Freud explica: As vantagens & desvantagens da Telepsicologia

Ainda sou do tempo em que podíamos ir à escola através do programa TeleEscola. À distância de um clique. Ainda que nessa altura não houvessem comandos de televisão e tivéssemos que levantar para controlar o aparelho. Mas no que diz respeito à intervenção psicológica se me tivessem dito há 20 anos atrás que iria estar hoje a fazer consultas online seria capaz de duvidar da saúde mental do informador ou pensar que estaria presente a um qualquer visionário. E não é que Nostrodamus não foi o único visionário!

Nos últimos 5 anos cerca de 30% das minhas intervenções em psicologia são realizadas online. Sejam consultas de acompanhamento de casos clínicos, parte de processos de avaliação psicológica, supervisão e acompanhamento de colegas, reuniões de trabalho em equipa, etc. Não sou caso único se pensar em alguns dos meus colegas do PIN que já antes disso realizavam o acompanhamento de crianças, jovens e adultos com uma perturbação do neurodesenvolvimento, mas também alguns pais, professores, etc.


À medida que estes últimos 20 anos foram decorrendo o caminho foi cada vez mais apontando para esta realidade. Tendo em conta que sempre me fui situando junto das tecnologias e acompanhando o seu desenvolvimento ao fim de algum tempo não fui estranhando essa possibilidade - usar a internet e os seus recursos para levar até junto das pessoas os meus serviços. Isto apesar de estar consciente que há outras pessoas, técnicos e não técnicos que possam considerar com alguma desconfiança esta abordagem. Por exemplo, ainda hoje há clientes ou pais de clientes que perguntam acerca das mais valias deste tipo de intervenção, se tem algum tipo de contra-indicação e se a eficácia poderá ser semelhante à intervenção realizada presencialmente. São várias as questões e suspeitas que são trazidas mas para as quais existem resposta, não deixando de estar consciente de que a intervenção online apresenta vantagens e desvantagens.


A Telepsicologia é o termo usado para se referir a qualquer serviço psicológico que tenha uma componente baseada na Web. De forma mais abrangente, a Telepsicologia é um termo genérico usado para descrever o uso de tecnologias de telecomunicações para fornecer serviços psicológicos por meio de modos como telefone, email, texto, videoconferência, aplicativos móveis e programas baseados na Web.


Uma das grandes vantagens é a possibilidade de pessoas e famílias que devido à distância geográfica dos grandes centros urbanos e de serviços de intervenção especializado se encontram impossibilitados de ter um acompanhamento adequado. Seja no processo de rastreamento e avaliação mas também de acompanhamento. Sendo que esta distância geográfica não se resume exclusivamente a território nacional e ilhas mas também a nível internacional. São vários os países que falam Portugês para além do facto de a intervenção poder ser realizada numa outra língua estrangeira desde que o próprio técnico a domine. No caso das perturbações do neurodesenvolvimento são escassos ainda em Portugal os serviços com uma resposta adequada do ponto de vista técnico mas principalmente do ponto de vista dos recursos que consiga dar uma resposta adequada, seja no tempo de espera mas também no tempo de intervalo entre consultas.


Estes serviços garantem a confidencialidade do cliente ainda que necessitem de ser assegurados várias condicionantes. Desde a plataforma em que é realizada a consulta (e.g., Skype, etc.), mas também o facto de haver condições técnicas respeitante à velocidade da internet, ter um equipamento adequado (i.e., computador, fones, micro e câmara) e assegurar que o espaço onde realiza as consultas representa um setting adequado e que respeita a privacidade do cliente. É certo que muitas destas variáveis podem ser e devem ser questionadas. No entanto os guiões propostos pela APA (American Psychological Association) e que estão em preparação pela OPP (Ordem dos Psicólogos Portugueses) para o efeito são uma garante do ponto de vista ético e deontológico.


Este tipo de serviço não se encontra adequado para qualquer idade ou condição e em qualquer outra situação a mesma deverá ser avaliada atempadamente pelo próprio técnico junto do seu cliente e poder falar com o mesmo acerca do processo. Ainda que muitos clientes e cada vez mais já nos procurem referindo que não é a primeira vez que realizam acompanhamento psicológico desta forma. No caso da idade, crianças pequenas ou que tenham dificuldade em estabelecer uma relação nesta modalidade é desaconselhado. Da mesma forma que uma pessoa com deficit cognitivo poderá ser um constrangimento que inviabilize o processo.


Para além destas e outras questões mais de ordem prática e tecnológica que são importantes. Enquanto psicólogo importo-me mais na relação terapêutica e como este novo setting poderá afectar a mesma. Seja através de um impacto negativo em que o próprio cliente não se sente confortável com o processo e abandona o mesmo Mas também poderá ser um outro qualquer tipo de impacto. Uma coisa é certa, o setting terapêutico e as características do mesmo influenciam a relação. E o facto do lugar escolhido pelo técnico mas também o facto do seu cliente poder estar a realizar as consultas na sua casa ou no local de trabalho deverá ser reflectido no que isso poder representar para a relação terapêutica. Seja no estabelecimento e fortalecimento da mesmas mas também no que a própria vai sendo responsável pelos conteúdos que vão sendo trazidos para as sessões. Os psicólogos devem considerar como manter limites apropriados nas configurações de telepsicologia, a fim de evitar danos e optimizar os ganhos da intervenção. Tais considerações também são necessárias, uma vez que é provável que o clínico de telepsicologia encontre novos problemas de fronteira que dificilmente ocorrerão no cenário tradicional de terapia presencial. Discutimos a utilidade clínica dos limites, os possíveis problemas de limites nos contextos de telepsicologia e sugerimos recomendações de melhores práticas para garantir um tratamento competente, ético e eficaz nesse novo contexto de prestação de serviços.


As barreiras e os limites a estabelecer na relação terapêutica já são por si só complexos e invisíveis, até porque não estamos a falar de barreiras físicas, mesmo estando a falar de uma intervenção presencial. O facto da intervenção ser online ainda acresce uma maior complexidade. Os limites são geralmente entendidos como as regras que governam o relacionamento terapêutico e que ajudam a diferenciá-lo daquele de um relacionamento comercial ou social. Tais regras ou limites incluem elementos estruturais, como tempo, local/espaço e dinheiro, e também factores de conteúdo, como o que realmente ocorre entre o terapeuta e o cliente.


O meu colega João Faria, psicólogo clínico, quem me introduziu e foi guiando neste processo é grandemente responsável pelo meu entusiasmo na utilização desta ferramenta mas também pelos cuidados a serem observados ao longo de todo o processo, até mesmo do ponto de vista conceptual. A prestação de serviços de saúde mental através do uso de tecnologias de telecomunicações continua a se expandir rapidamente. Com esses avanços, surgem novos desafios e questões que os psicólogos devem considerar para prestar cuidados éticos e competentes nesse modo de prestação de serviços. Manter os limites terapêuticos dentro do relacionamento da intervenção telepsicológica é uma área em que os desafios podem ocorrer. Tais desafios incluem questões relacionadas a garantir que a flexibilidade da prestação de serviços via telepsicologia não leve a intervenções menos profissionais ou de alta qualidade, além de garantir que o profissionalismo da relação terapêutica seja estabelecido e mantido.

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