Ela disse-me que era para a vida toda

Todos nós gostamos de uma história de amor. Apesar dos filmes não serem exemplos muito bons para tentar entender como manter um relacionamento de longo prazo. Ainda que digam que ver séries partilhadas (e.g., Netflix, HBO, etc.) entre o casal, seja uma boa forma de aproximação. No entanto, muitas vezes estes filmes representam relacionamentos perfeitos ou que terminam fatalmente. Eu gosto muito de Almodovar, mas convenhamos que viver assim a maior parte da nossa vida seria esgotante. A maioria das pessoas com relacionamentos de longo prazo escolhe morar junto e, se você fizer isso, será um trabalho árduo no início, mas também requer um esforço de longo prazo de ambos os lados para fazer com que o relacionamento funcione. Vejam o caso do Cláudio (nome fictício) e da Lurdes (nome fictício), ambos autistas e que se conheceram numa convenção de azulejos, um dos seus grandes interesses. Os nomes são fictícios mas o amor deles não.

Mas a história do Cláudio e da Lurdes não começa aqui de mãos dadas como nesta fotografia. Até porque o Cláudio tem uma hipersensibilidade táctil e demorou algum tempo até conseguir dar a mão a alguém. E ainda hoje só a dá à sua companheira e ao filho Rodrigo (nome fictício) quando este precisa, por exemplo, para se levantar do chão. O Cláudio foi diagnosticado aos oito anos. Na altura o nome era outro, hoje chama-se Perturbação do Espectro do Autismo, nível 1. O Cláudio já tem idade suficiente para que o nome do seu diagnóstico tenha passado por várias alterações, assim como ele próprio. Nem sempre foi assim, mas o Cláudio também tem aprendido que ninguém é de uma determinada maneira a vida inteira. Mas durante algum tempo da sua vida pensou que sim, e isso dificultou-lhe um pouco o seu caminho durante determino período.


A Lurdes por sua vez gosta de andar de mãos dadas e abraços também. Os beijos diz que aprendeu com o seu primeiro namorado, que não foi o Cláudio. A Lurdes diz que ele teve paciência suficiente para ela. E acrescenta que também ele deveria ser do Espectro do Autismo, pensando melhor em algumas das coisas que ele fazia, dizia e sentia. Mas nunca mais o viu ou sequer contactou. A Lurdes tem outra forma de ser, a sua própria. Aquilo que tem a dizer não pensa duas vezes, ou sequer pestaneja. E refere quase sempre que se pensou sobre aquilo daquela forma então é porque é para ser dito daquela forma, até porque o pensamento não é uma coisa banal. No entanto, e apesar de todas as dificuldades que a Lurdes foi sentido ao longo da vida, isso parece não lhe ter chegado para ter o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo que obteve aos 37 anos. Precisamente, um ano antes de ter conhecido o Cláudio numa convenção de azulejos. A Lurdes foi diagnosticada com Perturbação Bipolar e Depressão. Mas ambas as condições não pareciam nunca ser suficientes para a ajudar a compreender a sua pessoa ou o mundo à sua volta.


Cláudio era Engenheiro Civil. Digo era porque neste momento se encontra reformado. Na altura em questão tinha adquirido um painel de azulejos novo para a sua colecção. Tinha a sua casa forrada de azulejos. A brincar costumava dizer que havia pessoas que gostavam de fazer tatuagens e que ele gostava de ver os azulejos a forrar as paredes. Na verdade, o Cláudio aprendeu a dizer aquilo daquela forma e percebeu que as pessoas até gostavam e algumas se riam. Então continuou a dizê-lo ao longo dos anos. E quem o conhece sabe bem que ele costuma repetir aquilo com alguma frequência. Não é a única coisa que ele repete. Há algumas outras coisas que ele ainda vai necessitando de repetir. Isso mesmo, necessitando de repetir. E também como ele diz, se as pessoas que não têm autismo como eu precisam de repetir outras coisas na sua vida, tal como lavar os dentes todos os dias ou ir a determinados lugares, porque é que eu não haveria de fazer o mesmo, ainda que com coisas diferentes?!


Lurdes é Designer de Interiores, e ainda o exerce. Sempre trabalhou a partir de casa como freelancer. Sempre sentiu que era a forma que mais se adequava à sua pessoas. Fazia senti-la bem e por isso não havia nada como continuar a fazê-lo. Ser pragmática com a vida é uma das suas práticas comuns e recorrentes. Na altura em que foi à convenção tinha recebido uma encomenda de trabalho recente de uma cliente exigente e que a Lurdes não queria desapontar. Como a Lurdes referiu, ela não haveria nunca de a desapontar, até porque nunca desapontou nunca ninguém, e muito menos a nível profissional. Já o resto são outras conversas, mas isso a Lurdes também não parece muito interessada em desenvolver.


E assim foi, o Cláudio e a Lurdes conheceram-se na convenção de azulejos. Foi numa palestra que estava a ser dada por um dos profissionais mais conceituados na área sobre uma nova técnica de restauro. Na verdade, naquela palestra não era apenas o convidado que falara. O Cláudio e a Lurdes acabaram por participar em igual modo e quantidade. Ainda que o tenham feito do seu lugar da plateia, não obstante terem sido convidados para ocupar o lugar do palco com o convidado. A ansiedade do Cláudio nunca lhe haveria de permitir e a rigidez da Lurdes por sua vez também não a deixara. Mas isso não proibiu que ambos participassem, interrogassem o convidado, e nem sempre de acordo com as normas vigentes. Mas o convidado também parece não se ter importado, disso o Cláudio. Ao que a Lurdes se riu, dizendo que isso foi porque não viste a cara dele, rematou. O Cláudio, frequentemente não consegue bem perceber o que a outra pessoa poderá estar a sentir. E a partir daquele dia começaram a falar os dois, mas só depois de um mês e meio depois, quando receberam um mail do evento com os mails a descoberto de todos os participantes e ambos voltaram a escrever de volta a dar conta da situação e que a mesma não deveria ter ocorrido. Primeiro corresponderam-se online, por e-mails e depois por mensagens. O Cláudio funciona melhor com os primeiros e a Lurdes com os segundos. Mas lá foram descobrindo formas de se irem mantendo em contacto, até porque tinham algumas outras coisas em comum. E o Cláudio já tinha alguns emails pré feitos para enviar para perguntar algumas coisas que ele foi descobrindo que parecem ser importantes de perguntar. Era o seu guião e ele lá ia funcionando. Era mais fácil assim, online, à distância.


Muitos adultos autistas com quem trabalho acham assustadora a ideia de namorar. São muitas as preocupações que lhes vêm à mente, tais como: Como faço para iniciar uma conversa com alguém em quem estou romanticamente interessado? Como posso saber se eles gostam de mim? Eu odeio conversa fiada e rodeios. Por que eles não podem ser directos comigo? Quero que me digam imediatamente se gostam de mim. Dessa forma, eu não perco o meu tempo na relação se as coisas não forem para ir a lado algum! Na verdade, muitos de nós considera assustador a ideia de namorar. Ainda que esta ideia seja equilibrada com o desejo de descobrir o outro e de sentir aquilo que serão algumas das suas expectativas. Mas não deixa de ser assustador. E muitas vezes, ainda que com formulações relativamente diferentes, muitos de nós colocam ou pelo menos desabafam estas mesmas questões. Quem nunca disse entre dentes, "Por que ela não pode ser directa comigo?" ou "Como é que agora vou fazer para meter conversa com ele e ainda por cima nesta festa cheia de pessoas do trabalho!"?


Muitos adultos autistas lutam para discernir se seu interesse romântico está a ser honesto. Quando o seu parceiro não é aberto e vulnerável desde o início, eles presumem que isso significa que estão a ser desonestos. E porquê? Porque foi assim que algumas das pessoas autistas descobriram na prática que as coisas podem ser. E como foi assim que lhes aconteceu algumas vezes, constituíram como que uma regra e passou a ser universal. Ou então porque pensaram sobre o assunto e tudo aquilo lhes fez sentido daquela maneira. Por exemplo, quer o Claudio e a Lurdes sempre foram pessoas de pensarem bastante sobre tudo na vida. De explorarem hipóteses e procurarem testa-las mentalmente. Essa também é uma das características iguais entre si. Como diz o Cláudio, parece que fomos feitos um para o outro. A frase não é sua, mas viu-a num filme romântico e pareceu-lhe adequada. A Lurdes gosta, mas já houve outras mulheres a quem o Cláudio disse o mesmo e que nunca mais lhe voltaram a responder nas mensagens enviadas. Facto que sempre frustou o Cláudio. Por que é que elas nunca responderam? Porquê?, desabafou. Não faz sentido. Se não gostavam do que eu dizia bastava dizerem-me!!


Construir um relacionamento duradouro e de qualidade requer vulnerabilidade de ambos os parceiros. Mas ser vulnerável é difícil para quase todos! Especialmente adultos neurotípicos. Muitas pessoas não querem revelar coisas do seu passado, pensamentos privados, coisas da sua intimidade e sentimentos porque receiam a rejeição. É difícil ser-se aberto e honesto num relacionamento. Todos nós temos medo de não ser bons o suficiente ou de não estar à altura. E esse tipo de medo torna especialmente difícil ser-se vulnerável e aberto. Muitos adultos precisam então de construir uma base de confiança no seu relacionamento antes de se sentirem confortáveis ​​em serem vulneráveis ​​com seu novo parceiro. Mas, é importante não permitir que esses medos o impeçam de encontrar o amor, ou mais precisamente aquilo que eles considerarem ser amor e os fizer sentir bem individualmente e na relação com o outro. Muitas das pessoas autistas com quem trabalho partilhou como se sentiram feridas por rejeições sociais. O que é compreensível, seja para eles autistas mas para qualquer um de nós não autistas, até porque as relações de intimidade fazem parte da vida. E algumas vezes, esses momentos podem chegar a ser muito difíceis, principalmente quando há trocas de agressões verbais e/ou físicas.

As pessoas autistas sentem com relativa frequência a sensação de rejeição social. E entendem a dor e o medo que isso lhes causa. Portanto, é importante para um adulto neurodiverso compreender que o seu parceiro também pode temer a rejeição no início de um relacionamento romântico. Como tal é importante ser paciente e permitir que a vulnerabilidade e a confiança cresçam. Eles não podem esperar uma abertura completa desde o primeiro dia de um relacionamento.


Há imensa diversidade nos relacionamentos românticos, tal como o há de heterogeneidade na Perturbação do Espectro do Autismo. E quando cruzamos os dois verificamos que a resposta pode ser ainda mais diversa. Mas existe, ou seja, há relacionamentos românticos e são em certa medida satisfatórios, tal como nos relacionamentos românticos de pessoas não autistas. E têm altos e baixos e vulnerabilidade que se prendem com as características de cada um dos membros do casal e do cruzamento destas características numa relação. A Lurdes quando lhe perguntaram uma vez como era as relações sexuais no Espectro do Autismo, respondeu prontamente. Perguntou se as pessoas estavam interessadas em saber como é que as pessoas adultas fazem sexo, ou se queriam aprender mais alguma coisas para experimentar na sua própria relação de casal. A Lurdes sempre foi muito frontal em tudo.


Mas também refere que já encontrou de tudo em relações anteriores. Por exemplo, já teve situações em que a pessoa que parecia estar interessada em si tinha comportamentos de stalking (perseguição) e que foi um período difícil da sua vida. Apesar de ter compreendido que a outra pessoa, também autista, não tinha percebido que a Lurdes não estava interessada em continuar aqueles encontros. E por vezes sente-se que não há espaço para se explicar e/ou falar com a pessoa, ela parece simplesmente não estar interessada em falar sobre aquela questão. Outras questões que acabam por ser mais sensíveis pode prender-se com a relação sexual propriamente dita. A Lurdes e o Claudio dizem em uníssono que o segredo está em dialogar com a outra pessoa e poder expressar o seu desejo sem receio do que o outro vai dizer. Claro que é preciso que a relação esteja um pouco mais consolidada, mas ainda assim, é possivel e desejo que o casal vá falando sobre as suas necessidades. E caso esteja a ser mais difícil, poderem procurar um terapeuta que os ajude nisso.


As relações interpessoais são um aspecto importante da qualidade de vida e isso não é

diferente para as pessoas autistas. Uma interação social importante para o bem estar geral inclui o namoro e relacionamentos românticos com outras pessoas. Ainda que durante o processo de cortejar e namorar, principalmente no inicio, possa causar um aumento dos níveis de activação e ansiedade e com pensamentos recorrentes de não perceber se estão a agradar à outra pessoa ou não. Mas não é a única razão que acaba por afastar as pessoas autistas das relações, nomeadamente amorosas. Uma outra razão normalmente apontada é de que as relações românticas são muito exaustivas. O estar sempre presente com a outra pessoa, numa constante solicitação de atenção, nem que seja uma atenção percebida pelo próprio, torna-se um consumo de energia muito grande. E no caso das mulheres autistas, estas parecem ser aquelas que mais parecem ressentir-se da ausência e/ou presença de alguns comportamentos no seu companheiro autista. Nomeadamente, a maior distância, intrusividade, idiossincrasia de alguns comportamentos, poderem ser rudes e de não serem românticos. Não se trata de uma questão de esterótipo. É sabido que as mulheres no espectro do autismo são mais competentes do ponto de vista social e têm um leque mais variado de conhecimento sobre os relacionamento românticos. E isto em nada quer dizer que os homens não são românticos e que os homens autistas muito menos.


Não há uma única forma de namorar e ter um relacionamento romântico duradouro ou não, seja dentro ou fora do autismo. Há características presentes em qualquer um de nós que pode causar um maior atrito inicial e que a procura de um guião social para iniciar a interacção pode ser facilitado. Até porque ultrapassado esse primeiro obstáculo, a relação com o outro pode ajudar a desvanecer algumas das dúvidas e receios existentes.

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