Especialistas no uso da besta

Na minha altura de criança perder um episódio do Guilherme Tell era imperdoável. Até porque qualquer episódio servia para aprender a técnica tão cobiçada - acertar sempre no alvo. Há muitas outras coisas na vida em que procuramos aprimorar a nossa técnica para acertar no alvo. Em saúde vejam a multiplicação de séries sobre médicos com metodologias de diagnóstico infalíveis, ainda que normalmente padeçam de um humor intragável. Na Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) e principalmente em adultos é algo que ocorre com frequência. E quando são mulheres a situação agrava ainda mais. Felizmente, a prática de tiro ao alvo usando uma besta já não é feita com a colocação de uma maçã sobre a cabeça do tão corajoso voluntário. Percebe-se porquê, certo?

Um em cada cem nascimentos verifica-se a existência de uma pessoa com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). 1 em 100 pessoas. No censos de 2011 (ver site da PORDATA, por exemplo) refere que na altura existia 114,5 pessoas por Km. quadrado. Se partirmos do principio anterior de que 1 em cada 100 nascimentos há uma pessoa com PEA, poderíamos pressupor que há uma pessoa com Perturbação do Espectro do Autismo por Km. quadrado. Basta imaginarem um quadrado em que os lados medem 1 Km. e imaginarem que lá dentro está uma pessoa com estas características.


É frequentemente referido na literatura cientifica e não só que há uma grande heterogeneidade na Perturbação do Espectro do Autismo. Nomeadamente, há uma frase igualmente repetida do Dr. Sthepen Shore - "If you have met one person with autism, you have met one person with autism". Ou seja, não há uma pessoa com este mesmo diagnóstico que seja igual a outro. Mas infelizmente continuamos a observar com frequência um ancorar às características da DSM 5 de uma forma exclusiva. E caso não há um cumprimento criterioso dos critérios de diagnóstico já não se diagnostica PEA. Mas também, o facto de nas pessoas adultas se observar uma maior variabilidade entre pessoas com PEA, mas também uma maior presença de outros diagnósticos psiquiátricos, ou traços comportamentais de outros diagnósticos, mas também maiores níveis de funcionalidade. Tudo isso parece servir para não diagnosticar, diagnosticar erradamente, seja por excesso mas normalmente por defeito uma pessoa adulta com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA).


É verdade que uma pessoa adulta afigura-se como um maior desafio para um diagnóstico destes por várias razões. Seja porque já procurou durante muitos anos uma ajuda e que ao longo desse processo foi obtendo vários diagnóstico, nomeadamente diferentes. Mas também diferentes abordagens de intervenção, psicológica e médica. Mas de forma muito semelhante, com resultados muito baixos na resposta à sua condição e principalmente ao seu sofrimento psicológico. E chamo a atenção especialmente para este aspecto - o sofrimento psicológico, não obstante o diagnóstico. É fundamental compreender o diagnóstico. Mas penso ser ainda mais fundamental a resposta ao sofrimento da pessoa. E ser capaz de perceber que se não estou a dar resposta a esta última questão será fundamental fazer duas coisas: reflectir acerca de nossa actuação e de preferência que não seja sozinho - pensar em supervisão ou intervisão. Mas também poder encaminhar a situação da pessoa para outro colega ou serviço. O que nos caso da Perturbação do Espectro do Autismo em adultos é uma verdadeira dificuldade.


Mas há os casos daqueles que nunca sequer foram diagnosticados ao longo da infância, adolescência e principio da vida adulta. Mas que as dificuldades estão todas elas presentes. Seja as características relacionadas com a interacção social. E que variam entre a existência de um grupo mais restrito de amizades, passando por uma maior dificuldades no estabelecimento de um contacto social inicial, até aos que apresentam maior dificuldade na manutenção da relação social. Não obstante a repetição da palavra dificuldade chamo a atenção para a questão de que as pessoas com PEA procuram e fazem questão de ter amigos. Algo que é visto como não podendo estar inscrito dentro do espectro do autismo. As pessoas podem sentir-se confortáveis com um número mais reduzido de amizades. Sendo que este número é tido de acordo com a referência de pessoas sem este mesmo diagnóstico.


A questão do diagnóstico da Perturbação do Espectro do Autismo no adulto não é apenas nesta altura que deve ser pensada. A PEA é uma condição do neurodesenvolvimento e deve ser pensada ao longo do ciclo de vida. Não somente porque é uma condição crónica e que está presente na pessoa desde sempre ao longo da sua vida. Mas também porque esta própria presença obedece a um conjunto de transformações próprias do desenvolvimento da pessoa em si, do que é considerado normativo naquela idade no reportório comportamental da pessoa e na forma como este se relaciona com os outros. Mas vejo como fundamental pensar no diagnóstico e na sua importância desde sempre, não somente pela vital importância do diagnóstico ser precoce. Mas neste caso especificamente porque a pessoa com PEA quando chega a adulta e nunca antes foi diagnostica ou mal diagnosticada já não terá essa espontaneidade de procurar uma nova avaliação ou acompanhamento, quando tantos outros no passado correram de forma tão negativa para o próprio.

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