhecer valor. Uma pessoa não tem de transformar o seu fascínio por comboios numa carreira ferroviária. Não tem de rentabilizar a coleção. Não tem de criar um canal de YouTube. Não tem de transformar aquilo que ama numa competência profissional. Algumas coisas podem existir simplesmente porque tornam a vida melhor.


O problema começa, muitas vezes, no olhar dos outros


As pessoas autistas relatam também experiências de vergonha, ridicularização e estigma relacionadas com os seus interesses.


“Aprendi muito cedo que havia coisas sobre as quais não devia falar. Quando alguém perguntava do que gostava, comecei a responder ‘não sei’. Sabia perfeitamente. Só já tinha percebido que a resposta verdadeira fazia as pessoas rir.”


Talvez uma das consequências mais dolorosas não seja possuir um interesse invulgarmente intenso. Talvez seja aprender que aquilo que nos dá alegria é motivo de embaraço.

Quando familiares, professores, colegas ou profissionais ridicularizam sistematicamente um interesse, a pessoa pode aprender a escondê lo. E esconder interesses pode tornar se mais uma dimensão do camuflar social.


“Não fales tanto disso.” “Já chega.” “Outra vez esse assunto?” “Tens de gostar de outras coisas.” “Isso não é normal para a tua idade.”


Individualmente, estas frases podem parecer insignificantes. Repetidas durante anos, podem comunicar algo bastante diferente: Aquilo que te entusiasma é demasiado. E talvez algumas pessoas autistas tenham passado demasiado tempo a aprender a diminuir precisamente aquilo que as fazia sentir mais vivas.


Nem proibir, nem romantizar


Uma abordagem mais positiva aos interesses intensos não implica ignorar situações problemáticas. Existem circunstâncias em que um interesse pode interferir significativamente com alimentação, sono, higiene, estudo, trabalho, relações ou outras necessidades importantes. Pode existir dificuldade em interromper a atividade. Pode haver sofrimento quando o acesso ao interesse é impossibilitado. Determinados conteúdos podem ainda envolver riscos específicos. Nestes casos, é necessária intervenção. Mas mesmo aqui existe uma diferença fundamental entre eliminar o interesse e ajudar a pessoa a construir uma relação mais flexível com ele.


O objetivo não deveria ser tornar a pessoa menos interessada. Deveria ser aumentar possibilidades. Podemos trabalhar transições sem destruir aquilo que proporciona prazer. Podemos desenvolver flexibilidade sem retirar segurança. Podemos ampliar repertórios sem desvalorizar os existentes. Podemos ajudar a regular o tempo dedicado a uma atividade sem transformar essa atividade num problema em si mesma. Sobretudo, podemos incluir uma pergunta simples na avaliação clínica: “O que é que este interesse faz por si?”


Talvez devêssemos prescrever interesses


A frase é deliberadamente provocadora. Mas imaginemos uma consulta psicológica em que, além de perguntarmos sobre ansiedade, humor, sono, funcionamento executivo, relações e dificuldades quotidianas, perguntássemos também: O que o entusiasma? Sobre que assunto poderia falar durante horas? A que atividade regressa quando precisa de recuperar? O que faz perder a noção do tempo? Onde sente maior competência? O que lhe dá prazer sem precisar de aprovação de ninguém? Talvez descobríssemos recursos terapêuticos que estavam diante de nós desde o início.


Os interesses podem ser incorporados na intervenção psicológica como elementos de regulação emocional, recuperação após sobrecarga, motivação, construção identitária, ativação comportamental, desenvolvimento de competências, ligação social e planeamento de rotinas de bem estar. Não como recompensa. Não como moeda de troca. Mas como parte legítima da ecologia psicológica daquela pessoa.


“Durante muito tempo pensei que tinha de aprender a afastar me das coisas de que gostava para me tornar mais normal. Hoje percebo que preciso delas. Não para fugir da vida, mas para conseguir voltar a ela.”


Talvez esta seja uma das mudanças mais importantes que uma perspetiva neuroafirmativa pode introduzir. Deixar de perguntar automaticamente como podemos tornar menos intenso aquilo que é intenso. Primeiro precisamos de compreender. Porque alguns interesses restringem. Outros expandem. Alguns interferem. Outros regulam. Alguns isolam em determinadas circunstâncias. Outros permitem encontrar pessoas com quem finalmente existe alguma coisa para dizer. E muitos fazem várias destas coisas ao mesmo tempo.


A boa prática clínica começa precisamente aí, na função que aquele interesse desempenha naquela pessoa concreta. Por isso, da próxima vez que uma pessoa autista nos disser, com aquele entusiasmo difícil de disfarçar, que passou três horas a investigar a história dos faróis, a catalogar comboios, a aprender tudo sobre baleias, a rever uma série pela décima vez, a estudar mitologia nórdica, a organizar uma coleção ou a descobrir cada pequeno detalhe sobre um assunto que aparentemente “não serve para nada”, talvez não precisemos de perguntar imediatamente: “Não acha que está demasiado focado nisso?” Podemos experimentar outra pergunta: “O que sente quando está a fazer isso?”

E talvez a resposta seja: “Sinto me bem.”


Às vezes, em Psicologia, passamos tanto tempo à procura do que precisa de ser tratado que corremos o risco de não reconhecer aquilo que já está a ajudar. Talvez alguns interesses especiais não sejam apenas sintomas que uma pessoa autista transporta consigo. Talvez sejam também lugares onde descansa. Lugares onde aprende. Lugares onde encontra outros. Lugares onde recupera. Lugares onde é competente. E, algumas vezes, lugares onde pode simplesmente existir sem ter de explicar porque é que existe daquela maneira. Isso também merece ser protegido.


Quando é que um interesse intenso é um recurso e quando é que pode tornar se um problema?


Talvez esta seja uma das perguntas mais importantes. Porque substituir uma perspetiva patologizante por uma perspetiva positiva não deveria significar substituir um erro pelo erro contrário. Nem tudo o que está associado ao autismo deve ser tratado. Mas nem tudo deve ser romantizado.


Um interesse pode proporcionar prazer e, simultaneamente, criar dificuldades. Pode regular emocionalmente e tornar difícil uma transição. Pode favorecer conhecimento e interferir com o sono. Pode aproximar a pessoa de uma comunidade e gerar conflitos noutras relações. A questão clinicamente relevante não é, portanto, saber se o interesse é “normal” ou “anormal”. É perceber o que acontece à vida da pessoa por causa dele e através dele. “O meu interesse não me impede de viver. Em muitos dias é precisamente aquilo que me permite viver o resto.” Esta distinção é fundamental.


Para a pessoa autista: “Isto faz me bem?”


Talvez possamos começar pela pergunta mais simples. Como me sinto antes, durante e depois de me envolver neste interesse? Há interesses que parecem funcionar como verdadeiros espaços de recuperação psicológica. Depois de algum tempo dedicado à atividade, a pessoa sente se mais tranquila, organizada, disponível ou emocionalmente regulada. “Quando começo estou completamente saturado. Depois de uma hora a organizar a minha coleção parece que o ruído dentro da cabeça baixou.”


Nestes casos, o interesse pode estar a desempenhar uma função autorregulatória importante. Pode ajudar a reduzir a sobrecarga depois do trabalho. Pode facilitar a transição entre contextos. Pode constituir um espaço previsível após situações sociais exigentes. Pode permitir recuperar recursos cognitivos e emocionais. Mas podemos acrescentar outras perguntas. Estou a dormir o suficiente? Consigo alimentar me adequadamente? Consigo interromper a atividade quando é realmente necessário? Estou a faltar sistematicamente a compromissos importantes? O interesse está a provocar sofrimento financeiro? mEstá a prejudicar relações que são importantes para mim? Continuo a conseguir realizar as tarefas essenciais da minha vida? Se várias respostas começarem a ser preocupantes, talvez não seja necessário abandonar o interesse.


Talvez seja necessário aprender a integrá lo melhor na vida. “O problema nunca foi eu gostar demasiado de videojogos. O problema foi haver uma altura em que deixei de dormir para continuar a jogar. Tive de aprender a proteger o sono sem deixar de jogar.” Esta diferença parece pequena. Clinicamente, é enorme. Não estamos a tentar retirar uma fonte de prazer. Estamos a ajudar a construir condições para que esse prazer continue a existir sem consumir outros elementos importantes da vida.


Para as famílias: antes de dizer “já chega”, perguntar “o que é que isto lhe dá?”


Para familiares e companheiros, os interesses intensos podem ser difíceis de compreender.

Sobretudo quando parecem repetitivos. Ou quando o tema não desperta qualquer interesse nos restantes membros da família. Ou quando já ouvimos a mesma informação muitas vezes.

“Eu sei que a minha mulher já ouviu esta história. Provavelmente umas quinze vezes. Às vezes começo a contá la novamente porque gosto da sensação que tenho quando falo sobre aquilo.”


Não é necessário fingir entusiasmo permanente. Também não é necessário transformar cada jantar numa conferência sobre locomotivas, paleontologia, cinema japonês ou qualquer outro interesse. As relações implicam reciprocidade. Mas reciprocidade não significa que todas as pessoas tenham de gostar das mesmas coisas. Significa também aprender a reconhecer aquilo que é importante para o outro. Uma pergunta ocasional pode ter um significado muito maior do que imaginamos. “Então, como ficou aquilo que estavas a construir?” “Descobriste alguma coisa nova sobre esse assunto?” “Queres mostrar me?”


Para alguém cujo interesse foi repetidamente ridicularizado ou tolerado com impaciência, estas perguntas podem transmitir uma mensagem emocional bastante poderosa: Eu vejo aquilo que é importante para ti. “A minha mãe nunca percebeu o meu fascínio por comboios. Mas quando eu era adolescente começou a trazer me horários antigos que encontrava. Acho que nunca percebeu os comboios. Percebeu me a mim.” Talvez seja essa a diferença essencial. Não precisamos de compreender o interesse para compreender que aquele interesse pertence a alguém de quem gostamos.


Para psicólogos: cuidado com aquilo que decidimos transformar em sintoma


Aqui a responsabilidade é particularmente importante. A Psicologia e a Psiquiatria contribuíram historicamente para uma leitura predominantemente deficitária dos interesses intensos no autismo.


Naturalmente, esta leitura não surgiu sem razões. Alguns interesses podem efetivamente associar se a inflexibilidade, interferência funcional ou dificuldades sociais. Mas existe um risco clínico quando a presença de um comportamento num critério diagnóstico faz com que deixemos de investigar a sua função. Um comportamento pode ser simultaneamente uma característica diagnóstica e um recurso psicológico. As duas coisas não são incompatíveis.

Uma pessoa pode preencher um critério relacionado com padrões restritos ou intensos de interesses e, ao mesmo tempo, beneficiar profundamente desse interesse.


Por isso, durante uma avaliação psicológica, talvez não seja suficiente perguntar: “Tem algum interesse muito intenso?” “Quanto tempo passa nisso?” “É difícil interrompê lo?”

Podemos acrescentar: “O que é que esse interesse representa para si?” “Quando costuma recorrer a ele?” “O que acontece ao seu estado emocional quando se envolve nessa atividade?” “Ajuda o a recuperar depois de situações exigentes?” “Permitiu lhe conhecer outras pessoas?” “Há competências que desenvolveu através desse interesse?” “Alguma vez sentiu necessidade de esconder aquilo de que gostava?” “Alguma vez foi ridicularizado por causa disso?”


E talvez uma pergunta particularmente importante: “Se este interesse desaparecesse amanhã da sua vida, o que perderia?” A resposta pode revelar muito mais do que qualquer classificação da intensidade do comportamento.


Uma pequena mudança na linguagem pode produzir uma grande mudança no olhar


Também vale a pena pensarmos nas palavras. “Restrito.” “Circunscrito.” “Fixação.” “Obsessão.” “Comportamento repetitivo.”


Estas palavras pertencem a uma tradição clínica específica e algumas continuam a ter utilidade descritiva e diagnóstica. Mas as palavras nunca são inteiramente neutras.

Imagine se duas descrições da mesma pessoa: “Apresenta interesse circunscrito e excessivamente intenso por entomologia.” Ou: “Desenvolveu, ao longo de vários anos, conhecimento aprofundado sobre entomologia, área que constitui uma importante fonte de prazer e regulação emocional, embora revele dificuldade ocasional em interromper atividades relacionadas com este interesse.”


A pessoa é a mesma. O comportamento é o mesmo. Mas a segunda formulação permite compreender muito mais. Não elimina a dificuldade. Contextualiza a. Reconhece simultaneamente vulnerabilidade e recurso. Talvez seja precisamente disso que necessitamos numa Psicologia mais compatível com a neurodiversidade. Não trocar défices por elogios. Trocar descrições unidimensionais por compreensão funcional.


O interesse especial como ferramenta terapêutica


Há ainda uma possibilidade que merece maior atenção. Em vez de apenas tolerarmos os interesses intensos durante a intervenção, podemos aprender a trabalhar com eles. Imagine se uma pessoa autista que chega sistematicamente à consulta depois de um dia profissional extremamente exigente.


Em vez de iniciarmos imediatamente uma exploração emocional complexa, poderemos reconhecer que alguns minutos dedicados ao seu interesse facilitam a transição para o contexto terapêutico.


Para outra pessoa, o interesse pode ser utilizado para compreender processos emocionais.

Para outra, pode constituir uma via de ativação comportamental durante um episódio depressivo. Para outra, pode ajudar a construir relações. Para outra, pode fornecer pistas importantes para escolhas académicas ou profissionais. Para outra, simplesmente, pode fazer parte de um plano de recuperação após situações de elevada exigência social.


“A minha psicóloga foi a primeira pessoa que não tentou afastar me do meu interesse. Perguntou me como é que o podia usar quando estava sobrecarregada. Nunca tinha pensado que uma coisa que me diziam ser um problema podia também ajudar me.”


Há aqui uma mudança subtil na posição terapêutica. O terapeuta deixa de perguntar apenas:“Como modificamos isto?” E começa também a perguntar: “Como podemos utilizar isto?”


Um possível mapa clínico dos interesses intensos


Talvez seja útil pensar cada interesse em várias dimensões, em vez de simplesmente o classificar como adaptativo ou desadaptativo. Podemos explorar pelo menos seis funções. Regulação. O interesse ajuda a reduzir ansiedade, sobrecarga ou ativação emocional? Prazer. Constitui uma fonte genuína de satisfação e emoções positivas? Identidade. Ajuda a pessoa a compreender quem é e aquilo que valoriza? Competência. Permite desenvolver conhecimentos, capacidades ou sentimentos de eficácia? Ligação. Facilita relações, comunidades ou experiências de pertença? Recuperação. Ajuda a pessoa a recuperar depois de períodos de elevada exigência sensorial, social, cognitiva ou emocional? Depois podemos observar uma segunda dimensão: Qual é o custo? Sono. Alimentação. Saúde. Trabalho. Estudo. Finanças. Relações. Autonomia. Flexibilidade. Sofrimento quando existe impossibilidade de acesso.


Esta matriz produz uma compreensão muito mais rica. Um interesse pode apresentar enorme valor regulatório e baixo custo funcional. Nesse caso, provavelmente deve ser protegido e incentivado. Pode apresentar elevado valor regulatório e algum custo. Nesse caso, talvez devamos trabalhar o equilíbrio. Pode apresentar baixo benefício e elevado sofrimento. Aí poderá justificar se uma intervenção mais direta.


E pode existir outra situação particularmente importante: o interesse não constitui problema algum para a pessoa, mas incomoda os outros porque é considerado estranho. Nesse caso, talvez a intervenção não deva incidir sobre a pessoa autista. Talvez deva incidir sobre o contexto.


Nem todos os interesses precisam de ser úteis


Há uma armadilha escondida até nas perspetivas aparentemente positivas sobre o autismo. É a necessidade de transformar diferenças em talentos.


“A pessoa autista gosta de computadores, poderá ser programadora.” “Tem atenção ao detalhe, será excelente profissional.” “Conhece tudo sobre comboios, talvez possa trabalhar nessa área.” É compreensível.


Estamos a tentar substituir uma narrativa de incapacidade por uma narrativa de competência.

Mas corremos o risco de criar uma nova obrigação. A obrigação de transformar diferença em produtividade.


“Toda a gente me dizia que devia trabalhar com aquilo porque sabia imenso. Eu não queria. Era precisamente a única coisa da minha vida que não queria transformar em trabalho.”


Esta frase merece atenção.


Porque um interesse não precisa de justificar a sua existência através da produtividade. Não precisa de gerar dinheiro. Não precisa de conduzir a uma profissão. Não precisa de impressionar ninguém. Não precisa sequer de produzir conhecimento particularmente sofisticado. Pode simplesmente produzir prazer. Uma pessoa pode saber absolutamente tudo sobre uma série televisiva e isso não ter qualquer utilidade profissional. Pode colecionar miniaturas. Pode decorar capitais. Pode desenhar repetidamente as mesmas personagens. Pode conhecer os horários de determinada linha ferroviária. Pode ouvir a mesma música centenas de vezes. Pode investigar durante meses um acontecimento histórico obscuro. Pode ter cinquenta objetos relacionados com a mesma personagem. E talvez a pergunta “para que serve?” esteja errada desde o início. Serve porque gosta. Curiosamente, aceitamos isto com muito mais facilidade nas pessoas não autistas.


Talvez todos tenhamos um pouco desta experiência


Voltemos ao início. Admitam. Houve um brinquedo. Uma música. Uma equipa. Uma pessoa. Um livro. Uma série. Uma coleção. Uma brincadeira. Uma peça de roupa que alguém tentou deitar fora e vocês impediram. Alguma coisa sobre a qual sabiam mais do que seria estritamente necessário saber. Talvez ainda exista.


A diferença é que, para muitas pessoas autistas, a intensidade, frequência, profundidade e função destes interesses podem assumir uma dimensão significativamente maior. E é precisamente essa intensidade que importa compreender. Não para apagá la. Mas para perceber aquilo que faz.


“Quando falo do meu interesse dizem que os meus olhos mudam. Acho engraçado. Talvez seja simplesmente a minha cara quando estou feliz.”


Talvez esta seja uma imagem particularmente bonita para terminar. Durante demasiado tempo procurámos reconhecer o autismo observando aquilo que parecia faltar. Menos contacto ocular. Menos reciprocidade. Menos flexibilidade. Menos comunicação social convencional. Talvez também possamos aprender a reconhecê lo observando aquilo que, por vezes, aparece em abundância. Curiosidade. Profundidade. Persistência. Conhecimento. Entusiasmo. Prazer.


E aquele momento em que alguém começa a falar sobre aquilo que verdadeiramente ama e alguma coisa muda no rosto, na voz, no corpo inteiro. Nesse momento, talvez não estejamos simplesmente perante um “interesse restrito”. Estamos perante uma pessoa profundamente interessada. E existe uma diferença enorme entre as duas formas de olhar. Talvez a Psicologia precise de aprender essa diferença. Não para deixar de reconhecer quando um interesse causa sofrimento ou restringe seriamente possibilidades de vida.


Mas para deixar de confundir intensidade com patologia, diferença com défice e prazer com sintoma. Porque há interesses que ocupam espaço. Há interesses que organizam o tempo. Há interesses que acompanham uma vida inteira. E há interesses que, nos dias em que o mundo exige demasiado, oferecem à pessoa autista um pequeno território previsível onde pode regressar. Um lugar conhecido. Um lugar seguro. Um lugar onde não é necessário representar. Um lugar onde ninguém precisa de perguntar: “Porque é que gostas tanto disso?” Porque talvez a resposta seja muito simples. “Porque quando estou ali, sou eu. E estou bem.”


Talvez isso seja suficiente.



 
 
 

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