Morro primeiro que o meu autismo

Adelaide (nome ficticio) nasceu em 1938. Tem hoje oitenta e dois anos. Nasceu no ano em que Salazar foi eleito Primeiro-Ministro, mas também no mesmo ano em que a primeira pessoa com autismo, Donald Triplett foi diagnosticado pelo Dr. Leo Kanner. Na maior parte da sua vida não ouviu falar de autismo, mas não foi por falta de oportunidades. A Dona Adelaide sempre foi vista como alguém mais retraída lá no bairro em Arroios. Ninguém se atrevia a passar perto da janela ou sequer ficar parado a falar debaixo da janela de sua casa. Não se queriam arriscar a levar com um banho de água. Porque houve muitas situações dessas. A avó Lita, nome pela qual era chamada na família, não era igual às outras avós ou fazia as coisas como as outras avós. Mas não deixava de ser a avó Lita. "Quem não gostar ponha na borda do prato!", não se cansava de repetir. Na semana passada, a família Pereira celebrou o Natal como sempre. Mas este ano a avó Lita fez questão de ir. Foi a primeira vez. Ao jantar disse a meio da refeição, "Este vai ser o meu último Natal".

Adelaide nunca foi de ir a médicos. Verdade seja dita que também nunca precisou muito. Teve cinco filhos, todos em casa. Apenas um morreu à nascença. Não lhe perguntem porquê que a própria diz rapidamente que na altura a vida tinha outro valor. Como é que eu sei disso? Porque lhe perguntei. Sempre foi uma mulher forte, impermeável, às doenças e à vida. Já viu muita gente morrer, principalmente durante a II Grande Guerra, mas também de outras maleitas, fossem doenças ou de fome. Trabalhou quase uma vida. Primeiro no campo e depois na casa das senhoras de Lisboa. "Eram trabalhos que não precisavam de mais nada senão dois braços e aceitar a nossa condição.", diz Adelaide. No campo sabíamos desde cedo o que tínhamos de fazer, os nossos avós sabiam-no, os nossos pais também e nós aceitávamos a nossa condição. Na casa das senhoras em Lisboa, apesar de diferente o trabalho, eram precisos na mesma os dois braços, apenas necessitávamos de maior delicadeza. Porque a aceitação mantinha-se.


Adelaide tinha seis irmãos, todos rapazes para contentamento do pai. A mãe de Adelaide queria que ela tivesse ido à escola como os irmãos. Pelo menos a instrução básica. Mas os tempos eram outros e o pai de Adelaide não era diferente dos outros homens da altura. Mas a mãe de Adelaide era igualmente forte e nunca desistiu da ideia de Adelaide aprender a ler e escrever. Adelaide dormia mal, sempre dormira. E pouco. Para o bem e para o mal, isso proporcionou-lhe várias coisas. Ter aprendido a ler e a escrever com a sua mãe quando esta vinha às escondidas do marido ter ao quarto da filha e passava quase a noite inteira por lá. E não eram raras as manhãs que se ouvia o pai dizer alto e em bom som, "Essa rapariga faz tudo o que quer por tua culpa Rosa.". Rosa, era o nome da mãe de Adelaide e também da segunda filha de Adelaide, que lhe deu esse nome em honra da mãe que partira cedo demais. Tudo era demasiado cedo naquela altura, até a morte. Assim, cedo a Adelaide casou e logo depois teve o primeiro filho. Nunca deixou de trabalhar, apesar de nesta altura ter mudado para Lisboa, em Arroios, onde ainda hoje vive, na casa do seu falecido marido.


Mas Adelaide não se ficou apenas por aprender a ler e escrever com a mãe. Não sabia porquê, mas sempre teve uma vontade única de aprender mais e mais. Por isso as noites em branco valiam-lhe muito. Isso, e as revistas e livros que haviam por casa das senhoras de Lisboa onde desde cedo Adelaide trabalhou nas limpezas. Cedo aprendeu espanhol nas revistas da Hola e também francês quando foi levada para trabalhar na casa do Embaixador de França, em que as Burdas e outras artes não faltavam. Foi ali a primeira vez que ouviu algo diferente do habitual Fado. Ainda hoje se lembra de ter ouvido pela primeira vez Edith Piaf. Mas foi um trabalho que não durou muito, por isso o seu Francês nunca foi tão bom quanto o Inglês. A esposa do senhor embaixador fumava muito. Adelaide sabia disso porque todos os dias lhe mudava o cinzeiro uma, duas e três vezes. E quando ela faleceu o senhor embaixador foi-se embora. Adelaide que não tinha problema em trabalhar foi logo recomendada para a embaixada de Inglaterra. E foi lá que se manteve boa parte da sua vida. E o seu Inglês melhorou tanto quanto Adelaide sabia aproveitar.


Na mesma altura em que mudou para a embaixada Inglesa foi o mesmo ano em que começou a guerra colonial. O seu irmão morreu lá no ano seguinte. Felizmente a mãe de Adelaide não era viva, senão teria morrido naquela altura de desgosto. Mas isso também quer dizer que foi Adelaide a tratar de todos os arranjos. Mas Adelaide já conhecia bem a morte. E sabia que nessas e em muitas outras situações de vida havia de ser pragmática. "A morte também é pragmática, porque não haveremos nós de o ser?", respondeu uma vez isto à minha pergunta de como ela se sentia em ser daquela forma.


Adelaide, tinha muitas queixas daquilo que hoje se chama de Perturbação do Espectro do Autismo, nível 1. A bem dizer, as queixas não são suas mas sim das outras pessoas. Mas o certo é que as características estão todas lá. Ainda que Adelaide consiga enquadrar uma boa parte das características naquilo que havia de ser e era esperado que fosse o comportamento de uma mulher. Desde o ser uma pessoa retraída pessoal e socialmente, também o era arrumada. Em demasiada na minha perspectiva de psicólogo. Mas mais uma vez Adelaide sempre o justificou dizendo que não ganhou outra coisa senão elogios por essa característica. Ainda que não consiga perceber que as pessoas que o diziam eram algo suspeitas.


Mas como é que eu cheguei até à Adelaide? Foi ela que chegou até mim. Ligou-me e disse de uma vez só, "Preciso de falar consigo. Você não me conhece, mas ainda bem. Eu vou morrer e não quero! Preciso de marcar uma consulta.". Propus-lhe uma hora no dia logo a seguir.


Quando Adelaide entrou e me apertou a mão senti-lhe o peso do que haveria de saber dentro em breve. "Não tenho tempo a perder, doutor!", rematou. "Estou a morrer e preciso de compreender uma coisa.", disse-o e ainda não tinha largado a minha mão. Adelaide não sabia que era do Espectro do Autismo. Mas quando lhe perguntei como tinha chegado até mim refere que achou que tudo o que estava escrito no meu site a fazia lembrar de alguma forma. Adelaide não procurou na internet o que queria dizer autismo e nem sequer pensou porque tinha feito a marcação comigo. O que Adelaide sabia era da compreensão da sua situação - Estava a morrer e não queria. "A mim faz-me sentido, e a si doutor?", foi o segundo remate e ainda se tinha sentado há pouco mais de um minuto. Disse-lhe que me fazia sentido ela estar ali. Foi o que verdadeiramente me fez mais sentido dizer.


Como o luto se manifesta de maneira diferente para os adultos no Espectro do Autismo? E como é que o próprio lida com a sua morte? Ao fim destes anos todos de Espectro do Autismo já vai havendo uma maior compreensão do processo de luto neste grupo. Mas em grande parte falar-se das crianças. Não que não seja importante, porque o é. Ajuda-las a ultrapassar o falecimento de alguém próximo, a elaborar cognitiva e afectivamente as experiências associadas àquela vivência e experiência de perda. Mas é igualmente fundamental ajudar o próprio autista a lidar com a sua morte. E para isso parece-me fundamental ajudar as pessoas ao longo da sua vida a aprender a lidar com a vida. Ambas, vida e morte são inseparáveis.


Pode ser difícil discutir a morte e o luto e ajudar uma criança ou adulto com autismo a lidar com a morte. Toda a pessoa autista e o seu nível de entendimento são diferentes. Precisamos de adaptar a abordagem ou orientação para a pessoa em questão. Uma pessoa autista entenderá e ajustar-se-à melhor se estiver envolvida e preparada com antecedência, na medida do possível. No caso das crianças elas podem ter percebido que as rotinas e a atmosfera da família mudaram e apresentam um comportamento desafiador em boa parte devido a esse facto. Mas não era o caso agora. Nem Adelaide é uma criança, nem está a apresentar um comportamento desafiador. A sua questão é outra. No caso das crianças precisamos de decidir quantos detalhes são adequados, e se alguém da família estiver doente, é melhor explicar. Mas o caso da Adelaide parece diferente. Explicar-lhe a morte implica pensar na minha morte, naquela que tenho representada dentro de mim, através dos meus valores e sistema de crenças.


Seria curioso pensar que Adelaide iria descobrir o seu autismo devido à sua morte. A questão do diagnóstico não estava ali sequer a ser levantada. Mas não deixava de a pensar. Procurar enquadrar aquilo que Adelaide me trazia precisava de um enquadramento adequado, e o do Espectro do Autismo era o melhor. Adelaide nunca prece ter sabido o que esperar nas situações sociais que surgiam após uma situação de morte. O seu plano era sempre o mesmo - tratar da situação, resolve-la. Foi assim, com a sua mãe, irmão e filho. Não deixou ninguém tratar do assunto. Mas quando ao resto diz que sente ter sido forçada a adivinhar o caminho. Ficava a pensar se tinha corrido bem e se ela tinha feito bem as coisas. Mas a resposta nunca lhe surgia. Sabia-o apenas porque a situação tinha chegado ao fim e estava tudo tratado. Adelaide diz que felizmente e compreensivamente nunca ninguém a procurou para ser confortada devido à morte de ninguém. Pois ela também não saberia o que fazer. E já tinha que lidar com tudo aquilo que sentia.


Foi fundamental perceber com a Adelaide o seu modelo de relações com todas as pessoas com que foi tendo uma relação mais ou menos próxima, fosse família, colegas ou vizinhos. Apesar de tudo Adelaide era como em muitos no Espectro do Autismo. Ela própria o dizia, "Ou sou amiga e quando isso acontece, sou-o a 100%, tal qual eu sou. O resto nem sequer interessa falar.", concluiu Adelaide. Estivemos quatro meses em que Adelaide vinha todas as semanas à consulta. Num dos dias marcados faltou, coisa que não era habitual em si, nunca o fora. Adelaide, morreu antes do seu autismo.

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