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Ideias a preto e branco

Tenho andado mais estranho! diz António (nome fictício). Eu sei que é estranho dizer que ando mais estanho, quando eu próprio sempre fui estranho! continua. Antes pensava que era estranho de uma forma negativa. Depois fiquei a saber que a minha estranheza chamava-se autismo. Mas agora não sei que estranho é este! desabafa. Eu sei que sempre fui muito fantasioso, mas parecia saber a diferença. Agora já não tenho tanta a certeza! conclui.


Ao longo de alguns dias, fiquei com a impressão de que tinha causado transtorno a alguém e, uma noite, ouvi gritos e depois uma gritaria lá fora durante cerca de 3 horas, altura em que fiquei bastante angustiado e acabei por chamar a polícia! dizia Carlos (nome fictício). Estava visivelmente transtornado. Repetia várias vezes o tema. Esta questão mais persecutória não era nova no Carlos. Já por algumas vezes tinha trazido experiências de algum tipo de perseguição por parte de colegas na universidade e mais tarde no local de trabalho. Mas esta situação parecia diferente, mais impermeável à critica.


Em vários momentos da vida, muitas pessoas autistas, mas também os seus familiares ou outros com quem convivem, referem ter a impressão de que se passa algo que não compreendem, ou que ficam alarmados ou preocupados. E quando ficamos a saber que no autismo há uma maior probabilidade de existência de outros diagnósticos psiquiátricos (designados de comorbilidades), passamos a perceber que a própria heterogeneidade do autismo ainda é maior. Para além de percebermos que a gravidade e a evolução do quadro clinico é muito diferente, e que levanta maiores preocupações. E se pensarmos em alguns comportamentos e pensamentos mais atípicos no autismo, em determinados momentos as pessoas podem suspeitar de algo mais próximo da psicose.


Existem fortes evidências da existência de uma elevada comorbilidade entre o autismo e a psicose, com percentagens que atingem os 34.8% e com várias implicações significativas para o tratamento e prognóstico destas pessoas. No entanto, a identificação de psicose comórbida em pessoas autistas representa um desafio complexo do ponto de vista psicopatológico, em particular em pessoas com maiores défices na comunicação verbal. E procurar interceptar o início de um colapso psicótico no autismo pode ser muito difícil, pois ambas as perturbações ocorrem de facto ao longo de um continuum fenotípico de gravidade clínica e, em muitos casos, os sintomas psicóticos estão presentes de forma atenuada.


No entanto, a psicose e o autismo diferem consideravelmente na idade de início, com a primeira a manifestar-se normalmente na adolescência e no início da idade adulta e a segunda na primeira infância.


E é importante pensarmos que do ponto de vista histórico, a esquizofrenia e o autismo foram considerados como estando intimamente relacionados. Sendo que posteriormente, através de estudos epidemiológicos, estas duas síndromes foram reconsideradas como duas entidades distintas, cada uma com as suas próprias características, curso clínico e início típico. No entanto, há um número crescente de estudos que focam a sua atenção na ligação entre a esquizofrenia e as perturbações do espectro do autismo, encontrando sobreposições significativas em estudos genéticos, dados de neuroimagem, sinais clínicos e características cognitivas.


Os sintomas psicóticos, incluindo alucinações, delírios e pensamento e comportamentos desorganizados, são as características da esquizofrenia, mas podem também apresentar-se no contexto de outras condições psiquiátricas e médicas. Por exemplo, muitas crianças e adolescentes descrevem experiências do tipo psicótico, que podem estar associadas a outros tipos de psicopatologia e experiências passadas (e.g., traumas, consumo de substâncias, ideacção suicida, etc.). No entanto, a maioria dos jovens que relatam tais experiências não tem, nem nunca desenvolverá, esquizofrenia ou outra perturbação psicótica. É fundamental uma avaliação exacta é fundamental, porque estas diferentes apresentações têm implicações diagnósticas e terapêuticas diferentes.


Paulo (nome fictício), é um jovem de 19 anos, criado principalmente pela mãe, após a separação dos pais na primeira infância, devido ao comportamento violento do pai. Tem também um irmão mais novo que foi criado com ele. Paulo viveu com a mãe e o irmão num residência social durante a infância. Aos 10 anos de idade, a família começou a viver num apartamento próprio.


O seu desenvolvimento psicomotor do fora normal, à exceção de um ligeiro atraso na fala. Desde a primeira infância, apresentava tendência para ser mais introvertido, brincando frequentemente de forma solitária e mantendo apenas alguns amigos. Durante o ensino obrigatório, o seu estilo de comunicação tornou-se marcadamente mais reservado em casa e na escola. Ele explicou que decidiu falar pouco "para evitar problemas". Notavelmente, também referiu que falar era sempre arriscado porque os outros "podiam não aceitar o que se dizia". Desde então, "escolheu" ficar em silêncio. Durante o ensino secundário, começou a sentir uma ansiedade significativa devido aos frequentes questionamentos dos seus professores. Não confidenciou os seus problemas à mãe até chegar a um ponto de ruptura e dizer que não conseguia continuar a estudar devido à sua enorme ansiedade.


Desde então, a sua vida tem-se caracterizado por permanecer em casa, passando a maior parte do tempo com o seu smartphone ou a jogar online. Tem alguns amigos que ocasionalmente o convidam para eventos sociais. Geralmente, recusa convites que envolvam um grande grupo de pessoas. Pelo contrário, está mais inclinado a aceitar convites que envolvam apenas um pequeno número de amigos, normalmente dois ou três no máximo. Ele explicou que estar num grupo grande de amigos o deixa desconfortável.


Durante a primeira avaliação clínica, o Paulo não expressa quaisquer aspirações para o futuro e não planeia voltar à escola ou procurar emprego. Não há qualquer indicação aparente de que sinta angústia ou desconforto por passar a maior parte do tempo em casa. Paulo não discute os seus sentimentos ou a sua vida sexual e não expressa qualquer raiva ou ressentimento em relação aos outros ou à sua situação. Também se recusa a falar de assuntos pessoais e evita responder a perguntas relacionadas com a sua esfera privada. Não recorreu a tratamento farmacológico nem procurou ajuda para quaisquer sintomas de depressão, ansiedade, stress ou insónia.


Na avaliação não foi observada ou relatada qualquer sintomatologia depressiva ou ansiosa, excepto a ansiedade na presença de um grande grupo de amigos. Foi efectuado um extenso inquérito para averiguar o seu retraimento social e explorar a possibilidade de sintomas negativos de tipo psicótico ou de PEA. Além disso, a nossa atenção foi direccionada para a possível existência de sintomas paranóides ainda que atenuados.


A certa altura, Paulo começou a interpretar estas dificuldades de uma forma paranoide, o que obscureceu o défice subjacente nas interacções sociais. Isto foi particularmente evidente quando ele expressou a crença de que era melhor "falar pouco para evitar riscos". Além disso, é de salientar que parece não se perturbar com o seu afastamento social e não refere qualquer angústia ou insatisfação com o seu isolamento. Este facto é consistente com as principais características da PEA.


Helder (nome fictício) é um homem de 22 anos, que recorreu pela primeira vez a ajuda psicológica com 16 anos de idade. Os seus pais notaram pela primeira vez que ele tinha problemas na escola quando começou a queixar-se de vómitos e da sensação de um nó na garganta. Por esta altura, estava a fazer os exames. Houve uma diminuição do humor e do sono, e notou-se uma perda de peso, uma vez que ele tinha dificuldade em comer sem vomitar imediatamente a seguir, o que levou a um internamento de uma semana num hospital geral para tratamento de insuficiência renal aguda. Antes do início do sexto ano escolar, ele revelou aos pais que tinha sido vítima de bullying na escola (um grupo de rapazes tinha feito vídeos dele, incluindo um flash mob, que tinham sido colocados no YouTube; tinham também criado uma página de perseguição no Facebook). Os seus colegas tinham feito uma faixa a dizer que ele era "esquizofrénico" e os seus pais relataram que ele pesquisou sobre esquizofrenia e disse-lhes que era isso que se passava com ele.


No primeiro mês após o recomeço das aulas, Helder parecia triste, chorava, ria de forma inadequada em intervalos curtos e notava-se que dormia mal e tinha pouco apetite. A sua comunicação verbal diminuiu e apresentava uma postura atípica. Em março, após uma avaliação psiquiátrica inicial, teve um segundo internamento de uma semana num hospital geral devido a desidratação com insuficiência renal secundária a restrição alimentar e de líquidos. Posteriormente, foi internado numa enfermaria dos Serviços de Saúde Mental para Crianças e Adolescentes, durante mais de um ano. Foi-lhe diagnosticado Perturbação do Espectro do Autismo e um episódio depressivo grave com características psicóticas. Helder teve alta, mas tornou-se cada vez menos comunicativo e episodicamente agressivo para com os pais. Foi transferido para o nosso serviço hospitalar ao fim de um ano. As suas dificuldades eram agressão física episódica imprevisível ao pessoal/doentes, choro, olhar fixo, incontinência urinária, episódios regulares de vómitos, movimentos posturais surpreendentemente bizarros e mutismo seletivo.


Para além dos aspectos de comorbilidade entre a Perturbação do Espectro do Autismo e a Psicose e que vão sendo cada vez mais estudadas e compreendidas. Parece importante poder compreender que na vida da pessoa autistas existem todo um conjunto de características e de condicionantes de vida que levam a potenciar o surgimento de determinados sinais que quando observados podem fazer pensar em psicose, ainda que possa não ser comprovado. Os aspectos sensoriais e a forma intensa como vão sendo vividos por algumas pessoas autistas, os hiperfocos e o processo de pensamento ruminativo e constante, o facto de serem muitas vezes vitimas de mal trato e bullying, etc. São todo um conjunto de exemplos inesgotáveis que leva a desenvolver características comportamentais mais persecutórias. Ou que do ponto de vista do pensamento possa haver maior dificuldade em ter critica sobre determinada questão, etc.


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