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O lugar das ideias

Uma vez perguntaram-me numa entrevista de emprego onde é que começavam as ideias! Respondi-lhes que era quando as pessoas se sentavam umas com as outras, se escutavam e dialogavam! Durante duas semanas fiquei ansioso em casa à espera de ter uma resposta. Já estava a pensar que seria mais uma daquelas situações iguais a tantas outras pelas quais já passei. Recebi agora mesmo uma mensagem a dizer que fiquei com o emprego! Nem sei o que dizer!


Esta foi a experiência do Jorge (nome fictício), de 39 anos e com um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.


Depois de ter enviado trezentos e vinte e oito Cv's em resposta a ofertas de emprego na sua área de formação - Design. E de mais trinta e cinco candidaturas espontâneas, tudo isto ao longo de cinco anos e dois meses, finalmente conseguiu o seu primeiro emprego na área. Jorge já tinha trabalhado, nunca na sua área de formação. Terminou o Ensino Secundário aos vinte e dois anos. Teve algumas retenções e outras dificuldades ao longo da escolaridade obrigatória. Nem sempre foi fácil ser referenciado para a Educação Inclusiva, e quando o foi, nem sempre as coisas correram de forma adequada. No final do 12º ano necessitou de fazer um ano de paragem. Estava exausto. Sentia que não conseguia fazer mais nada. Conseguiu retomar os estudos a nível superior aos vinte e quatro no âmbito do programa Maiores de 23. A licenciatura de três anos demorou mais do que pensava. E os três anos passaram cinco anos e meio. Terminou a sua formação antes de completar os trinta. Trabalhou em alguns estágios, nem todos eles remunerados. E teve duas oportunidades com contrato de trabalho numa grande superfície de retalho e outra numa cadeia alimentar.


A empresa que o Jorge vai começar a trabalhar não é de agora que sabe a mais-valia de ter trabalhadores que pensam de forma diferente. E que este pensar diferente pode perfeitamente ter reflexo no perfil de funcionamento de pessoas neurodivergentes. Sendo estas pessoas que têm um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo, Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, Dificuldades Especificas e Aprendizagem, mas também outros tipos de perfil. Das três pessoas que fundaram a empresa há cerca de quinze anos, duas delas têm um diagnóstico, uma de autismo e outra de défice de atenção. Conheceram-se na Universidade, ambas já diagnosticadas na adolescência. Quando chegaram ao Ensino Superior perceberam que não iriam ter ninguém para as ajudar e acabaram por uma coincidência por se conhecer. Foi precisamente num trabalho de grupo no 1º semestre no 1º ano. Quis o destino que todos os colegas escolhessem com quem queriam ficar tendo eles os dois ficado para último. O professor disse que ficariam ambos juntos. E desde essa altura nunca mais se separaram. Se um começa o trabalho o outro finaliza. Descobriram que essa é a sua mais-valia. Não é a única!


Quando criaram a empresa, no início apenas os dois, rapidamente perceberam que havia espaço para crescer. E que isso significava ter pessoas consigo que funcionassem de forma semelhante. O facto do seu sócio e terceiro membro da equipa não ter um diagnóstico foi um erro de casting, como ambos fazem questão de dizer sempre a brincar. A aquisição daquela pessoa para a sociedade mostra que a neurodiversidade não se esgota apenas nos diagnósticos do neurodesenvolvimento e outros. E todos eles sentem que isso é o que lhes faz todo o sentido. Depois disso, o crescimento da empresa e das diferentes equipas de trabalho tem sido assente nessa mesma ideia.


Ao conversar com eles tenho a clara noção, assim como eles os três, de que o tecido empresarial, em Portugal, mas não só, não funciona da mesma forma. Seja porque os gestores ainda estão demasiado ancorados nos arquétipos de que as pessoas com um diagnóstico de uma perturbação (neuro)psiquiátrica não são capazes de trabalhar e que apenas vão trazer dificuldades e despesas nas adptações necessárias. A empresa tem crescido precisamente a partir dessas mesmas adaptações. E porquê? Porque tem inovado e conseguido responder a um conjunto de necessidades cada vez mais diversos no seu ramo de negócio. Mas eles sabem que esta mesma possibilidade não acontece apenas com eles. E que também há um conjunto de empresas emergentes a adoptarem uma cultura organizacional neurodivergente.


Por isso, quando ouviram o Jorge dizer que as ideias nascem do facto das pessoas se sentarem umas com as outras, se escutarem e dialogarem, não tiveram dúvidas em o contratar. Sentiram que a sua forma de pensar era a adequada, além da sua formação de base. O resto iriam ajudar o Jorge, como qualquer outro trabalhador da empresa a aprender e a desenvolver as ferramentas necessárias.


Não percebo porque é que as outras empresas, dentro e fora do nosso ramo, ainda não compreenderam as mais valias desta mudança? diz um dos sócios. Quando lhes respondi que provavelmente terá a ver com a falta de conhecimento em relação ao tema da neurodiversidade e de como fazer essa transformação, responderam-me todos quase ao mesmo tempo. Eles são empresários, não são?! Então não faz sentido não fazerem essa aposta! referiram.


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