Hey teachers, don't leave those kids alone

Bem sei que o refrão é diferente, mas os tempos também são outros. São cada vez mais os alunos com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) que concorrem ao Ensino Superior. Em Portugal não temos os números daqueles que com esta condição estão lá, mas podemos fazer um calculo de que o número tem sido crescente. Como frequentemente digo, todos os anos tenho cada vez mais clientes com esta condição a entrarem no Ensino Superior. E posso deduzir que outros colegas que estejam a acompanhar pessoas com a mesma condição também tenham exemplos semelhantes. E se dúvida tivesse, quando olho para os números conhecidos no Reino Unido sobre esta mesma questão deixo de ter dúvidas - no ano lectivo 2017/18 eram 11.015 alunos com PEA que estavam a frequentar o Ensino Superior ao longo de todos os níveis de ensino. Mas quando se fala com uma pessoa autista que já frequentou ou está a frequentar o Ensino Superior é comum ouvir falar em experiências muito negativas e em tentativas de abandono. E quanto a esta situação ainda sabemos menos, mas podemos pensar nisso em conjunto. Venha dai connosco.

As minhas lembranças da Academia são fantásticas. Muito trabalho, descobertas novas, novas perguntas e formulações, amigos, muitos amigos. E quando falamos com outros estudantes universitários por norma temos esta mesma resposta o que valida a nossa experiência como sendo global. Mas nem todos têm esta experiência positiva e importante na sua vida, seja no período em que a viveram, mas também para o seu futuro.


Quando os meus clientes com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) falam sobre as suas vivências actuais ou passadas na Academia verifico que há um padrão muito semelhante entre eles e que também apresenta semelhanças com aquilo que foi a sua experiência durante o período escolar anterior, desde a entrada no 1º ciclo até ao fim do Ensino Secundário. Não é por isso de estranhar que alguns deles refiram que não fazem intenção de concorrer para o Ensino Superior. Ter de voltar a sujeitarem-se a todas aquelas experiências novamente é algo muito exigente e difícil de repetirem. No entanto, sabemos que a entrada no mercado de trabalho está muito dependente da sua formação, nomeadamente da formação superior. E como tal, se não continuarem a sua formação pós Ensino Secundário as suas probabilidades serão menores.


Em Portugal sabemos que há uma taxa de abandono do ensino Superior que ronda os 30%. Um número que tem vindo a crescer e que precisa igualmente de ser compreendido. Ainda que possamos pensar que os alunos que entram com uma média mais baixa possam entrar na opção de curso que não é a sua primeira e como tal ficam mais desmotivados. Ou que entram em Instituições mais afastadas da sua área geográfica e como tal ficam mais deslocados e desenraizados. E isso tudo possa contribuir conjuntamente com outros factores, nomeadamente económicos, para o abandono do Ensino Superior. Ainda assim, a percentagem é grande para nos fazer a todos reflectir. E talvez pensar que nestes 30% possam estar alguns alunos que sejam do Espectro do Autismo, diagnosticados ou não. Até porque em outros países é sabido que a taxa de abandono do Ensino Superior nos alunos com Perturbação do Espectro do Autismo ronda os 60%. Mas continua a ser explicado com base em suposições e não com base em factos reais.


Hoje no jornal Público podemos ler, "Covid-19: pessoas com deficiência dão nota negativa a escolas, universidade e serviços". A noticia está apenas disponivel para assinantes. Foi um estudo realizado pelo Observatório da Deficiência e dos Direitos Humanos. Apesar da noticia reportar números negativos relativamente à condição da pessoa com deficiência no Ensino. Penso ser um movimento importante este a que estamos a assistir. Ou seja, as pessoas com deficiência e as suas famílias estão a ser ouvidas e questionadas relativamente à sua avaliação face a estes serviços. Será certamente um ponto de partida para se começar a ajudar estas Instituições a melhorar tendo em conta a perspectiva dos próprios.


Daquilo que vou recolhendo enquanto informação junto das pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo que estão a frequentar ou já frequentaram o Ensino Superior as suposições e inferências que a literatura faz não estão muito longe da realidade. Por exemplo, uma das razões prende-se com a escolha do curso. Continua a haver pessoas que vão para o Ensino Superior "porque sim". Ou seja, porque lhes dizem que é importante irem e eles vão, sem que essa seja uma escolha sua, a ida, o curso, ou ambas. E a questão entre outras é que existem outras possibilidades e alternativas que podem ser verdadeiramente melhores escolhas e muito mais adaptadas. Mas é preciso falar disso ao longo do processo com o aluno e prepara-lo para essa transição, assim como a família. E aqui estarei a falar provavelmente da Orientação Escolar e Vocacional que no caso destes alunos poderá precisar de ser adaptada, assim como em outras situações.


Depois também oiço aqueles que referem que queriam entrar para um determinado curso e até entraram, quer na Universidade mas também no curso desejado, mas que ao fim de algum tempo se desinteressam, desmotivam ou desligam do mesmo. E em parte porque dizem que as suas expectativas foram largamente defraudadas. Por exemplo, queriam ser Programadores e foram para Engenharia Informática, o que parece fazer todo o sentido. asm ao fim do 1º semestre oiço-os a dizer que se Programação é aquilo então eles não querem continuar. Mais uma vez parece que estaremos a falar de Orientação Escolar e Vocacional e volto a frisar a parte de poder ser necessário fazer algumas adaptações. Alguns deles são realmente fantásticos no âmbito da Programação, e os resultados de uma avaliação que tenham feito apontou para isso. Mas depois não acautelou todo um conjunto de características próprias do candidato. Nomeadamente, a sua forma de poder pensar sobre a razão de determinadas Unidades Curriculares estarem presentes ao longo do curso escolhido.


A maior dificuldade em lidar com as expectativas e com toda a construção que fizeram do que deveria ser o Ensino Superior torna-se difícil para muitos destes alunos autistas. Mas o dia-a-dia na Universidade ainda consegue ser mais asfixiante.


Por exemplo, as dificuldades em compreenderem muitas das situações que ocorrem permanece com mais ou menos intensidade. "Porque é que eu que sempre fui um aluno de 18 a Matemática agora não consigo passar nas Unidades Curriculares que têm Matemática? Porque é que o professor me chumbou? Eu não percebi porque chumbei se trabalho mais do que a maioria dos meus colegas? Porque é que a professora não me explicou o que se passou? Eu não fazia a mínima ideia de que as coisas teriam de ser feitas daquela forma, porque não disseram?", Estas e outras frases, poderia continuar quase infinitamente, fazem parte do dia-a-dia de muitos estudantes do Ensino Superior com Perturbação do Espectro do Autismo. A interpretação das situações continuam difíceis na medida em que muita da interacção se tornou mais complexa. E como muitos continuam sem ter um grupo de pares de referência que os ajude a interpretar, ficam mais sozinhos nesta tarefa. Podem passar por apresentar uma personalidade mais persecutória e desconfiada, ou mais auto-centrada e egoísta por estarem mais frequentemente a falarem de si enquanto vitimas e dos outros enquanto culpados.


Apesar de tudo, ainda continuam a ser muitos aqueles que apenas são diagnosticados após o abandono do Ensino Superior. "Se ao menos eu soubesse!", dizem muitos deles. O que aconteceu então? Muitos destes jovens têm uma Perturbação do Espectro do Autismo nível 1, ainda que não tenha sido diagnosticada. Ou seja, apresentam um perfil do Espectro do Autismo bastante funcional e com um perfil cognitivo médio ou superior. E como tal sempre foram sendo bons alunos, apesar de algumas das suas dificuldades. E como tal, como também não foram apresentando dificuldades comportamentais associadas acabaram por não ser sinalizados. E entraram na Universidade sem saberem que tinha esse diagnóstico. Ao fim de muito pouco tempo, normalmente ao fim do 1º semestre ou do 1º ano, como não conseguiram fazer uma parte significativa das Unidades Curriculares e as que conseguiram fazer tiveram notas mais baixas, a sua ansiedade levou a uma maior desorganização. A sua sintomatologia depressiva acentuou-se e começaram a fazer evitamento às aulas e aos exames. Os pais sem compreenderem ficam muito preocupados e igualmente ansiosos e sem saberem como lidar com estas situações. E por vezes causam também ansiedade nos filhos na forma como reagem com eles. E as coisas desmoronam-se. Nesta altura os filhos são levados ao médico psiquiatra ou psicólogo e é nesta altura que alguns deles são diagnosticados, com Perturbação do Espectro do Autismo, nível 1, aos 20 ou 21 anos de idade. "Se ao menos eu soubesse!", dizem os jovens. "Se ao menos nós soubéssemos!", dizem os pais.


Depois, continua a verificar-se e eles quanto estão diagnosticados têm essa percepção, de que há ainda um grande desconhecimento em relação ao Autismo na Academia, seja nos colegas, mas também nos professores. "E nem todos lidam bem quando eu lhes tento explicar o que é, incluindo os professores!", dizem alguns dos meus clientes. "Fico cansado de ter de explicar tudo novamente!", "Eles já deveriam saber, afinal são professores universitários!", "Eu tenho imensas dificuldades em explicar certas coisas às pessoas, principalmente estas!", "Tenho receio que se lhes for explicar que sou autista eles me possam por de parte ou humilhar!". Estas e outras frases são repetidamente ouvidas e já foram validadas e reforçadas muitas vezes ao longo dos anos. Como tal, estas crenças criam barreiras maiores e mais dificuldade em poderem ser desconstruidas.


Os problemas psicológicos e psiquiátricos que co-ocorrem com o Espectro do Autismo nesta altura da Universidade acabam por ser mais evidentes e impactantes. Sejam as questões da Ansiedade ou Depressão, mas também as questões relacionadas com os rituais e comportamentos obsessivos e compulsivos. Estas situações acabam por dificultar ainda mais o processo de integração social e aprendizagem destes alunos. O choque sentido pela tentativa de imersão na cultura Académica é grande. Seja por alguns dos rituais e que possam envolver o beber e fumar, frequentar festas e encarar algumas situações de forma mais descontraída, entre outras. O certo é que as diferenças entre a sua forma de pensar e viver e a forma de uma larga percentagem das pessoas na Academia é grande e isso não favorece a integração. E por falar em festas, muitos dos alunos autistas referem que os barulhos e a própria agitação sentida no Campus e não apenas nas festas é grande e muito desconcertante.


Podemos ficar com a ideia de que podem ser as pessoas autistas que afinal não estão talhadas para frequentarem o Ensino Superior, mas enganem-se. Até porque, pensem que em Portugal cerca de 30% abandona o Ensino Superior e não dizem que eles sejam do Espectro do Autismo. Além disso, as propostas possíveis para integrar as pessoas autistas no Ensino Superior na verdade são todas elas propostas que irão melhorar certamente o funcionamento da Academia para todos os alunos, autistas e não autistas.

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