O F-R-A do autismo

A alegria da entrada no Ensino Superior começa por esta altura a ser substituída por um conjunto de outros sentimentos - ansiedade, cansaço, preocupação, planear mudar de curso, etc. O primeiro semestre está a finalizar e com isso são muitos os estudantes universitários que estão envolvidos nas avaliações. Os níveis de ansiedade estão mais elevados nos alunos e nos pais que com alguma preocupação pensam que os seus filhos possam não conseguir ultrapassar este obstáculo. No caso dos alunos com uma Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) e que também estão no Ensino Superior o sentimento não é diferente, apenas mais intenso. E no caso dos pais também.

O número de alunos com algum tipo de Necessidades Educativas Especiais (NEE's) que estão a entrar no Ensino Superior é cada vez maior. E as preocupações de todos aqueles envolvidos também. Sejam os alunos mas também os seus pais, docentes universitários e responsáveis académicos igualmente. No meu caso, enquanto psicólogo que acompanha jovens adultos com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) e que alguns deles estão no Ensino Superior, a questão também me importa. Não somente na orientação e preparação do aluno para ingressar nesta nova etapa. Seja no trabalho ao nível das competências sociais mas também no trabalho mais relacionado com as metodologias de estudo.


As dificuldades que muitos foram sentido ao longo dos 12 anos de escolaridade obrigatória, continua a ser sentida, ainda que com outras dinâmicas e expressões. As questões da interacção social continuam presentes e com alguns contornos que antes não existiam. Se até então a turma era quase sempre a mesma, na universidade o mesmo já não se passa. E como tal as pessoas de referência passa a ser uma tarefa mais difícil de ter. E do ponto de vista académico o facto das aulas estarem organizadas em semestres traz uma dificuldade acrescida. São muitos os alunos no Ensino Superior e com PEA que dizem que quando se estão a habituar à disciplina e ao docente, ela já terminou.


Estas e outras dificuldades também levam a que muitos alunos no Ensino Superior e com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) mudem de curso e ainda mais grave abandonem o Ensino Superior (ES). As taxas de abandono escolar no ES e no grupo de jovens com PEA está dentro dos 60%. Atendendo a que nesta etapa não há uma prática mais generalizada de referenciação do aluno para ter um enquadramento de acordo com as suas necessidades, à semelhança de como foi acontecendo até então através do DL 3/2008 e agora mais recentemente com o DL 54/2018. Aquilo que observamos é que há uma percentagem de alunos que abandona o ES e que não temos conhecimento das suas características, ou seja, se têm Perturbação do Espectro do Autismo ou não.


Embora muitas pessoas com PEA sejam capazes de lidar com as exigências intelectuais da faculdade, eles podem ter dificuldades com outros factores críticos para o sucesso académico; por exemplo, competência interpessoal limitada, problemas nas relações sociais, problemas nas funções executivas (EF), falta de regulação emocional e psicopatologia comórbida, como altos níveis de stress, ansiedade e depressão.


E se por um lado há quem pense que a variável com maior responsabilidade pode ser a interacção e comunicação social. Outros referem que as questões cognitivas poderão ter um papel preponderante neste abandono. Ainda que se possa pensar que como alguns destes alunos têm um perfil cognitivo Médio Superior ou Superior, isso por si só que não existam dificuldades presentes ao nível cognitivo, porque há, nas funções executivas. Ou seja, os aspectos relacionados com a organização e o planeamento das tarefas do quotidiano, escolares e outras, é uma área onde muitos destes jovens apresentam um maior compromisso. Associado ao facto de uma percentagem significativa destes mesmos jovens apresentarem uma marcada rigidez e inflexibilidade cognitiva faz supor que as funções executivas são uma variável que melhor parece predizer o insucesso académico e por conseguinte o abandono escolar.

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