O fiel jardineiro

Se eles soubessem o quanto as suas risadas me incomodam, pensava Álvaro (nome fictício). Hoje o meu camarada Afonso (nome fictício) faria anos, oitenta e seis, continua. Álvaro é o senhor que está de frente com os óculos pendurados e um casado de malha. É fácil de perceber quem é. É o único que anda de casaco de malha em pleno julho. E parece não se importar de não usar óculos mesmo quando a grande maioria dos seus colegas no lar os usa e com grande necessidade para a quase totalidade das coisas do quotidiano. Afonso foi colega de Álvaro, desde sempre. Entraram na escola juntos e serviram na guerra lado a lado. Foram combatentes na guerra do Ultramar. Afonso foi o seu único amigo. Inimigos teve mais, ainda que parecesse não se importar com isso. As pessoas fazem o que quiserem, assim como eu próprio, dizia frequentemente Álvaro. Eu não me intrometo nas suas coisas, e eles nas minhas, acrescenta. Os outros pareciam não o entender. Ou nem sequer se esforçavam para isso, diz Álvaro. O Afonso não era diferente deles, era um miúdo. Todos éramos miúdos ainda que a vida rapidamente se haveria de encarregar de nos tornar adultos quiséssemos ou não. Como as brincadeiras da altura não me convenciam decidi adiantar-me e preparar-me antes que a vida me surpreende-se, acrescenta Álvaro. O Afonso foi uma vez ter comigo no pátio da escola e perguntou-me porque eu não me juntava aos outros. E foi precisamente isso que lhe expliquei. Aquilo parece ter-lhe feito algum sentido. Ficou ali comigo e nunca mais nos separamos, concluiu. Ao fim de muito pouco tempo começamos a trabalhar. Foi mais fácil para mim do que para o Afonso. Aquilo tudo tinha uma ordem. E o trabalho na altura não tinha grande coisa de criatividade. Era preciso seguir um procedimento, e isso agradava-me. Afonso parecia ter vontade de outras coisas na vida. Frequentemente dizia-me para sair com ele à noite. Ao que lhe respondia que de noite já saia todos os dias para ir para o trabalho. Afonso ria-se sempre. Devia pensar que era uma piada, ainda que eu nunca tenha tido jeito para tal coisa. Eu encolhia os ombros e ele ia à vida dele, refere Álvaro. Por volta dos dezassete anos veio falar-me de procurar uma mulher. Não percebi nada daquela conversa. Até porque bastava sair à rua para ver uma. Afonso dava-me uma palmada nas costas e abanava a cabeça. Eu encolhia-me sempre ainda que a palmada não fosse assim tão forte, mas o toque não era coisa fácil. Ele ainda me tentou convencer de fazer como os nossos pais o fizeram e antes deles os seus pais também - trabalharam, casaram e tiveram filhos. Não há pressa dizia sempre, não há pressa. Ainda que tal não fosse verdade. Ao fim de muito pouco tempo começou a guerra. Afonso parecia decidido. O Álvaro nem por isso. Mas assim que Afonso lhe disse que não tinha por onde escolher. Que seria isso ou desertar e ser preso por traição, Álvaro não demorou a dizer que sim. Naquela noite não dormiu. Foi a única. Todas as outras nunca teve problema semelhante. Naquela noite era diferente. Sentia que estava a fazer uma coisa que não lhe fazia sentido. Foi a primeira de duas. A outra foi já na guerra quando tirou a vida a outra pessoa. Mas dessa vez não dormiu porque o barulho dos disparos e dos rebentamentos não paravam. E Álvaro sabia que não podia usar nada para tapar os ouvidos sob pena de poder ser ele próprio um alvo fácil. Álvaro ficava dias sem dormir para grande preocupação de Afonso, que certo dia foi falar com o médico da companhia. Por sorte tinha grande interesse em psiquiatria e das coisas que Afonso lhe levara o médico falou-lhe de algumas hipóteses. Nenhuma delas pareceu fácil para Afonso. O médico disse-lhe que nesta altura pouco ou nada podia ser feito. Chegou-lhe a dizer que dali sairiam todos de duas formas - ou mortos ou traumatizados. Talvez Álvaro beneficiasse do facto de já lá ter entrado traumatizado, disse-lhe Afonso tempo mais tarde quando lhe falou do episódio do médico. Era uma altura em que já se falava de aquilo tudo terminar. E Afonso sentia que não via alteração nenhuma em Álvaro. Ninguém, fosse do nosso lado ou do inimigo estava igual. Nem mesmo aquele lugar era o mesmo dizia Afonso. Mas não Álvaro que o ficou a olhar quando este lhe disse que o médico lhe tinha referido que ele poderia ter algum problema psiquiátrico e que lhe falou que poderia ser Esquizofrenia ou algo parecido. Álvaro encolheu os ombros, olhou à volta e continuou a limpar as suas coisas. Anos mais tarde, já depois de terem regressado da guerra algumas das características do Álvaro pareciam acentuar-se. Houve um tempo em que ficou mais agressivo. Mas a guerra parecia justificar muito daquelas situações. Ainda que Afonso continuasse a dizer que Álvaro saiu igual à forma como entrou. Voltou a encontrar o médico com quem tinha falado na altura e levou-lhe algumas das preocupações do Álvaro. Após algum tempo este lá acedeu ao amigo e foi com ele visitar o tal médico. Ao fim de algumas consultas o médico disse-lhe que aquilo tudo parecia ser uma coisa a que chamavam de autismo. O médico tinha feito parte da sua formação nos Estados Unidos, lugar de onde a sua mãe era oriunda. E foi lá que contactou com alguns colegas no hospital e que lhe falaram sobre o autismo. Para Álvaro parecia-lhe igual, ainda que estivesse sem ser capaz de conseguir aguentar um trabalho. Coisa que antes de tudo aquilo não tinha problema. Na altura Afonso lembrou-se que havia uma coisa que Álvaro fazia sem necessidade de ter ninguém perto de si - cuidar do jardim. Foi assim que Álvaro entrou para o lar antes de todos eles. Foi para lá antes mesmo da inauguração para tratar do jardim. Já não tinha os seus pais. Tinham falecido há algum tempo. Havia família mas Álvaro não se lembrava. E além disso havia necessidade de que esta família pudesse ficar a tomar conta dele. Afonso achou que seria melhor a ideia de Álvaro ficar pelo lar como jardineiro. Eles garantiram que lhe davam cama e comida em troca do trabalho. O médico acabou por concordar, até porque não via que outra melhor hipótese haveria. Álvaro entrou lá aos quarenta e dois e nunca mais de lá saiu. Só mais recentemente é que começou a deixar de tratar de grande parte do jardim. Algo que foi difícil para ele. Prometeram-lhe arranjar alguém capaz e que ele pudesse ir ensinando durante o tempo que fosse necessário. Chegou a durar cinco anos. O rapaz que veio ocupar esse lugar parecia não se importar. Até porque era uma forma de ele poder ter trabalho. Ele também parecia ter algo parecido com o Álvaro. Nós entendíamos, mas não éramos amigos. Aquilo era um local de trabalho, e além disso eu apenas tive um amigo, o Afonso, e ele hoje faria oitenta e seis, diz Álvaro.


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