Demasiado soft

Ainda me lembro de ter recebido um destes cubos de Rubik dos meus pais em criança. E ao fim de algumas tentativas frustadas de tentar completa-lo pensei numa solução. A frustração sentida em não conseguir termina-lo e a pressão colocada por mim em mostrar um feito daqueles aos meus pais levou-me a retirar os autocolantes e voltar a cola-los, desta vez já todos alinhados por cor. Isso é batota, dirão vocês! Sim, é batota, mas encontrei uma solução. Ainda que tenha durado pouco, porque as minhas competências para colar também ainda não estavam bem adquiridas. Dêem um desconto, era apenas uma criança. E lembrei-me desta história porquê? Por causa da insistência que a Sociedade faz, através do sistema educativo e com a colaboração dos pais em impingir um conjunto de competências durante anos que podem não fazer sentido para resolver os obstáculos reais da vida.

"- Os jovens de hoje não parecem nada preparados, comparado com os da minha altura!". Estou certo que já ouviram esta frase. E fiquem cientes que eu também a ouvi em 1990 quando tinha 15 anos. E se perguntar aos meus pais também eles devem ter ouvido algo semelhante. Por isso, que coisa é esta de que os jovens parecem nunca estar suficientemente preparados para resolver os obstáculos da vida adulta? Talvez muitos pensem que estar preparados é não ter dúvidas e ser 100% na resolução das dificuldades!


Muito tempo dos pais e educadores é passado a pensar em como a educação pode preparar melhor as crianças para o futuro. Não é por acaso que muitas crianças vão estando cada vez mais cheias e mais cedo de actividades extra-curriculares. Desde as línguas estrangeiras, passando pela música, até às actividades de laboratório de ciências, entre outras. Estou certo que todas elas são importantes, porque o são. E a intenção não é causar nenhum sentimento de culpabilidade nos pais ou no sistema educativo. Até porque sou pai e faço parte da comunidade educativa. Mas sinto que precisamos de reflectir todos acerca desta questão e mais ainda desta pressão desenfreada que colocamos na necessidade de realizar estas tarefas, levando a criar um terreno fértil para o desenvolvimento de traços de ansiedade e sinais de intolerância à frustração nas crianças, que depois se tornarão jovens e futuramente adultos.


Mas quais são as competências que as crianças precisam de aprimorar agora enquanto crianças, que podem definir o seu sucesso mais tarde na vida? Aquilo que vamos observando no dia a dia das crianças e jovens é uma dificuldade nas competências colaboravas de resolução de problemas. Competências essas que parecem ser essenciais para um ambiente de trabalho no século 21, mas também para outros contextos, tais como a família e a comunidade.


Esta resolução colaborativo de problemas (RCP) é uma competência essencial na força de trabalho e na comunidade, porque muitos dos problemas enfrentados no mundo moderno exigem que as equipas integrem as conquistas do grupo ao conhecimento idiossincrático dos membros da equipa. Pensemos naquilo que neste momento todos nós a nível mundial estamos a viver com o surgimento da Pandemia de COVID. São este e outros paires a apelar ao fecho das fronteiras, alguns deles com critérios aparentemente pouco claros. Ao incentivo do consumo de produtos locais, ainda que seja compreensível tal apelo. E enquanto isso, uns e outros, vamos assistindo a todo um conjunto de cidadãos, sejam eles imigrantes, desalojados, de camadas sócio-económicas desfavorecidas, minorias étnicas, refugiados, etc. Pessoas que com menos recursos acabam por estar ainda mais fragilizados. E não se trata apenas de olhar para eles para conter a situação pandémica, como muitos dizem. Trata-se de olhar para eles porque são seres humanos.


A questão é que poucas crianças possuem essas competências. Sejam as mais pequenas porque ainda estão numa etapa do desenvolvimento (por volta dos 6 anos de idade) em que ainda estão bastante auto-centradas e é compreensível que o estejam. No entanto, em adolescentes com 15 anos de idade, alguns estudos têm demonstrado que essa resolução colaborativa de problemas não estão adquiridas. Verifica-se muito isso na realização de trabalhos de grupo, em que os 4 membros do grupo não reunem num primeiro momento para traçar um plano e delegar funções. Seja por falta de competências de liderança, mas principalmente por falta de resolução colaborativa de problemas, as várias partes do trabalho são feitas por cada um sem depois haver um encontro para procurar ligar de forma adequada as mesmas. E isso parece não estar a ser fomentado. E digo fomentado e não ensinado propositadamente. Isto porque acredito que estas competências podem e devem ser ajudadas a construir por exemplo no brincar em conjunto.


À medida que nosso mundo se torna mais complexo e atrai mais pessoas com formação diversificada, enfrentando novos desafios e incorporando tecnologias mais sofisticadas, a necessidade de desenvolver competências para resolver esses mesmo problemas cada vez mais complexos só aumentará. É verdade que cada vez mais as crianças sabem programar e têm noções de robótica, línguas estrangeiras, etc. Mas parecem ser desenvolvidas e posteriormente colocadas em prática de uma forma individual. E com isto não quero estar a sublinhar esta ideia de estar a cultivar uma sociedade individualista, até porque acredito que o conceito não é assim tão verdade quando se apregoa, ainda que seja preciso pensa-lo.


As experiências dos alunos dentro e fora da sala de aula não os parecem estar a preparar para essas competências necessárias como adultos. E aqui é bom que se diga que o objectivo não é desferir um ataque à escola mas sim chamar a comunidade educativa à atenção, que na verdade somos todos nós, para a necessidade de reflectir isso. Deixar a ideia de que é preciso cumprir um currículo imperativativamente. E pensar que esse mesmo currículo é decidido pelo Ministério da Educação e depois passado hierarquicamente para os professores que o fazem cumprir. O Governo é constituído na Assembleia da Republica, mas não nos devemos esquecer que todos nós somos responsáveis na formação desse mesmo Governo e Assembleia da Republica através das eleições. E podemos e devemos continuar a participar após a realização do escrutínio dos votos.


A solução de problemas complexos refere-se a um conjunto de competências cognitivas e sociais, incluindo: entendimento partilhado ou objetivos partilhados, responsabilização por contribuições individuais, papéis diferenciados e interdependência entre os membros do grupo. A maioria das escolas parece concentrar-se em garantir que os alunos dominem uma tarefa específica ou conhecimento de um domínio específico; e eles raramente projectam os currículos especificamente para incentivar a comunicação e a colaboração necessárias para resolver problemas como um grupo.


Quando os alunos recebem treino relevante para a resolução colaborativa de problemas, geralmente é porque participam de atividades extracurriculares, como o desporto. Mesmo assim, os alunos não são avaliados quanto à capacidade de resolver problemas juntos. A resolução colaborativa de problemas deve fazer parte integrante do curriculo. O desafio, no entanto, é que não há um roteiro para o integrar no currículo escolar. Até porque muitas das vezes isto não é visto como uma mais valia. E na maior parte das vezes é sentido como mais um acrescento de trabalho e burocracia.


Precisamos todos na comunidade educativa de ser envolvidos. E se durante muito tempo nos fomos habituando e acomodando a esta ideia de que todos trabalhamos e temos a nossa vida ocupada. Deixem-me lembrar-vos das potencialidade das novas tecnologias. Seja os jogos em modo multiplayer, em que inclusive pais e professores podem estar envolvidos, assim como os alunos entre si. Mas também as próprias plataformas em que as ideias e os trabalhos podem ser partilhados e editados por todos em tempo real.

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