O curriculum escondido

Chegado ao final do Ensino Secundário muitos alunos começam a ouvir falar sobre o Curriculum vitae e a sua importância no futuro. E são também incentivados a criar o seu, sejam aqueles que progridem para o Ensino Superior ou aqueles que vão começar a trabalhar. Dentro dos diversos modelos que existem escolhem aquele que lhes parece ser mais adaptado ou bem referenciado. Mas muitas das dificuldades começam logo aqui. Qual o melhor Curriculum para a minha área? E se concorrer a outra área? E o que devo colocar no meu Curriculum? As perguntas são muitas. Assim como cada local de trabalho que tem a sua própria cultura organizacional e conjunto de regras, muitas delas implícitas. E sabe-las ou tê-las interiorizadas é uma mais valia para o sucesso da integração socioprofissional. Nas Perturbações do Espectro do Autismo (PEA) também há muita coisa que ainda se mantém escondido e desconhecido, tal como no Curriculum.

O Curriculum escondido é toda aquela informação que está implícita, que não é ensinada como todo um conjunto de outros conteúdos programáticos, mas as pessoas sabem. São aprendizagens que são feitas nas relações interpessoais, sejam com a família, mas a partir de determinada altura, principalmente com os pares.


E se há algo que se sabe que ocorre nas Perturbações do Espectro do Autismo (PEA) é de que as interacções sociais e as relações interpessoais apresentam um nível de compromisso variável. Mas que ainda assim tem um impacto negativo neste aspecto de fornecer à pessoa com PEA noções mais exactas do que é este Curriculum escondido.


E na entrada da vida adulta e precisamente no momento em que a pessoa procura entrar no mercado de trabalho é possível de notar essa dificuldade com maior detalhe. Ainda que a pessoa com PEA possa apresentar um excelente perfil cognitivo e intelectual e possa ter uma boa formação ao nível do Ensino Superior.


Tal como muitos outros jovens, não autistas, referem quando chegam ao mercado de trabalho e constatam com espanto que há muita coisa que não lhes foi transmitido ao longo do seu percurso académico. E ainda que algumas coisas não o estejam a ser devidamente transmitidas pela Escola. O certo é que há muitas aprendizagens destas que se inserem no Curriculum escondido que se aprendem na Escola mas não com a Escola. Ou seja, são desenvolvidas no âmbito das relações interpessoais com os pares.


Quando se está com alguém numa determinada situação e alguém responde muito espontaneamente - "Numa situação destas eu faria...." ou "Nestas circunstâncias é suposto proceder desta forma...". Estamos perante alguém que é minimamente conhecedor do Curriculum escondido. Por norma, uma pessoa com PEA quando ouve uma frase destas e a mesma é dirigida directa ou indirectamente a si, tem a noção de que o irão corrigir ou dizer que algo que fez foi incorrecto socialmente. E também por isso as pessoas no espectro do autismo vão desenvolvendo este ideia ao longo do desenvolvimento de que são uns "Extra-terrestres" que parecem fazer tudo ao contrários dos outros. E isto tem um impacto devastador não somente a nível emocional mas também ao nível das suas competências de auto-eficácia.


Podemos estar a falar de exemplos que para muitos serão coisas simples mas a forma como elas acontecem torna-se a situação bastante mais complicada. Por exemplo, a simples situação de entrada numa loja pode tornar-se um pesadelo. Como? Ora veja-se. Na loja há um recipiente com bolachas dentro e que tem um papel a dizer "Bolachas grátis". A pessoa aproxima-se e retira uma quantas e vai comendo-as enquanto se passeia pela loja e acaba por sair porque não encontrou o que queria comprar. Ao colocar o pé fora da porta ouve alguém a gritar consigo - "Onde é que pensa que vai?". A pessoa que estava de saída é um jovem com PEA e a pessoa é o empregado da loja. A pessoa com PEA nem sequer pensou que o facto de bolachas estar no plural se pudesse estar a referir a apenas uma bolacha. Mas até que o empregado pudesse compreender isso foi muito difícil. E o jovem com PEA desconfia que ele teve mais pena do que propriamente compreensão sobre a sua situação. E esta nem é das situações piores refere o jovem em questão.


Como podem ver uma situação simples. Mas que levou a que o empregado gritasse com a pessoa várias vezes. Quando esta pessoa com PEA tem uma hipersensibilidade auditiva isto leva a que os gritos se transformem rapidamente no carrilhão dos sinos de Mafra a tocar dentro da cabeça. E levou a que o empregado lhe segurasse no braço mesmo antes que o jovem saísse completamente da loja. O que no caso da pessoa com PEA ter uma hipersensibilidade táctil fazia com que uma situação simples se pudesse ter tornado numa situação de violência. Já para não dizer que nestas situações que ocorrem em contexto público leva a que haja frequentemente um rápido amontoar de pessoas em torno da situação a ocorrer. E que na maior parte das vezes as pessoas emitem os seus pareceres em voz alta ou até chegam mesmo a participar fisicamente na situação. O que para uma pessoa com PEA que tem uma maior dificuldade em conseguir lidar com um maior aglomerado de pessoas (entenda-se mais do 2-3 pessoas pode ser um aglomerado), leva a que a situação seja desastrosa. E a situação continua a ser a mesma - simples.


O resultado de muitas destas situações e principalmente quando não são devidamente acompanhadas leva a que a pessoa passe a desenvolver um comportamento de maior evitamento das situações sociais. Principalmente porque antevê que estas se venha a tornar igualmente catastróficas. Até porque muitas vezes associado à Perturbação do Espectro do Autismo existe uma Perturbação de Ansiedade ou pelo menos traços comportamentais de ansiedade. E isso faz com que esta leitura grandemente enviesada venha em muito a determinar um conjunto de situações futuras na vida da pessoa. Percebe agora como é que o sofrimento de alguém com PEA pode aumentar gigantescamente ao longo de 18-20 anos de existência? E percebe agora como é que isso pode impactar negativamente ao nível do desconhecimento de grande parte da informação que consta no tal Curriculum escondido?


É fundamental que para além da capacitação da pessoa com PEA ao nível das competências sociais tais como ocorre nos modelos de intervenção mais conhecidos, tais como os Comportamentais e Cognitivos. E que a pessoa seja orientada a como construir um Curriculum vitae e a se preparar para um entrevista. É crucial poder ajudar a pessoa ao longo do desenvolvimento a tomar conhecimento do que é e o que pode acontecer dentro deste Curriculum escondido. E não estou aqui a advogar a transformação da pessoa com PEA numa pessoa neurotipica. Nada disso. Estou a falar de poder fornecer estes conhecimentos como enriquecedor da sua base de dados para que num futuro mais ou menos próximo possa saber um pouco mais e melhor de como poder fazer.

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