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O lugar onde moramos

"(...) Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te

Não se pode morar nos olhos de um gato..."

Alexandre O'Neill in Poema do Desamor


Como é que te vês?, perguntei ao Manuel (nome fictício). Já sabes que isso carece de uma explicação!, responde-me prontamente. Para além do que vejo no espelho?, questiona-me. Para além daquilo que os outros dizem de mim?, continua. Como queres que eu saiba como me vejo? Sempre que me vejo fico preso a pensar outras coisas e não me consigo ver!, percebes?, perguntou-me. Pedes-me o impossível. Que ultrapasse a fronteira da psicofisica da reflexão, desabafa. Desde que conheço o Manuel que o seu interesse foi a filosofia. Comecei a acompanhar o Manuel num período em que sentia medo do resultado do seu pensamento. Na altura quando o recebi lembrei-me de quando eu em criança desejava ver os filmes de terror que passavam na televisão, mas depois ficava com medo dos mesmos. Assim parecia o Manuel, com um desejo inesgotável de pensar. As pessoas vão construindo a sua experiência do mundo com base em experiências psicológicas, seja as de auto-observação interna ou pontos de vista de outra pessoa. Este processo inclui o self e a experiência da outra pessoa. E conhecer o outra pessoa não acontece adequadamente se este processo não for espontâneo ou formado a um nível emocional. A capacidade de amar envolve atrair atenções e afectos de outro ser humano. Cada um de nós é um indivíduo absoluto e tem um valor inerente que é particularmente valioso para toda a sociedade. Como é que eu me vejo, certo?, voltou novamente ao principio. Eu digo-te. Vejo-me doente, uma doença, limitado, uma limitação, deficit no plural, uma perturbação, isolado, não aceite, muito frequentemente até por mim próprio!, inspira. Não sei como usar o tempo tempo verbal. Não é de todo verdade que me veja sempre assim. Já foi mais dessa maneira. Mas os dias são todos diferentes, concluiu. Como é que eu me vejo?, continua. Parte de mim. Um eu de mim, sensível, sensibilidade, diferente, diferença, aceite, aceitação, pelo menos por mim. Não sei, é difícil, suspira. Consegue imaginar-me enquanto criança isolada perpetuamente dos outros devido à indiferença social ou constrangimento? Ou todas as vezes em que me aventurei numa interacção para expressar o meu fascínio com o Pokémon, e ao mesmo tempo incapaz de interpretar ou agir de acordo com as pistas vindas dos meus colegas? Os olhos que disparavam em redor, uma tentativa de intervir que parecia ser emitida, um brilho, um suspiro, um pé a batucar no chão já impaciente, e os colegas a dizerem que precisam de ir para outro lugar! E eu a perguntar se podia ir junto com eles! Consegue imaginar?, pergunta-me. Entender uma pessoa como um todo é considerado um desafio ao nível de todos os campos científicos, seja o social, humanidades, médico ou outras ciências. E esta questão é especialmente preocupante no que diz respeito à compreensão das pessoas singulares, percebidas como diferentes, fora do padrão ou da norma, pouco comunicativos ou considerados de estranhos pela maioria das pessoas. Para entendermos estas pessoas, podemos descrevê-las, defini-la ou procurar entende-las naquilo que são as suas idiossincrasias e necessidades, facto que parece apenas ser possível através da inclusão. Como entender a outra pessoa? Este é uma pergunta básica que a humanidade tem procurado desde o seu início. Na abordagem biológica, os cientistas procuram resumir todo o processo como percepção ou observação. É a actividade dos sistemas que têm a tarefa de receber, processar e armazenar informações do ambiente, e que se reproduzem e a usam de acordo com as necessidades e capacidades da pessoa. A base da percepção são sentidos, nos quais os humanos criam a sua referência face ao mundo circundante, incluindo

outros seres humanos. Na psicologia, a atenção é dada à percepção como uma capacidade cognitiva que é significativamente determinada pelas nossas competências psicofísicas. No entanto, a essência da cognição é a procura pela possibilidade de cruzar os limites da reflexão psicofísica da imagem na filosofia. É fundamental reintroduzir o aspecto humanístico nesta discussão, observando a posição do ser humano na comunidade, e não somente tratando-o como um indivíduo separadamente. Assim, a empatia torna-se uma espécie de experiência de estar no espaço e no tempo com processos materiais e experiências mentais. Através da expansão do campo de experiência, aprofundando o elemento de compreensão, experimentando o mesmo movimento permite que alguém entre naquilo que são as acções de outro ser humano, no lugar do seu ser, da sua vivência pessoal. O Homem, como ser social, percebe o outro Homem como pertencente a uma determinada esfera definida como "o mundo do Tu". Procurar as possibilidades óptimas de conhecer a outra pessoa, ser torna-se no ser que se continua a definir e a auto-determinar, mas que também é cognitivamente definido por fontes que estão fora de si. Os resultados em determinar a existência de um ser humano por outra pessoa qualquer pode coincidir com os resultados da autodeterminação. E este autoconhecimento parece estar ligado com a cognição do outro ser humano, tornando-se uma espécie de fundo que marca a existência do Homem a partir do meio ambiente. Podendo afirmar-se que é nas manifestações das outras pessoas que o Homem encontra o reflexo de si mesmo. E isto parece acontecer graças ao contacto com a outra pessoa e que parece desenvolver todo este processo de auto-descoberta. Portanto, o Homem enquanto cientista, interessado em aprender sobre o outro, molda-se a si mesmo. Esta abertura para os outros torna-se um importante elemento de autocriação. É a dimensão da coexistência e co-participação que torna importante e insubstituível nesta dimensão cognitiva. E será devido a essa mesma experiência que é possível obter uma visão sobre a dimensão especifica da existência humana, o que torna o outro um ser único. Como é que eu me vejo?, voltou Manuel à questão. Vejo-me refém da vida e da forma como a vivi durante muitos anos! Roubaram-me a hipótese de a viver de uma forma, digna! Passei mais de vinte anos sem saber o que se passava comigo e a ouvir todo um conjunto de adjectivos, que apesar de serem negativos, não deixei de os considerar tendo em conta o número de pessoas que o repetiu! Quem era eu para dizer que eles todos estavam errados?, questiona-me. Eu aprendi na vida que eu é que estava errado! Que os meus comportamentos necessitavam de ser mudados, adaptados, capacitados, etc. Por isso vejo-me como um erro! Estes últimos anos luto contra mim próprio, contra esta ideia que fui construindo de mim mesmo e que me foi sendo fornecida pelos outros. Mesmo que eu queira aproveitar a vida de uma outra forma, principalmente agora que eu me percebo, e viver de uma maneira mais digna, torna-se difícil lutar contra este meu eu. Talvez seja importante dizeres-me o que tu vês em mim, pode ser?, pergunta-me Manuel.


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