Entrevista com um autista

Não se pode tomar banho no mesmo rio duas vezes, diz o ditado. Da mesma forma que nunca vi uma entrevista que fosse igual a outra. Enquanto entrevistado já estive em situações mais ou menos exigentes e causadoras de algum stress. Ter um painel de júri com três ou quatro pessoas a fazerem-te perguntas é um bom exemplo disso. Mas também entrevistas "relâmpago" onde nem se teve tempo de aquecer a cadeira. Ou outras em que tens uma câmara apontada para ti a transmitir para a televisão. Ou estás num posto da PSP a apresentar uma queixa. As situações são muito heterogéneas. Assim como os próprios entrevistadores. E há alguns que deixam muito a desejar ao papel desempenhado. Da mesma forma que os entrevistados que aparecem que nos colocam momentos desafiantes. E como será uma entrevista com uma pessoa adulta autista?

Penso que muitos de nós conseguimos recordar uma situação de entrevista transmitida na televisão em que a sucessão de situações idiossincráticas se sobrepôs ao tema da própria entrevista. Provavelmente sentiram que o entrevistador não preparou a entrevista e não pensou nas questões mais adequadas mas também na pessoa que iria ter à sua frente. Em algumas situações pode ter sentido que entrevistador e entrevistado pareciam estar em mundos diferentes ou então a degladiarem-se num qualquer braço de ferro.


Quando faço uma análise conjunta com os meus clientes adultos com uma Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) acerca de uma situação de entrevista que tenham tido no passado fico com a sensação de duas coisas: 1) é importante continuar a treinar técnicas de entrevistas com eles; 2) há muitas pessoas a fazerem entrevistas que precisam eles próprios de treino - técnico mas também pessoal.


Por exemplo, se há coisa que me acontece no meu quotidiano é o de estar com pessoas que não conheço e não faço sequer a mínima ideia de quem são, para além do nome, sexo e idade. Falo disto em relação à situação de consulta de psicologia clínica. Mas numa situação de entrevista também acontece com frequência esta possibilidade. E por isso é importante podermos adoptar uma determinada postura facilitadora do processo, Seja na consulta mas também na entrevista. A pessoa que está presente poderá ter um conjunto interminável de características e que da forma como se conjugam podem facilitar ou dificultar o processo de entrevista. Mas além de algumas das características que possam dificultar a comunicação. E a comunicação principalmente num momento de maior tensão, como por exemplo a entrevista, poderão estar também presentes outras características que são facilitadoras e uma mais valia para a vaga de emprego.


Mas também poderão haver outras situações que não tendo a ver com o emprego possa ser necessário realizar uma entrevista, como por exemplo, numa situação em que a pessoa é testemunha de algo e foi arrolada como testemunha num processo que está a decorrer em tribunal. Quem já esteve presente numa situação dessas poderá atestar o quanto stressante essa situação poderá ser.


Seja numa situação de entrevista de emprego, testemunha no tribunal ou ir a uma consulta, há algo que acontece e é tranversal, seja a pessoa autista ou não autista. É a necessidade de ter de se recordar de situações passadas específicas. Por exemplo, numa situação de entrevista de emprego poderão perguntar sobre as situações de emprego anterior da pessoa e quais as suas experiências. E numa situação de testemunha de tribunal pedirem para se lembrar da situação especifica ocorrida no momento do acidente. E numa consulta quando é perguntando de como foram as suas relações sociais no período da adolescência. Uns e outros saberão o quanto é difícil para si em recordar coisas especificas ocorridas no passado. Seja por causa de características especificas suas mas também devido às próprias situações e ao momento especifico em que lhe estão a pedir para as recordar. Relembrar experiências passadas específicas é fundamental para a maioria das interações sociais formais.

Tais entrevistas podem ser difíceis para adultos autistas sob um questionamento aberto padrão. Por exemplo, se já fizeram alguma vez uma pergunta aberta e com um caracter mais vago a uma pessoa autista adulta, certamente já terão tido a oportunidade de ficar baralhados comm a resposta. Não que a pessoa autista adulta não saiba responder. Mas principalmente porque a forma como a pergunta foi feita não se adequa à sua forma de processar a informação. Mas muitas vezes as pessoas que realizam a entrevista não têm este conhecimento e não se adequar da melhor forma à situação, exigindo à outra pessoa esse trabalho. E normalmente a situação decorre de forma negativa e com um impacto negativo principalmente para a pessoa autista adulta. Contudo, se aplicarmos algum método para facilitar a recuperação de informação iremos verificar que a informação começa a ser possível de ser recuperada e em condições adequadas.


Com o estímulo visual-verbal, as memórias dos adultos autistas e geralmente são mais específicas e detalhadas. Sendo que as pistas semântica também foi são eficazes para questões em situação de entrevista de emprego.


As memórias autobiográficas compreendem tanto eventos experimentados ("memórias episódicas pessoais", por exemplo, meu primeiro dia na escola) e factos relacionados ao self ('memórias semânticas pessoais', por exemplo, eu costumava morar em Lisboa). As pessoas autistas costumam ter dificuldades em recordar memórias episódicas pessoais específicas. Essas dificuldades são caracterizadas por recordações gerais, com adultos autistas a recuperar menos ou menos memórias específicas e levando significativamente mais tempo para fazê-lo.


Um factor comum nesses contextos de entrevista é o uso de perguntas em aberto (por exemplo, diga-me o que aconteceu na situação do acidente"," conte-me sobre o seu acidente ". Ou então, "Conte-me sobre uma situação específica, há mais de uma semana, em que você teve que tomar uma decisão difícil.". Muito frequentemente numa situação destas o que uma pessoa autista adulta vai responder quando fala sobre este momento é "Não consegui organizar os meus pensamentos corretamente . . . Eu pensei que aquela era uma pergunta em aberto é isso é algo que não me ajuda.". Mas se o entrevistador sente que a pessoa entrevistada está a ter alguma dificuldade pode pensar em usar outra estratégia, principalmente para não estar a penalizar a pessoa e poder ficar a conhecê-la melhor. Como por exemplo, poderá perguntar-lhe, "Você é bom a organizar as coisas?, ou "Conte-me sobre uma situação específica, mais do que uma semana atrás, quando você organizou algo.". Ainda assim, a pessoa autista adulta que está a ser entrevistada pode ter a seguinte sensação - ". . . sempre achei isto meio estranho, porque não é uma conversa. Então é um pouco estranho e robótico. . . Eles apenas fazem uma pergunta, e você responde e então eles fazem uma outra pergunta e você responda" ou ". . . foi um pouco. . . mais fácil porque aquela forma como que me preparou e me fez lembrar como eu me sintia sobre certas coisas." Mas ainda assim, a situação pode não ser suficientemente informadora do que queremos obter e além disso poderá facilitar ainda mais o processo à pessoa. Nomeadamente, perguntando-lhe, "Conte-me sobre uma situação específica, há uma semana atrás, quando lhe colocaram o prazo limite para a entrega do trabalho. Conte-me quando aconteceu, as pessoas que estavam lá, as coisas que oconteceram, ...!". Ou seja, poderemos usar um método destes para ajudar a outra pessoa a estruturar a resposta.


E algumas pessoas, nomeadamente pessoas que já fizeram ou fazem entrevistas poderão pensar - mas isso é algo muito simples, ou algo que eu já uso há bastante tempo. Então pergunto-me porque é que continua a haver várias situações em que as entrevistas a pessoas autistas adultas parecem cheias de momentos idiossincráticos?

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