It takes two to tango: Envelhecer no espectro do autismo

No tango como na vida é um requisito fundamental movermo-nos em relação um ao outro, por vezes na mesma direcção e outras em oposição. É vital que eu e o Outra possamos compreender essa importante dinâmica e ter humildade para a saber respeitar. À medida que vamos envelhecendo esta dinâmica continua a assumir igual ou até mesmo maior importância. Não que eu perceba alguma coisa de tango. E sobre o envelhecer ainda nem cheguei a meio caminho. Mesmo assim, continuo a sentir que é importante colocar questões sobre as duas: dançar o tango e envelhecer no autismo.

"Você pode assombrar qualquer casa sozinho

Ser um homem ou um rato por si mesmo

Você pode agir como um rei em um trono

Há muitas coisas que você pode fazer sozinho

Mas é preciso

Dois para dançar o tango..."


Louis Armstrong


A Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), é sabida como sendo uma perturbação do neurodesenvolvimento, que pode ter efeitos profundos na capacidade intelectual e no funcionamento psicológico, nas competências gerais e nos resultados globais da vida. Ainda assim continuamos em muito por saber acerca da trajectória de vida dos autistas neste período, desde a entrada na vida adulta para a frente. Estamos a falar de um período de tempo suficientemente grande e importante para ser negligenciado. Um intervalo de tempo que vai dos 18-25 anos de idade em diante.


Há algumas noções que se vão inferindo da informação conhecida acerca dos autistas até aos 18-25 anos. E como a PEA é uma condição que acompanha ao longo do ciclo de vida parte-se do principio que as situações afectadas durante a infância e adolescência se vão manter na idade adulta. Ou seja, as dificuldades na interacção e comunicação social perduram. O que não deixa de ser verdade. Mas e como é que estas áreas ficam afectadas? Serão de igual modo e gravidade? E se sim, porquê? E se não, o que poderá levar a que isso aconteça?


Também se sabe da existência de um conjunto de outras perturbações psiquiátricas associadas ao autismo, nomeadamente, ansiedade e depressão. Facto que leva a um agravamento considerável da saúde mental dos autistas. Mas e como é que isso ocorre nos adultos autistas? Será da mesma forma? É que na vida adulta ocorrem outras situações que não sucedem na infância e adolescência. Por exemplo, uma questão que tem vindo a ser descoberta no acompanhamento de autistas adultos é que parece haver um maior comprometimento cognitivo e intelectual em grande parte da responsabilidade dos inúmeros anos de problemas psicológicos com pouco ou nenhum tratamento. Um quadro continuado de ansiedade e depressão associado a um quadro de autismo tem um impacto severo na própria estrutura de funcionamento neuronal. E esse facto irá certamente agravar as dificuldades já sentidas até então pela pessoa.


As questões são mais do que muitas. No fundo é semelhante ao que eu sinto em relação ao tango. Tenho ideia do que se trata, já vi pessoas a dançar o tango. Mas tenho a certeza de que não sei nada sobre o tópico e muito menos dança-lo. Mas gostaria de o aprender e para isso sinto que tenho de colocar as questões de maneira correcta para conseguir obter a informação fundamental. No que diz respeito à questão do processo de envelhecimento no autismo é muito semelhante.


Que os autistas ao envelhecerem vão apresentar um pela mais enrugado penso que todos podemos concordar. Cabelos grisalhos, talvez. Ou necessidade de placa dentária ou bengala. Mas pouco mais poderemos afirma-lo. Como é que as pessoas reagem ao receber o diagnóstico na vida adulta? Porque sim, continua a haver muitos adultos que parecem viver duas vidas. Uma antes e outra depois do diagnóstico. Viveram quase metade da sua vida como não sendo autista ou então sendo uma outra coisa qualquer (deprimido, ansioso, etc.). E vão viver outra parte igual como autista. E como é que o primeiro consegue assimilar o segundo? E aceita-lo? Ou compreende-lo? E os outros familiares e alguns amigos e colegas que a pessoa possa ter, como irão enfrentar essa questão? E a pessoa irá querer dizer aos outros? Porventura o facto de saber o diagnóstico em idade mais precoce podendo beneficiar de intervenção ao longo de um período de tempo poderá determinar um caminho diferente no autismo daquela pessoa. Mas e como será o impacto que alguns autistas terão devido ao facto de poderem fazer medicação durante um período alargado de tempo para determinadas condições associadas (e.g., depressão, ansiedade, etc.)?


E se temos a ideia de que há um número significativo de autistas que não conseguem integrar o mercado de trabalho, para onde irão? E que impacto terá o desenvolvimento do seu quadro clínico se o seu isolamento social continuar a aumentar? E haverá institucionalização a partir de determinado momento? E se sim, que impacto terá? E as questões de saúde? É sabido que com o envelhecimento vão surgindo um conjunto maior de situações médicas. E que no caso do autismo já vai existindo algumas situações médicas associadas desde cedo e que a menor qualidade de vida ao longo do seu percurso vai certamente agravando o quadro. E os que se vão integrando e progredindo no mercado de trabalho, como será o seu percurso? Família, filhos, carreira profissional, desafios, aspectos positivos e negativos, altos e baixos, como será vivido e encarado tudo isto num autista adulto? E como isso transformará o autismo? Porque o autismo que pensamos conhecer da vida adulta é semelhante ao que eu conheço do tango ao vê-lo na televisão.

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