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From A to B

"Ai, Portugal, Portugal

De que é que tu estás à espera?

Tens um pé numa galera

E outro no fundo do mar"


Portugal, Portugal by Jorge Palma


From A to B - Perdoem-me o anglo saxonismo, mas aquilo que vos vou falar é da estratégia Inglesa e não da nossa. E não, não irei abordar a táctica Inglesa no jogo com a Itália no Europeu. Mas não vou deixar de pedir, Let's bring it home!! Mais especificamente, que tragam também para "nossa casa" (entenda-se Portugal), a estratégia de que vos irei falar.


Fala-se de autismo há cerca de 80 anos. E há 40 anos que este conceito entrou no Manual de Diagnóstico das Perturbações Mentais - DSM, na altura na 3ª versão. Muito se tem investigado, desenvolvido, implementado, seja junto das pessoas autistas, mas também com as famílias, educadores e professores, profissionais de saúde, do sistema policial e judicial, da Sociedade de uma maneira geral. Mas também é verdade que ao longo destes anos todos continuamos a verificar um conjunto grande de falhas ou de não cumprimentos e atropelos graves à legislação, Constituição, Directivas Comunitárias, Declaração dos Direitos Humanos e das Pessoas com Deficiência.


E não fiquem com a ideia de que estas necessidades todas são apenas para as pessoas autistas. Serão sem dúvida, na medida em que tal como qualquer outra pessoa, necessita que as suas necessidades, das mais básicas às mais complexas, possam ser satisfeitas. A forma como as pessoas autistas estão integradas na sociedade diz como a nossa Sociedade se encontra ela própria fragilizada, nomeadamente em valores fundamentais do humanismo.


Tal como acontece muitas vezes na clinica, precisamos de avaliar a pessoa, escutar o seu pedido e queixas, para poder diagnosticar e conceptualizar a situação clinica. E isto com o propósito de ter em mente os objectivos terapêuticos e o caminho a percorrer. Se isto não for feito, independentemente do modelo que oriente o profissional de saúde, não estaremos a ajudar a pessoa. Da mesma forma que se o país não tiver uma estratégia para a saúde mental e mais especificamente para o autismo. Isso também levará a muito desnorte, seja por parte dos profissionais de saúde e das equipas especializadas, que estarão a fazer as coisas de forma diferente e pouco ou nada concertada. E também um desnorte para as próprias pessoas autistas e seus familiares.


No Reino Unido, tem havido nestes últimos anos, todo um conjunto de documentos, pensados, redigidos e procurados implementar para mudar o curso dos acontecimentos na vida das pessoas autistas e das suas famílias. Até porque se verificava que antes da designada Autism Act/Law (tradução, Lei do Autismo), o autismo era muitas vezes mal compreendido pelo público e pelos profissionais. Além de muitas pessoas autistas terem enfrentado barreiras significativas para viver as suas vidas de forma plena e gratificante em e na comunidade. Além de ter ficado claro que era necessária uma ação para melhorar os serviços e o apoio para adultos autistas e as suas famílias, e para melhorar a consciência da sociedade sobre o autismo. Sim, pessoas adultas autistas. Até porque até bem recentemente, e ainda hoje algumas pessoas, têm dificuldade em pensar no autismo ao longo da vida. E como tal, em 2009, o Reino Unido desenvolveu o Autism Act, principalmente aplicado à vida das pessoas adultas.


Estamos em Julho de 2021. Vivemos uma situação de pandemia desde março de 2019. E muitas pessoas autistas ainda enfrentam longas esperas para o seu diagnóstico – e não recebem sempre o apoio adaptado às suas necessidades numa fase suficientemente precoce. Muitas pessoas autistas ainda lutam na infância, tanto para obter um diagnóstico e o apoio após um diagnóstico, incluindo na escola, e é difícil conseguir um emprego quando atingem a idade adulta.


E não vale a pena nos desdobrarmos, uns e outros, sejamos profissionais de saúde, educadores e professores e sociedade em geral, dizer que fazemos tudo para ser inclusivo. Sinto que cada vez que se escreve algo a apontar estas lacunas, há sempre quem venha dizer que na sua escola ou na sua prática clinica faz tudo em respeito da pessoa autista. Óptimo, digo eu! Mas não fique à espera de um prémio. As pessoas, todas elas, têm direitos fundamentais e que têm de ser respeitados. ninguém está a fazer favor nenhum a ninguém


Desde que a última estratégia para o autismo foi publicada, também foram surgindo novos desafios para pessoas autistas, assim como a nossa compreensão das barreiras que as pessoas enfrentam ao longo das suas vidas. Passou-se a ver o número de pessoas identificadas como sendo autistas a serem internadas nos serviços de saúde mental, e esse número a aumentar. A própria esperança de vida das pessoas autistas estar a diminuir, sendo que neste momento já se fala de menos 16 anos comparado com a população em geral.


E atendendo a que sabemos que os números nos apontam para cerca de 1% da população mundial é autista. É importante que cada país e depois de forma conjunta se responsabilize por criar um plano para o autismo.


No Reino Unido, o próximo plano que vai estar em vigor a partir de agora e ao longo de 5 anos, desejam criar uma sociedade que realmente entenda e inclua as pessoas autistas em todos os aspectos da vida. Um em que pessoas autistas de todas as idades, origens e em todo o país têm igualdade de oportunidades para desempenhar um papel completo nas suas comunidades e para terem um melhor acesso aos serviços de que necessitam ao longo das suas vidas.


E que para isso, o Reino Unido irá disponibilizar fundos para: melhorar a compreensão e aceitação do autismo na sociedade, melhorar o acesso das crianças autistas e dos jovens à educação e apoiar transições positivas para a idade adulta, apoiar a pessoas autistas no emprego, combate às desigualdades de saúde e cuidados para as pessoas autistas, construindo o apoio certo na comunidade, apoiando as pessoas nos cuidados, melhorando também o apoio dentro dos sistemas de justiça criminal e juvenil.


Ao ler estas proposta fico sempre com a ideia de que tudo isto é aquilo que deve ser considerado para todos os cidadãos, certo? Mas pelos vistos, é preciso criar um plano estratégico para lidar com isso. Caso contrário, corremos o risco de voltar a falar disto daqui a mais 5 anos. E tu, Portugal? Vais fazer como o Jorge Palma o canta?


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