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Feira de emprego

Não percebo como é que os meus colegas sabem aquilo que querem vir a fazer?, questiona Jordão (nome fictício) de 13 anos. É verdade que alguns deles já mudaram de ideia ao longo do ano lectivo, mas ainda assim parecem sempre ter uma certeza enorme!, desabafa Patricia (nome fictício) de 15 anos. Alguns deles nem são propriamente bons alunos. Alguns até dizem, tal como eu, que odeiam a escola. Mas depois afirmam que querem ser aquilo!, comenta rapidamente Carlos (nome fictício) de 14 anos. Jordão e o Carlos são da mesma escola, ainda que frequentem turmas diferentes. Estão no 8º ano. O Carlos ficou retido um ano. A Patricia está numa escola diferente a frequentar o 9º ano. Todos eles têm em comum o facto de não saberem o que querem, devem ou vão escolher para a sua área no 10º ano. Todos eles têm em comum um diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. E todos eles tinham acabado de vir de uma feira de emprego promovida pelas suas escolas. Disseram-me que quando saísse da feira de emprego saberia o que escolher!, comentou Carlos. Aquilo estava tudo mal organizado. Uma grande confusão. Como habitual as pessoas estavam todas umas em cima das outras. Para mim isso não dá. Fiquei sempre atrás. Não falei com ninguém! suspirou Patricia. No fim perguntaram-me porque não tinha trazido nenhum panfleto das empresas! Respondi que não precisava. Memorizei o que era preciso. É o mesmo que faço na escola!, esclarece Jordão. Muitos já terão ido a uma feira de emprego. Normalmente, as escolas costumam promover estas visitas junto dos alunos do 3º ciclo no sentido de os ajudar a pensar na sua escolha quando transitarem para o Ensino Secundário. Da mesma forma que algumas escolas promovem a realização da avaliação de Orientação Escolar e Profissional no 9º ano com um objectivo semelhante. É uma área fundamental da vida da pessoa e principal da vida adulta, e como tal importa ser pensada e preparada com antecipação. Trabalho e emprego são fundamentais para as sociedades e pessoas, permitindo que adultos alcancem independência económica com dignidade. Idealmente, os empregos permitem que as pessoa procurem interesses e talentos para atingir o seu pleno potencial. Infelizmente, as taxas de desemprego ainda são altas entre as pessoas autistas. Apesar de tudo tem havido nestes últimos anos uma mudança a este nível, seja no desenvolvimento da própria legislação (ver Lei 4/2019 que estabelece as quotas para pessoas portadoras de deficiência), mas também os projectos de recrutamento inclusivo que vão surgindo no âmbito da responsabilidade social das empresas. O certo é que vai existindo um tendência de mudança em relação à empregabilidade das pessoas portadoras de deficiência e mais especificamente com Perturbação do Espectro do Autismo. Mas ainda há um longo caminho pela frente. Parece fundamental pensar que as pessoas autistas vão necessitar de um acompanhamento especifico para que possam fazer uma tomada de decisão em relação à escolha vocacional a realizar. E tal como em outras situações de avaliação, é importante atender ao perfil de funcionamento da pessoa em questão para conseguir fazer uma melhor leitura da informação recolhida. Por exemplo, um jovem de 14 anos, autista, a frequentar o 9º ano, realiza as provas de Orientação Escolar e Profissional. Tendo em conta que os seus maiores interesses e competências se centram na área das ciências, o resultado obtido e a orientação fornecida na escola vai nesse sentido. Ficaram à espera que ao longo do Ensino Secundário ele fosse fazendo a escolha do curso a seguir. No 12º ano começou a aumentar os seus níveis de ansiedade. Os resultados começaram a baixar drasticamente. Ficou retido. Esta situação, apesar de inventada à medida que vou escrevendo, pode perfeitamente descrever muitas situações encontradas, dentro e até mesmo fora do espectro do autismo. Mas com o agravamento da situação se for a primeira situação. É fundamental mudar de uma visão orientada para o problemas sobre o autismo e o trabalho para uma visão orientada para as possibilidades. Os técnicos de orientação profissional devem-se concentrar em realizar um inventário dos pontos fortes (e.g., atenção aos detalhes, foco de atenção, pensamento lógico e sistematização, habilidades visuais, números, conhecimentos específicos, e trabalho que requer ação repetitiva, entre muitos outros), interesses e preferências das pessoas autistas e procurar identificar ambientes facilitadores de apoio, bem como planos de carreira adequados que correspondam a estes. E é imperativo que todo este processo seja realizado com a participação do próprio, co responsabilizando-o na construção do seu projecto de vida futuro. Neste processo, parece fundamental que os técnicos de orientação profissional devam fornecer conselhos relacionados com a importância de lidar e poder divulgar o diagnóstico no contexto de trabalho, assim como ajudar nas situações que potencialmente mais lhe causam um aumento de ansiedade e potencialmente de situação mais conflituosas e que culminam em muitas vezes num evitamento. Dependendo do perfil de funcionamento da pessoa autista e do nível de gravidade da sua situação clinica, é possível observar que as pessoas autistas trabalham em diversos empregos. Apesar de poder haver um sobre representação em áreas como na ciência, educação, arquitectura, administração de bibliotecas, cultura, economia ou produção de matéria prima. Ainda estão muito pouco representados em outros sectores como no turismo, vendas ou serviços gerais. Não há trabalhos para os quais as pessoas autistas sejam à priori mais ou menos qualificados. Ainda que hajam traços que os técnicos que os acompanham neste processo devam ter em mente ao ajudar com a correspondência pessoa-trabalho. Deve ser realizado uma análise abrangente e detalhada e mapear as competências individuais, interesse e perfil de preferência e as características específica do trabalho. Os apoios devem estar relacionados com a ajuda a que a pessoa autista se familiariza com o local de trabalho, sua cultura, rotinas e expectativas. Esses suportes são potencialmente demorados, exigindo uma acção operacional e estratégica. Há muita informação recolhida e com base empírica sobre o tema, mas o caminho continua a ser longo. Até porque, a maioria dos ambientes de trabalho ainda carece de uma cultura inclusiva. Portanto, a orientação de carreira necessita de examinar não apenas em detalhes as competências das pessoas autistas, mas também o trabalho e o ambiente de trabalho em todas as suas facetas. Por exemplo, a cultura do local de trabalho em direção à diversidade e estigma, o efeito e o tratamento do autismo, divulgação de diagnóstico, cheiros, iluminação, temperatura, distrações visuais, clareza de procedimentos, localização e todas as expectativas sociais que podem afetar o desempenho do local de trabalho e bem estar da pessoa.


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