Corto o fio vermelho? Corto o verde?

Quem não se lembra dos filmes em que fica tudo em suspense até ao último segundo? A personagem a suar, com um alicate na mão e a pensar qual o fio cortar para desarmar a bomba! Estão a ver a situação? Na avaliação de uma Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) cada vez mais se coloca uma questão semelhante. Para além do despiste de Espectro do Autismo, é fundamental poder compreender que outras condições co-ocorrem, ou que outros traços comportamentais estão presentes neste perfil cada vez mais complexo e que precisa de ser abraçado.

"- Diga-me Doutor, afinal qual é o meu diagnóstico? Já me disseram que tinha Depressão, e ao fim de alguns anos disseram que afinal era uma Perturbação Bipolar. Mas depois a medicação parecia não estar a fazer efeito e fui a outro psiquiatra que me disse que não era nada disso e que o que eu tinha era uma Perturbação da Personalidade Borderline. Por esta altura eu tinha 24 anos e já estava cansada disto tudo. Mas ainda não havia de ser o fim. Porque a seguir disseram-me que o que eu tinha era uma Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção. E já me esquecia de referir que em pequena ainda disseram aos meus pais que eu tinha uma Anorexia. Já não sei mais o que fazer e estou capaz de desistir disto tudo. Só sei que continuo a sofrer e a não compreender o que se passa comigo! Preciso de ajuda!", diz a Cristina (nome fictício) de 43 anos.


Estes e outros testemunhos vão-se acumulando na prática clínica, e entre o atraso numa resposta adequada às pessoas que a procuram, também o sofrimento vai sendo cada vez maior e com um prejuízo incalculável na vida das pessoas.


Para além de poder haver uma compreensão diferente acerca do comportamento humano nos vários profissionais de saúde, sejam médicos ou psicólogos, de diferentes especialidades. No caso dos médicos, vai desde o Pediatra, NeuroPediatra até ao Clínico Geral. E no caso dos psicólogos clínicos falamos das diferentes escolas de pensamento, desde a Cognitivo-Comportamental até à Psicodinâmica. O certo é que é fundamental poder haver uma maior sensibilização e formação junto de todos estes profissionais para aquilo que é uma Perturbação do Espectro do Autismo ao longo do ciclo de vida. E quais as múltiplas co-ocorrências de outras perturbações psiquiátricas que surgem associadas a este mesmo diagnóstico.


Obter um diagnóstico é um primeiro passo vital para encontrar o suporte e poder alcançar as suas aspirações na vida. Mas as pessoas com condições do neurodesenvolvimento costumam para além de esperar algum tempo pelo diagnóstico, enfrentam igualmente inúmeros obstáculos para o obter. A maioria das pessoas com estas condições tem mais de uma condição - por exemplo, cerca de metade das pessoas com dispraxia também têm características de PHDA, enquanto 12% das pessoas com epilepsia são autistas, têm dificuldades de aprendizagem ou ambas. No entanto, a maioria das vias de diagnóstico no Sistema Nacional de Saúde está muito concentrado em apenas uma condição. Ainda que a Consulta do Desenvolvimento nos Hospitais de referência apresentem uma equipa multidisciplinar que procura dar uma resposta o mais abrangente possível. O certo é que se continuam a verificar inúmeras situações destas.


E mais do que ficarmos feridos no orgulho porque nos estão a apontar a necessidade de ter uma visão mais abrangente, qualitativa e compreensiva destas condições. É fundamental podermos todos reflectir, individual e posteriormente em equipa para poder dar uma resposta a estas necessidades que se vão acumulando. Por exemplo, é comum ouvirmos alguém a dizer que se for à consulta do Dr. Nuno Lobo Antunes no PIN vai sair de lá com um diagnóstico do Espectro do Autismo ou de PHDA. E nos outros centros para o neurodesenvolvimento e serviços hospitalares também se passa o mesmo. Poderei falar do PIN, instituição onde trabalho, para dizer que uma afirmação dessas apenas poder ser gerada do total desconhecimento ou outro tipo de angustia. Não somente porque a equipa é suficientemente multidisciplinar mas também treinada e formada para pensar autonomamente com o foco colocado no bem estar da pessoa. No entanto, a questão continua a colocar-se. E já houve no passado outras tentativas para reunificar esforços entre os Centros para o Neurodesenvolvimento de referência a nível nacional para encontrar uma estratégia que concerte uma resposta única, ainda que respeitando a liberdade de pensamento de cada um, mas que vise o bem estar dos cidadãos e das famílias que procuram estas respostas.


Mas para além das questões relacionadas com as diferentes condições psiquiátricas associadas à perturbação do Espectro do Autismo, há que dizer que muitas delas continuam ainda estreitamente orientadas para as crianças e não para os adultos. E esta orientação não passa apenas por ter especialistas nas mais variadas áreas para dar uma resposta aos casos das pessoas adultas. Passa também por ter uma visão concertada com as respostas para as crianças e jovens e que em conjunto pensem uma transição para a vida adulta. Continuam a haver, a nível internacional e ainda mais a nível nacional, uma necessidade muito grande para procurar resolver esta questão dos serviços de transição na saúde mental das crianças e jovens para os adultos. Entre outros aspectos que trazem maior dificuldade na comunicação, parece estar o facto de quem trabalha com crianças e jovens padece de uma visão ao longo do ciclo de vida, nomeadamente nas necessidades existentes na vida adulta derivado da psicopatologia mais prevalecente neste período. E o mesmo se passa nos especialistas que acompanham os adultos, que lhe falta esta visão retrospectiva e do desenvolvimento. E isso obscurece a comunicação entre ambos e quem fica a perder mais uma vez é a pessoa que mais precisa desse entendimento - o jovem/jovem adulto com Perturbação do Espectro do Autismo.

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