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Mais vale sozinho que mal acompanhado

Eu sou aquilo a que muitas pessoas chamam de bicho do mato, diz Alfredo (nome fictício). Na verdade nunca percebi por que é que as pessoas sentem essa tão grande necessidade de estarem uns com os outros, continua. Parecem dependentes! acrescenta Guida (nome fictício). Parecem que não sabem fazer nada sozinhos e que têm de estar a dizer o que fizeram ou não fizeram, continua. Eu por mim não sinto necessidade ou vontade de estar com outras pessoas, refere Romeu (nome fictício). Mas como é que dizes isso se estás sempre com alguém ao pé de ti? pergunta-lhe Matilde (nome fictício). Simples, diz Romeu. Eu estou nas aulas na presença dos meus colegas, mas isso não significa nada para mim, refere. No meu caso é diferente, diz Matilde. Eu quero estar com as pessoas, mas não da forma como habitualmente as pessoas o fazem, refere. Não consigo estar durante grandes períodos de tempo. Ao fim de um pouco tenho de sair, acrescenta. E as pessoas compreendem-te? pergunta Alfredo. É porque a mim já por várias vezes me julgaram injustamente, acrescenta. É verdade, diz Matilde. Infelizmente, não parecem de todo compreender a minha necessidade. Nem mesmo às minhas amigas a quem já expliquei as coisas, dizem não perceber, refere. Já tive amigos, diz Alfredo. Não muitos, mas já tive amigos, diz. E digo que já tive porque agora não os tenho. Eles é que deixaram de o ser. Um deles disse-me até que assim não queria ser meu amigo, acrescenta.


Este diálogo entre um grupo de jovens adultos autistas é capaz de ser reconhecido como caracterizador de muitas outras situações de vida de outras pessoas autistas. E não é por acaso que a designação isolamento social é comum de se ver associado ao autismo. Muitas vezes, até demasiadamente associado. E nem sempre compreendido da melhor forma. Até porque é pensado e sentido que as pessoas estão em isolamento social ou escolhem esta forma de estar por que o querem. Ou então, no caso das pessoas autistas, porque não o desejam e são anti-sociais. A questão é que a forma como o isolamento social e a solidão tem sido pensada no autismo, principalmente como fazendo parte da vontade da própria pessoa autista. Este constructo não tem sido estudado ou compreendido de forma adequada.


Por exemplo, muitas vezes dizemos ou até mesmo dizemos ter observado que uma pessoa autista ficou mais contente depois de ter sido deixada sozinha. E partimos logo do principio que é normal porque a pessoa autista não gosta de estar na companhia de outras pessoas. E não será certamente por acaso que ainda ouvimos dizer que a pessoa em questão não pode ser autista porque tem amigos.


Mas quando ouvimos crianças autistas dizer que para si a solidão é não estarem na companhia física de outro. Ao invés de uma criança não autista que para além desse aspecto também refere o facto da solidão emocional e relacional. Podemos perceber que há diferentes formas de poder conceber a solidão. E que de acordo com essa mesma concepção, os comportamento serão adequados e congruentes. Ou seja, se para uma pessoa autista o sentir estar em solidão é não estar na companhia física então é preciso procurar essa mesma companhia sem que tenha necessariamente de haver relação social e emocional. Ou se perguntarmos a um jovem autista se ele se considera uma pessoa que está em solidão, ele vai responder prontamente que não. E em parte porque justifica que está na presença de muitos dos seus colegas. Para além de os poder designar como amigos.


Não posso falar da minha verdadeira experiência de vida para a maioria das pessoas, porque não entenderiam ou estariam interessados. Isso faz-me sentir, como diz o ditado, "solitário numa uma sala cheia de pessoas e estou farto disso. Gostaria de falar com pessoas inteligentes e honestas e que percebessem o que é o autismo, diz Alfredo.


O isolamento social pode incluir elementos subjetivo e/ou objetivos. O isolamento social objetivo está relacionado com a quantidade real de contacto social que alguém tem. Por exemplo, contacto social menos frequente com outros, ter menos pessoas na rede social, e/ou viver sozinho. Em contraste, o isolamento social subjetivo relaciona-se com a adequação percebida da quantidade ou qualidade das relações sociais e incorpora conceitos, tais como o apoio social percebido.


A solidão é uma forma de isolamento social subjetivo e foi definida como um estado emocional negativo resultante de uma lacuna entre o real e o desejado de ter relações sociais com alguém. E dentro da solidão, há quem a compreenda como tendo diferentes dimensões. Por exemplo, uma solidão íntima, que se refere à perceção da ausência de alguém significativo e emocionalmente próximo da pessoa (e.g., um cônjuge); solidão relacional, que se refere à ausência percebida das pessoas que são relativamente próximas (e.g., amigos, família) e solidão colectiva, que se refere à ausência percebida de pertencer a grupos maiores da sociedade (e.g., identidade nacional).


Contudo, e apesar destas diferentes conceptualizações da solidão, e das consequências da mesma serem variadas. O certo é que muitas vezes estas incluem problemas de saúde física e mental, e que necessitam de ser compreendidas e abordas junto da comunidade autista.


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