Nem sim nem sopas!

Muitos de nós em determinado período da adolescência sentiu-se diferente. Um diferente pela positiva, outros pela negativa. E outros ainda sem saberem muito bem por que razão. É assim a adolescência. No espectro do autismo há uma crença em muitos de nós não autistas de que as pessoas do espectro não apenas são diferentes mas também elas se sentem como diferentes. Mas mais uma vez quando decidimos escutar as suas ideias sobre os assuntos percebemos que não é bem assim. Reveja lá as suas ideias.

A percepção que temos acerca de nós próprios é fundamental na construção do nosso autoconceito. Seja em relação à nossa capacidade ou não de fazer algo mas também em relação a outras questões, como por exemplo, a integração do meu diagnóstico na construção da minha identidade. Esta questão no espectro do autismo é fundamental. Não apenas pelo facto de se saber ou não o diagnóstico mas o que é que esse mesmo diagnóstico diz e representa para nós e o que conseguimos fazer dele em relação ao impacto e responsabilidade na construção da nossa identidade. Como tal, as percepções positivas e negativas que os jovens internalizam sobre os seus diagnósticos são cruciais, pois podem ter uma forte impacto no autoconceito e no bem-estar dos indivíduos.


E porque esta questão da forma como os jovens pensam o seu diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) pode ser importante?


Muitos dos pais e clínicos que têm recebido jovens do espectro do autismo ou que ainda não o sabem porque ainda não fizeram a avaliação já sentiram várias dificuldades. Uma mais marcante é o não envolvimento do próprio na avaliação e intervenção. Nada que seja muito diferente de outros jovens não autistas quando são levados ao psicólogo. No entanto, neste grupo específico a dificuldade parece acrescida, como em muita coisa no espectro do autismo parece ser. O não reconhecimento de ter um problema e muito menos um diagnóstico de PEA é determinante para o não envolvimento na terapia e até mesmo na recusa da mesma. E isto porquê? Em particular, a maneira pela qual se entende e explica a experiência de ter uma condição, perturbação ou doença é essencial examinar, pois isso pode ter grandes implicações para uma variedade de factores individuais, incluindo a autopercepção, bem-estar pessoal, resultados de saúde mental e motivação para tratamento. E se os pais muito frequentemente nos referem que sentem que os filhos fazem e se sentem de forma diferente em relação a muitas coisas. Já o mesmo não é referido tão frequentemente pelos próprios.


O que a PEA representa para ti? Que coisas sentes que podem ser difíceis para ti devido a teres PEA? Pensas que sentirás sempre essas dificuldades? Quais são os benefícios que pensar ter por teres PEA? Como é que pensas que os outros te vêm? Pensas que os outros te poderão ver como sendo diferente por teres PEA? Como é que pensas que o facto de teres PEA irá afectar a tua vida no final do Ensino Secundário e na entrada da vida adulta? São muitas questões é verdade. Mas são muitas das questões que os jovens se colocam neste período, como a diferença de que aqueles não autistas se perguntam acerca de outras coisas. E é importante que estas perguntas sejam feitas. Mas também é fundamental que as mesmas possam ter algum nível de reflexão e respostas. São fundamentais para a construção desta sua identidade, seja autista ou não autista.


Eu realmente não gosto de falar muito acerca disso. Na verdade não consigo dizer nada sobre essa questão de quando eu envelhecer. Eu penso que apenas irei manter esse assunto afastado dos meus pensamentos. Penso que é algo que não é importante. A razão pela qual eu não gosto de falar sobre o diagnóstico tem a ver com o quando as pessoas descobrem, e elas não me tratarem de forma normal. E isso incomoda-me... eu não gosto das etiquetas. Eu odeio isso completamente. É isso que eu não gosto. Por exemplo, quando eles vêm um rapaz com autismo a ficar descontrolado ou a fazer uma grande confusão sobre alguma coisa, eles dizem: 'Oh, ele é autista. Não é normal. Mas se alguém comum que não tem autismo fizer o mesmo, eles dizem, 'Oh, é normal. Estas e outras são algumas das respostas que alguns jovens com PEA referem em relação a estas questões do diagnóstico, do saber-se do seu diagnóstico e de como eles próprios pensam acerca do mesmo.


Mas em muitas outras situações respondem coisas como - eu não me acho diferente! Mas também não me acho normal. Até porque não sei o que é isso de ser normal. Uma frase que muitos de nós, jovens ou não já referiram em determinada altura. Que esta sobrevalorização da normatividade é excessivamente considerada e que para além de causar uma maior pressão social para o comportamento normativo. Muitas vezes é absurdo e em grande parte das vezes desrespeitoso da diversidade humana. É verdade que muitos de nós poderá conseguir colocar-se numa posição diferente daquela que é a sua para perspectivar o que será isso de ser normal. No entanto, um jovem com PEA terá maior dificuldade. Será importante falar-lhe acerca do que é a normalidade? Sim, mas não só. Será importante falar-lhe e ajuda-lo a falar acerca da construção que ele próprio faz de si mesmo.

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