Lição de ginástica cueca

Alguns dos leitores irão fácil e rapidamente identificar esta imagem e recordar o Pátio das Cantigas, e a inesquecível lição de ginástica cueca do Narciso (Vasco Santana) e o seu filho Rufino (Ribeirinho). E porque me fui eu lembrar disto tudo? Ultimamente tenho pensado cada vez mais sobre a importância da prática de uma actividade física nas pessoas autistas. E tal como o filme a preto e branco mas que parece sempre na moda, continuamos a ouvir que as pessoas autistas não gostam de fazer exercício fisico e como tal não há grande coisa a fazer. No entanto, continuamos a apelar para a prática da actividade física para a população em geral para melhor a sua qualidade de vida. É fundamental abandonarmos estes estereótipos, da mesma forma que o Rufino procurava que o seu pai Narciso abandonasse o seu comportamento alcoólico e pudesse mudar de vida. Mas para abandonar certos hábitos e poder ganhar outros é preciso que a estratégia possa ser adoptada à pessoa. E na prática de actividade física isso também não é diferente. "1...2...1...2...alto! peito para fora, barriga para dentro, cabeça para cima, ombros para baixo, queixo recolhido, mãos nos quadris!

Começo por lembrar que cerca de 70% da população Portuguesa não realiza uma prática de actividade física. Estes dados associados a outros dados de saúde, como o facto de haver um aumento da obesidade infantil, assim como nos adultos situações de doenças cardio e cerebrovasculares torna-se assustador. Como tal, é imperativo procurar perceber como é que chegamos a esta situação, atendendo a que a disciplina de Educação Física está presente ao longo do período escolar obrigatório. E quando sabemos que o nosso nível de saúde melhora substancialmente quando desenvolvemos a sua prática. Além de sabermos que há um aumento na nossa qualidade de vida e ao longo do ciclo de vida também. Será fundamental conseguir olhar para o quadro como um todo, nomeadamente o acesso a equipamentos e estruturas para a prática de sua actividade física, assim como a preparação dos espaços nos municípios para a realização desta prática ao ar livre. Mas também será fundamental compreender a percepção que as pessoas têm acerca da prática de actividade física tem para a sua vida. Estamos a falar de mudar comportamentos e para isso precisamos de os compreender. E isto passa-se com todos, ainda que agora vamos pensar mais objectivamente como se passa isto no Espectro do Autismo.


Muito frequentemente ouvimos que as pessoas autistas não gostam da prática de actividade física. Mas quando falamos com as pessoas autistas sobre esta questão percebemos rapidamente que não se trata de não gostar da actividade física, mas sim de outras questões. Na realidade, os adolescentes autistas são menos propensos a serem fisicamente activos em comparação com seus pares relacionados à idade. Apesar dos níveis mais baixos de actividade física observados entre eles, é desconhecido algumas das razões porque isso acontece. E muito da investigação tem ido ao encontro de algumas destas suas queixas e das suas características. E a investigação também foi fomentando esta ideia de que as pessoas autistas não gostam da prática de actividade física principalmente por algumas das suas características de saúde física mas também comportamental. No entanto, não temos dado atenção às componentes sociais e culturais e de como estas influenciam a sua participação na actividade física.


A investigação demonstra que a prática de acitividade física melhora as competências motoras e do controlo motor nos jovens autistas. Assim como também melhora a sua aptidão geral e saúde física, e na melhoria da sua qualidade de sono. Além do mais esta prática também contribui para o bem estar psicológico e com redução nos sintomas de ansiedade e na ajuda à regulação do comportamento auto-agressivo. E por último tem sido possível perceber que há uma melhoria na vida social e nas competências de comunicação e com uma facilitação para a sua inclusão na comunidade. E tudo isto é verdade para os jovens autistas mas também para qualquer um de nós. A questão é que as pessoas autistas parecem necessitar de uma maior atenção a este nível até porque se encontram em maior nível de fragilidade física e social.


Mas precisamos de perceber em que contexto é que a actividade física ocorre, seja dentro ou fora da escola. A questão da competitividade é algo que está ainda muito associado à prática de uma actividade física. E com esta competitividade vêm outros comportamentos ao de cima, nomeadamente comportamentos de bullying. É muito comum ouvirmos dizer que o jovem autista foi escolhido em ultimo e porque o professor obrigou a turma a fazer essa escolha para participar na actividade da turma. E isso é feito na maior parte das vezes de forma explicita. Há a ideia de que o colega autista apresenta um conjunto de características, nomeadamente a nível motor, de maior descoordenação motora ou outra, hipersensibilidade táctil, mas também maior dificuldade em realizar aquela prática num grupo de pessoas maior. As ofensas verbais são mais do que muitas e isso leva a que os alunos com esta condição prefiram não realizar a prática de acitividade física. Por exemplo, são muitas as raparigas que a partir da menarca passam a dizer que não conseguem realizar a aula por essa razão, quando é evidente que isso não é de todo verdade. E além do mais a menarca ocorre uma vez por mês e não todas as semanas. Mas ainda assim continuamos todos a olhar para o lado e a não quer fazer algumas mudanças para que todos possam sentir que participam.


Não só na escola mas também fora dela, os programas de prática desportiva que existem nos clubes e associações, a maior parte não parece estar vocacionado para a participação de todos os atletas. E isso leva a uma exclusão sentida pelos próprios que também referem não querer participar nas poucas actividades existentes para pessoas com outros tipos e níveis de deficiência.


Mesmo até ao longo dos anos em que as crianças, jovens e adultos autistas fazem imensos anos de diferentes terapias, a inclusão da prática de uma actividade física é muito rara de acontecer. E normalmente ocorre como necessidade correctiva de alguma situação motora. Tal como se faz terapia da fala devido a alguma perturbação evidenciada. E na verdade o mesmo também acontece para a psicologia. E raramente se pensa na prática ou na realização de uma determinada actividade para a melhoria da qualidade de vida e não somente para corrigir um qualquer problema. Dai que também se fique muito com a ideia de que a prática de actividade física é como um qualquer xarope com um sabor mais amargo e como se pode escolher, escolhe-se não o tomar. Além disso é importante passar a ideia de todo um conjunto de sensações positivas e importante que ocorrem quando da prática de actividade física. Não é apenas a melhoria da capacidade respiratória ou muscular, mas também todo um conjunto variado de sentimentos positivos que são gerados através da sua prática. Até porque a mesma vai levar a que um conjunto de neurotransmissores importantes para todos nós sejam produzidos na quantidade adequada e melhorar o nosso bem Star fisico e psicológico.


Além do mais é importante ajudar a construir a noção de qua a prática e uma determinada actividade física nos ajuda a construir uma identidade de pertença. a algo maior e importante. Seja essa identidade e pertença em relação à família, e nesse caso estaríamos a melhorar não somente a qualidade de vida do jovem autista mas também da família, seja a nível fisico, mas também a nível da dinâmica familiar, queixa que tão frequentemente acontece nestas famílias. Mas também a identidade e pertença a um grupo na escola e na comunidade.


Posto isto, é fundamental sensibilizar os profissionais da área da educação e especificamente da área da educação física e que já trabalham nestas áreas de intervenção e com crianças, jovens e adultos com perturbações do neurodesenvolvimento, mas também os Terapeutas Ocupacionais que me parecem fundamentais e serem incluídos nestes programas. E não esquecer os psicólogos e médicos que trabalham com estes grupos para poderem ajudar no processo de sensibilização. Está feito o convite, agora vamos lá todos começar ao mesmo tempo, "1...2...1...2...alto! peito para fora, barriga para dentro, cabeça para cima, ombros para baixo, queixo recolhido, mãos nos quadris!

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