Descubra os erros

Antes de ler o post proponho-lhe a seguinte tarefa: olhe para a imagem e procure assinalar o que é que está em falta. Será a fórmula usada para calcular o r? O professor não está a usar máscara ou está de costas voltadas para a turma? Faltam os alunos? Não consegue pensar em mais nada! E se eu lhe disser que nada do que foi referido anteriormente está em falta? Confuso? Acredito! É o mesmo que se pensa que vai acontecer neste próximo ano lectivo com os alunos autistas no Ensino Superior. O Ministério do Ensino Superior já anunciou a intenção das aulas serem presenciais, inclusive ao sábado e com a utilização obrigatória de máscara. Sendo que o recurso a soluções digitais à distância não está descartado no caso de não ser possível acomodar todos os aluno na mesma sala. E assim sendo, será possível recorrer à rotatividade dos alunos como forma de garantir as aulas presenciais para todos. E apesar de faltar cerca de um mês e meio para o inicio do ano lectivo, é muito possível que algumas destas recomendações possam ter de ser alteradas e as aulas passarem a funcionar à distância. É compreensível que no decorrer de uma crise pandémica seja necessário fazer adaptações em nome da saúde pública. Contudo, se o Ensino Superior já em si é complexo para os estudantes autistas, em grande parte devido às adaptações que não estão suficientemente implementadas. Imaginem assim!!

Hoje iniciou o processo de candidatura para a 1ª fase de acesso ao Ensino Superior. Apesar de algumas dúvidas finais sobre os cursos e as Instituições a escolher, há um conjunto de outras questões que tem preocupado os estudantes autistas e os seus pais. Sejam aqueles que já estão no Ensino Superior, mas também aqueles que vão começar este ano, as preocupações que têm não são novas. Durante os doze anos de ensino obrigatório elas foram existindo de uma forma ou de outra, como mais ou menos intensidade. E agora voltam-se a colocar, ainda que aquilo que está na sua génese possa ser um pouco diferente.


Apesar deste post estar enquadrado na situação actual de uma crise pandémica, é importante referir que muito daquilo que vai ser referido já acontece antes mesmo de todo esta situação de pandemia. Estou a referir-me ao enquadramento do Ensino Superior (ES) no que diz respeito aos alunos com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA).


Uma questão fundamental no processo de ensino-aprendizagem tem a ver com a relação professor-aluno. E no caso especifico é preciso dizer que uma boa parte dos docentes no ES não está preparado para dar aulas a alunos com PEA. Ainda que muitos deles o tentem e se preocupem com a situação dos alunos. Mas na verdade, parece que essa motivação só não chega. E como tal é preciso que os docentes possam estar melhor preparados para os alunos com determinadas condições, seja PEA ou outra perturbação psiquiátrica. Até porque a prevalência destas na comunidade académica é grande, pensando nas situações de Depressão e Ansiedade. E ainda que alguns docentes possam fazer a diferença, o certo é que o aluno vai necessitar de realizar a avaliação nas outras unidades curriculares. E se esses outros docentes ou até mesmo o próprio departamento do curso do aluno, já para não falar da própria Universidade, se não estiverem sensibilizados e adaptados para todos os alunos, certamente estarão a colocar obstáculos num percurso que já em si é mais difícil. Mas estarão certamente a desrespeitar os direitos de alguns dos alunos que se querem iguais aos demais.


E quem garante a qualidade do ensino no ES no que diz respeito às competências do docente? E que competências são essas que são tidas em conta? Durante oito anos fui também docente universitário e ao longo desse período fui-me deparando com essas necessidades e inquietações, tal como tantos outros colegas. Uma grande parte destes docentes iniciaram a sua carreira no Ensino Superior enquanto docentes após terem terminado o seu doutoramento. A sua competência técnica naquilo que são os conteúdos a leccionar não está em causa. Mas não é apenas isso que importa ou deveria importar. Até porque o processo de ensino-aprendizagem é uma relação, e é preciso ajudar a que estes docentes possam estar preparados para lidar com estes alunos e com esta neurodiversidade. E se alguns docentes, nomeadamente em Psicologia, eles próprios têm alguma formação no seu curso que os capacita nesta tarefa. O certo é que a maioria dos docentes dos restantes cursos não o tem. E tendo em conta que se sabe que cada vez mais há um número crescente de alunos com PEA a concorrer ao ES, além de todos os outros com outras condições psiquiátricas. Talvez fosse importante pensar na melhoria das competências do docentes no Ensino Superior para estar mais capazes de estar na relação com os alunos.


Uma outra questão e que afecta a todos e principalmente os alunos com PEA é esta imprevisibilidade. Se a formação por semestres já é suficientemente desafiante para um aluno autista. Ou seja, quando se estão a adaptar aos conteúdos programáticos, docente e colegas, está na altura de mudar de semestre. O facto de estar constantemente a ouvir que os conteúdos programáticos precisam de ser alterados e adaptados leva a um aumento de ansiedade que faz com que os mesmos não estejam nas melhores condições para realizar as suas aprendizagens. E que faz com que um número significativo dos alunos acabe por desistir, por sentir uma baixa auto-eficácia para lidar com todas estas alterações. E como tal será necessário perceber como é que no próximo ano lectivo se poderá trabalhar melhor com os alunos com estas características! Mas para isso voltamos a uma questão anterior mas que é fulcral - precisamos de saber quantos alunos com estas condições é que estão no ES. Ou então, e esta será a resposta mais adequada, é as universidades, todas elas poderem adoptar um paradigma respeitante da neurodiversidade. E assim, todos os alunos, independentemente de estarem identificados ou não estariam mais capazes de concretizar a sua formação.


Mas as coisas ainda não são assim. E embora a aprendizagem dos alunos autistas seja profundamente afectada pelas suas diferenças no processamento sensorial, na função executiva e na comunicação, raramente sentem que se ajustam à percepção dos pares sobre como o autismo "se parece". Muitas vezes são rotulados unilateralmente de "alto funcionamento", se é que são autistas. E assim sendo sentem-se forçados a assistir impotentes enquanto as suas necessidades e lutas - insignificantes para os outros, mas enormes para os próprios - são varridas para debaixo do tapete.


É preciso também dizer que o facto das aulas poderem ser realizadas online isso não representa apenas uma coisa negativa. Até porque o facto do aluno autista estar em casa leva a que esteja num ambiente conhecido e mais protegido relativamente às suas hipersensibilidades e outras questões que sente dificuldade no seu quotidiano. Mas é preciso partilhar todo um conjunto de informações que dizem respeito à realidade vivida por estes alunos autistas para que as Universidades se possam adaptar, mudar e crescer na aceitação da neurodiversidade.


1. Os docentes e outros técnicos da Universidade foram treinados em pedagogia on-line para autistas e pessoas com outras deficiências? É porque muitas vezes é preciso que o aluno tente fornecer informação aos seus professores sobre a melhor forma de lidar consigo. Facto que nem sempre é fácil, seja pela parte do aluno, mas também do professor. E o que dizer da parte dos outros técnicos. É porque estes alunos também estão a pagar as suas propinas, para além dos impostos que foram pagos até então.


2. E no caso dos alunos deslocados e que estão em residências e que precisam de fazer mudanças? Esta é uma outra questão fundamental e que se pensa não estar ligada à universidade, mas que é fundamental que seja tida em conta. E não é apenas na residência, mas sim em todo o campus académico. A arquitectura inclusiva precisa de olhar de forma mais alargada e diversa para as pessoas com diferentes tipos de deficiência e poder enquadra-los no seu espaço arquitectónico.


3. As vídeo-aulas terão acompanhamentos de texto, como slides ou legendas detalhadas, que permitem o acompanhamento de autistas com perturbação do processamento auditivo? Ou os professores pensarão que estão a "tornar as coisas demasiado fáceis" ou "colocar em risco o seu material protegido por direitos autorais"?


4. Os professores interpretarão mal a sua "face de aluno" como uma "face aborrecida" durante as conversas por vídeo? Eles decidirão silenciosamente as regras sociais para o contacto visual no chat por vídeo que não seja do conhecimento destes alunos e que estes não consigam seguir confortavelmente? Os professores vão apontar as suas diferenças e exigir uma contribuição que eles não estão prontos para dar, forçando-os a usar a sua energia para "parecer que estão a aprender" em vez de estarem realmente a aprender?


5. A política de participação em discussões escritas medirá a sua função executiva (e.g.,: 3 postagens por semana, cada uma com pelo menos 2 dias de diferença) ou o seu compromisso com a aprendizagem (e.g.,: a profundidade e a amplitude das suas respostas)? Os professores presumirão que eles podem permanecer tão organizado, na ausência de um cronograma imposto externamente quanto possível nas aulas tradicionais?

Eles vão confundir as suas lutas para permanecer organizado por preguiça?


6. As expectativas de tom, duração, profundidade, tópico etc. nas discussões serão detalhadas explicitamente? Ou serão implícitos ou presumidos - e, portanto, inacessíveis para alunos autistas?


7. Se for pedido ao professor para reformular ou esclarecer as suas expectativas, receberão uma resposta ou será acusado de não ler os arquivos da turma? Serão instruídos a rever os mesmos arquivos que claramente dão uma enorme luta para entender?


8. Se for preciso solicitar uma extensão do trabalho, o professor julgará a validade dessa solicitação pela sua capacidade de escrever um email "socialmente aceitável"? As noções preconcebidas do professor sobre o que "um aluno em dificuldades" parece "afectarão se o aluno vai receber apoio?


9. O professor entenderá que o aumento da pressão para “desempenhar” em chats de vídeo fará com que o aluno autista demore mais para pensar antes de falar, baralhe o discurso e se canse mais rápido? Eles serão pacientes com o aluno ou irão ser ainda mais oprimidos? Serão permitidas alternativas significativas às contribuições orais para os autistas que lutam com a linguagem ou com as situações presenciais?


10. Os professores pedirão contribuições dos alunos durante as conversas em vídeo de uma maneira que lhes permita contribuir, ou seus métodos escolhidos de contribuição dos alunos dependerão da facilidade social, assertividade e "altura certa"? Os alunos terão uma avaliação negativa por não contribuir na participação nas aulas?


É verdade que já existem várias universidades a implementar e a procurar como implementar este novo paradigma. No entanto, aquilo que ainda é muito sentido pelos alunos autistas é, principalmente o facto desta mudança estar a ocorrer apenas com alguns docentes. Facto que os faz sentir duplamente frustrados, não apenas porque depois descobrem que lá mais à frente não estão a ser compreendidos por outros professores. Mas também pelo absurdo de que se é possivel ser adoptado por uns por que não por todos os outros. Afinal não somos todos parte integrante Academia?

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