Eu, autista

"- O que é o Autismo?". Uma condição do neurodesenvolvimento, de origem neurobiológica e com inicio precoce que ocorre ao longo do ciclo de vida da pessoa. Apresenta défices na comunicação e interação social, assim como alterações no comportamento. "- Sou apenas isso? Um breve parágrafo!", responde frustrado mas sem saber que mais dizer. "- Orgulho? De quem? De mim? Porquê?, dispara perguntas como quem soluça. "Para ter orgulho teria de saber o que isso é!", e fez silêncio. "- Para ter orgulho de mim teria de gostar de mim!", novo silêncio. "- Para gostar de mim teria de ter sentido que os outros gostaram de mim, e isso não aconteceu!". Este seria o principio de muitas conversas de construção de um novo significado e da reconstrução de uma identidade. O que é que o Autismo significa para o próprio? A maioria de nós não sabe, e principalmente porque não procuramos saber junto dos próprios, mas também porque não participamos activamente para ajudar a dar-lhes voz.

O Self é um constructo complexo mas que pode ser pensado como a experiência comum compartilhada, que sabemos que somos a mesma pessoa ao longo do tempo, que somos os autores de nossos pensamentos e ações e que somos distintos do meio ambiente. O nosso sentido do Self segue a forma como entendemos o Mundo.


"- As minhas experiências comuns com os outros foram sempre difíceis. Não desejo repetir nenhuma delas. E ainda assim não me consigo esquecer de nenhuma. Lembro-as todos os dias, ao longo destes anos todos.", diz António (nome fictício).


"- A minha primeira experiência comum partilhada foi no Jardim de Infância. Recordo o ruído, a agitação. Fui largada dos braços dos meus pais e deixada nos braços de uma outra pessoa que me apertava contra si e me magoava. Quando os meus pais sairam, ela pôs-me no chão e as outras crianças vieram a correr para mim e agarraram-me. Um deles deixou-me cair. Ninguém me apanhou do chão. Esse dia que parecia nunca mais acabar parece que ainda hoje ao fim destes anos todos se continua a repetir.", diz Cláudia (nome fictício).


A comunicação interpessoal precoce é central para o estabelecimento do Eu (Self) no desenvolvimento normativo.


"- Os meus pais estavam sempre a puxar-me a cara para eu olhar para eles. Por vezes gritavam e diziam que tinha de olhar para as pessoas quando falava com elas. Quando o faziam eu não conseguia perceber nada do que eles diziam. E a seguir zangavam-se novamente comigo por não me lembrar do que me tinham dito. Zanga, deve ter sido a primeira palavra que aprendi. E depois escrevia-a em todos os sítios. Penso que por causa disso me levaram a um psicólogo. Foi muito cedo. Os meus pais disseram que foi aos três anos de idade. E da mesma maneira que continuava a escrever a palavra zanga em todo o sitio, o mesmo parecia acontecer com o número de psicólogos e médicos que visitei!", descreve António.


"- As minhas irmãs mais velhas gostavam muito de brincar com bonecas. Eu não. Nunca percebi porque continuavam a teimar chamar nomes de pessoas às bonecas se elas eram apenas bonecas. Como não conseguia percebe-las não brincava com elas. Então elas brincavam comigo. Faziam de mim mais uma boneca entre as muitas que elas coleccionavam. Vestiam-me, pintavam-me. Odiava quando me mexiam no cabelo para pentear. Eu fugia delas, mas como era mais pequena não conseguia. Os meus pais não percebiam que aquilo que me fazia doer e diziam que eu tinha de brincar com as minhas irmãs, já que não brincavam com as outras crianças!", acrescenta Cláudia.

Há toda uma vasta literatura que indica que os processos iniciais subjacentes à consciência do Self e do Outro está prejudicado ou com um delay no espectro do autismo, incluindo seguir o outro com o olhar, resposta atípica ao som som e deficit de atenção, exibição de objectos, resposta e orientação quando chamado pelo seu nome, olhar para o rosto dos outros, brincar ao faz de conta, olhar para o outro com intenção de regular a interacção, empatia e imitação, comportamento de atenção conjunta, afecto e relacionamento pessoal.


"- Comecei a ler cedo. Mesmo antes dos meus pais saberem. Aos oito anos já sabia que era autista. Na altura não percebi o que era isso. Mas os meus pais tinham muitos livros com esse nome escrito - Autismo. Quando ficava sozinho e me fartava de brincar começava a ler esses livros. Alguns estavam em Português. E fiquei a saber o que era o autismo. E estavam lá todas essas coisas escritas. Coisas que não fazia, não sabia, deficit, incapacidade. Não havia nada de bom sobre o autismo. E como eu tinha autismo, não havia nada de bom sobre mim. Foi como se me tivesse visto ao espelho pela primeira vez e tivesse visto uma aberração, um monstro. Quando vi o filme do Frankenstein pela primeira vez disse que ele também era autista e ninguém compreendeu!", diz António.


"- As minhas irmãs diziam que eu parecia uma plasticina. Diziam para eu ser uma professora e eu fazia. E depois para ser uma médica e eu cumpria. Eu sempre soube fazer várias coisas. Vi as pessoas na televisão. Via muita televisão. Aquilo que sei do mundo está na televisão. Quando quero pensar sobre algumas coisas volto a ver uma e outra vez aquela série, repetidamente, até conseguir perceber as coisas. Sei as palavras e as entoações de voz. Dizem que sou boa a imitar os outros. Até já me disseram que podia ser essa a minha profissão. Não percebo porquê! Eu faço aquilo não é para ganhar dinheiro. Faço aquilo para perceber as coisas. Tenho muitas pessoas na minha cabeça. Muitos nomes e muitas identidades. Aos 15 anos na escola na aula de Portugês fizemos um trabalho de quem éramos nós. perguntei à professora se podíamos usar uma folha A3. Quando terminei tinha a folha toda cheia. Eram todas as pessoas que eu já tinha sido. Quando a minha professora perguntou, eu disse-lhe que era todas aquelas. E depois disso os meus pais levara-me ao psicólogo. Foi a minha primeira vez, mas depois disso nunca mais deixei de ir a esse e a outros psicólogos. Disseram-me que tinha depressão, ansiedade social, perturbação da personalidade e outros nomes que já não me consigo recordar. Eu acho que tenho autismo. Pelo menos daquilo que eu já li e investiguei.", confessa Cláudia.


A capacidade de reconhecer o próprio rosto no espelho é considerado um teste para a autoconsciência. O auto-reconhecimento não é apenas essencial para o desenvolvimento de um conceito do Eu e diferenciação de si próprio, é também um pré-requisito para o desenvolvimento posterior da Teoria da Mente, como um auto-conceito estável e é a base para poder ler os estados mentais dos outros.


"- Raramente me vejo no espelho. E verdadeiramente não compreendo a necessidade que muitas pessoas parecem ter em se olhar no espelho. Quando era mais novo pensava que eles tinham dúvida se estariam lá e por isso tinham de se olhar no espelho. Depois explicaram-me que poderia ter a ver com a questão da vaidade ou para as pessoas perceberem se estavam bem arranjadas ou não. Ainda assim penso que se olham demasiado ao espelho, ao contrário de mim. Não vejo necessidade dessa questão da vaidade e nem a compreendo muito bem. Quanto a saber o que eu vejo em mim quando me vejo ao espelho - vejo-me a mim! Que mais poderia dizer? Vejo cabelo, cada vez menos. Vejo dois olhos, um nariz, etc. É para dizer tudo aquilo que eu vejo?", pergunta o António.


"- É-me difícil perceber o que os outros estão a pensar ou a sentir. Quando era mais nova respondia quase sempre que não estava dentro das pessoas para saber isso. Agora já sei como é que isso se processo, mais ainda assim continuo com a mesma questão - não sei o que estão a pensar ou a sentir na maior parte das vezes! Em certas situações penso que sim, mas depois quando digo alguma coisa parece que não é bem assim. Já tentei algumas vezes e sinto que desisti de tentar. É muita informação. As pessoas mexem muito, seja as mãos mas também o rosto. São imensas expressões e muitas delas parecem contrárias ao que parecem estar a dizer.", confessa Cláudia.


Conhecer a si mesmo e conhecer o corpo de alguém são conceitos intimamente relacionados. Até porque a aquisição da imagem corporal não é inato, mas adquirido através de experiências próprias e de outros corpos.


"- O meu corpo mudou. Mas confesso que há coisas que só me apercebi mais tarde. Na escola percebi a determinada altura nos balneários que havia rapazes que falavam do corpo e das raparigas e do corpo delas também. Mas foi apenas isso, até porque não liguei muito a isso. Passei a ter interesse em determinada altura na masturbação. Até porque sentia essa necessidade. Talvez tenha sido uma altura em que mais próximo estive do meu corpo." diz António.


Vamos mudando ao longo do tempo. O nosso corpo e a nossa forma de pensar sobre as coisas do Mundo vai sendo diferente. Mas a nossa pessoa é a mesma. A consciência de que somos a mesma pessoa ao longo do tempo, também é definida como estendida temporalmente.


"- Se há coisa que fiz desde sempre é mudar. E sempre me consegui sentir uma pessoa diferente em cada um desses papeis. Mesmo hoje enquanto adulta sinto que ao longo do dia finjo muito ser quem não sou, com as colegas, na rua, mas também por vezes em casa. E nem sequer penso em quem é que estou a ser naquele momento. Penso que é preciso ser assim. No trabalho penso assim porque tenho de fazer as coisas. Na rua porque preciso de comprar isto ou aquilo. E em casa porque sinto que não quero falar de determinadas coisas.", desabafa Cláudia.


"- Se me orgulho de ser autista?", pergunta António. "- Não escolhi ser autista. Na verdade não o escolheria ser se me dessem essa possibilidade de escolher. Eu sei que as coisas não são assim, escolhidas. Mas se fossem, não escolheria ser autista. Nem conheço alguém que alguma vez tenha dito isso de forma sincera - que escolheria ser autista.", completa António.


"- Orgulho autista?! Sim. Orgulho de ser autista!? Não. Só sofri nesta vida e sinto que vou continuar a sofrer. Não conheço outra vida, além daqueles que finjo ser. E nessas também sofro. Sofro em todas. Para ter orgulho em ser autista penso que teria de amar a vida. E isso, que não sei o que é, ainda assim penso que é mais do que amar o outro. É ser amada. E eu nunca o fui.", finaliza Cláudia.

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