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E viveram felizes para sempre

Finalmente entrei de férias. Fui procurar no cinema filmes interessantes para ver - nada! Já não devo ir há tempo suficiente ao cinema para me lembrar que nesta altura há apenas filmes de animação, terror de qualidade duvidosa e comédias que se deveriam chamar todas - "E viveram felizes para sempre!". Já não tenho paciência para filmes de terror. Prometi ao meu filho ir ver com ele o Rei Leão. Sobrou-me a comédia. E não é que até foi interessante!

Espero não ter fornecido informações erradas. Fui ao cinema mas não me lembro de boa parte do filme. Mas recebi uma notificação no e-mail e fiquei curioso o suficiente para a seguir. Ou então o filme deveria estar numa altura ainda menos interessante. A noticia vem na versão online do jornal The Guardian - ‘It has been totally positive’: the couples brought together by an autism diagnosis.


Rapidamente recordei o número de vezes que pais de jovens adultos autistas me perguntaram - Alguma vez o meu filho irá casar? A minha filha conseguirá encontrar alguém? Estas e outras preocupações ocupam os pais a partir de determinada altura do desenvolvimento dos seus filhos. Principalmente quando passam a tomar uma maior consciência do seu diagnóstico e das próprias escolhas que eles querem fazer. Seja o número restrito de amizades, passando pelas saídas sociais e os convites, os pais percebem que alguma coisa irá ser diferente do normativo. E até perceberem o quê e como será a sua ansiedade mantêm-se elevada.


O artigo no The Guardian fala de um episódio que acontece cada vez com mais frequência. Um casal com os seus dois filhos a tentar jantar num restaurante. Digo tentar porque um dos filhos para além de ser relativamente novo apresenta um conjunto de características que torna a tarefa de regulação do comportamento ainda mais díficil. O casal junto há 12 anos aparentava um nível de desgaste bastante grande e uma acumulação de situações frustrantes já em cima de anos e anos de incompreensão acerca de tantas outras situações. Os pais não faziam ideia até à altura do que poderia ser até o seu filho ter sido diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA). No decorrer deste processo o pai descobre que para além do filho ele também tem uma PEA.


Digo que esta situação é cada vez mais recorrente porque o próprio envolvimento dos pais no processo de avaliação dos filhos e a importância que eles dão ao conhecer mais profundamente a situação, seja a dos filhos mas também a sua. Leva a que cada vez mais pais se comecem a questionar ou então sejam questionados pelos técnicos acerca de algumas das suas características.


Num casal descobrir que o outro é Autista pode tornar-se caótico e até mesmo levar à ruptura. Mas há outras tantas situações em que isso não ocorre. A história do casal no The Guardian espelha precisamente essa situação. A esposa ao fim de 12 anos de casamento finalmente passou a compreender melhor todo um conjunto de situações vividas ao longo dos anos. As variações de humor do seu marido eram recorrentes e cada vez mais intensas. E ao fim de muito pouco tempo desapareciam como se nada tivesse ocorrido. O aumentar desproporcional de qualquer situação simples, passando pela rigidez comportamental e a inflexibilidade de pensamento, muitas vezes rotulada de teimosia, ou "sais mesmo ao teu paizinho". Estas e outras situações deixaram o casal em muitos momentos dificeis e até mesmo à beira da ruptura. Mas contra todas as evidências isso não aconteceu. E depois de se saber que o filho e pai partilham o mesmo diagnóstico - Perturbação do Espectro do Autismo, esse espanto ainda é maior. Como é que um casal em que um deles é autista consegue sobreviver a 12 anos de casamento e querer continuar mesmo após o conhecimento do diagnóstico?!


As pessoas são todas elas diferentes. O que faz com que o mesmo ocorra nas relações. Levando a que o conjugar de determinadas variáveis sejam mais protectivas para o individuo e para o casal. No autismo ocorre o mesmo. Há uma variedade suficiente na expressão comportamental da PEA. Um autista não é igual a outro. E isso também faz com que as relações em que um ou os dois membros do casal sejam autistas também o seja. E sim, os autistas também desejam ter relações e relações duradouras, e filhos e isso tudo. Há inclusive alguns autores como o Tony Attwood que ao longo destes anos vem chamando a atenção para um conjunto de características que os autistas apresentam e que podem tornar-se uma vantagem nas relações. Quando se pergunta a um autista adulto para ele pensar no que o casamento simboliza para si, é comum ouvir a palavra lealdade. O que no fundo representa uma características importante do amor na relação. Pode ser mais dificil no entanto quando o parceiro procura paixão ao invés de amor, entre outras questões. Contudo, a lealdade e honestidade parecem ser duas características frequentemente presentes nos autistas e isso é importante nas relações.


Tal como em outro qualquer casal, em determinada altura, mais no inicio da relação ou no decorrer da mesma é passível de um ou ambos os membros necessitarem de uma descodificação de determinadas situações. Um dos membros pode verdadeiramente gostar da outra pessoa mas ter algumas dificuldades em o demonstrar ou até mesmo na frequência com o que o faz. A vida não vai sendo igual ao longo do desenvolvimento e há vários acontecimentos de vida, filhos, mudança de emprego, morte de um familiar, desemprego, etc., que transforma um e outro no casal de maneira diferente. E isso normalmente leva a maiores dificuldades comunicacionais e de relação. Quando já existem um conjunto de características que à partida tornam a relação mais frágil podemos verificar maiores dificuldades. Mas estas podem e acontecem em qualquer casal, autista ou não.

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