Corpo para que te quero?

Ao longo do nosso desenvolvimento há momentos em que nos fazemos esta pergunta - Corpo para que te quero? Seja ao corpo como um todo ou apenas a um parte. Porque ainda gatinhamos e vamos começando por descobrir determinadas extremidades do nosso corpo. E quando os adultos dão conta temos um pé dentro da nossa boca. Depois passamos a caminhar mais ou menos autonomamente e vamos descobrindo o que está para lá do nosso corpo - o espaço e o espaço do Outro. E alguns anos depois voltamos a olhar para dentro de nós e a perguntar o que é e para que serve certas partes do nosso corpo. E do corpo do Outro também. Ou quando mais tarde damos aquilo que se chama um "pulo no crescimento" e parece que esbarramos em tudo. Ou então tudo parece esbarrar em nós, sendo que a esta fase se chama normalmente de adolescência. E chegamos à vida adulta e dentro do nosso corpo começa a crescer um outro. Nas pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo este seu corpo também fala e a dança pode ajuda-lo a comunicar, consigo e com o Outro. E hoje celebra-se o dia mundial da dança...dancemos no Mundo!

Seja na dança mas também em qualquer situação que envolva ter de explorar o espaço envolvente as pessoas precisam de se sentir confortáveis. Por exemplo, as crianças em pequenas quando gatinham e começam a ensaiar o levantar-se para começar a andar, fazem-no principalmente quando se começam a sentir mais seguras de si próprias, e como tal, do seu próprio corpo. E o mesmo vai acontecendo ao longo do desenvolvimento com as crianças mais pequenas que vão explorando o espaço envolvente. Quem é que nunca viu uma criança na rua a afastar-se dos pais e ao fim de algum tempo, uns mais do que outros, começaram a olhar para trás para perceber o quanto estavam afastados para saber se haveriam de voltar ou não? E quem é que nunca viu uma criança num espaço comercial e que de repente desatou a correr numa qualquer direcção a afastar-se cada vez mais como se estivesse em segurança mas quando na realidade não está? E depois se descobre que afinal essa criança tem uma Perturbação do Espectro do Autismo. Para que nos possamos apropriar do espaço é preciso ter confiança no nosso corpo. Porque ele ocupa um determinado espaço tal como o corpo dos outros. E na verdade somos corpos que navegamos neste espaço conjunto. E que em algumas vezes dançamos.


Quem já teve aulas de dança, seja de que estilo for, ou quem já experimentou dançar numa qualquer festa, já terá tido um misto de sensações e emoções certamente. Numa situação em que à partida é suposto as pessoas divertirem-se é fundamental poder aumentar o seu conforto com o próprio corpo. Caso contrário vai haver uma maior dificuldade em poder aproximar o seu corpo de outro. Para tal, é fundamental que nas aulas de dança e para que os alunos se divertem, se aumente o seu conforto com os seus corpos. E com isso os mesmos sejam desafiados com a interacção e a conscientização do outro que também está a dançar perto de si num determinado espaço definido. Fez-me lembrar no filme Dirty Dancing quando o Patrick Swayze diz "This is my dance space and that's your dance space...". Parece pouco importante mas a definição do nosso espaço é fundamental para que nos sintamos seguros para começar a nos mover.

E estes pressupostos tão fundamentais na dança parecem igualmente importantes nas pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo. Em primeiro, porque muitas vezes um espaço aberto parece assustador para alguém do Espectro do Autismo. A segunda é porque algumas pessoas com PEA acham difícil verbalizar algumas das coisas que pensam e sentem e como tal a utilização do corpo para comunicar pode tornar-se facilitar quando treinado.

Enquanto psicólogos clínicos muitas vezes estamos centrados na importância de trabalhar os processos mentais, desde os comportamentos desadaptativos às cognições disfuncionais, entre outros processos intrapsiquicos. Não que não sejam importantes, porque o são. Mas é fundamental pensar no corpo como a estrutura onde tudo isto assenta. Como uma estrutura que sente e que é mediador entre este mundo externo que no envolve e o mundo interno que no preenche.


As pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) costumam ter um vasto conjunto de desafios sensoriais e / ou motores que podem interferir na regulação emocional, no envolvimento social e no desenvolvimento de competências sociais. As diferenças sensoriais podem incluir sensibilidade aumentada ou reduzida à informação de todos os sentidos, às vezes sobrecarregando a pessoa ou causando outras reações emocionais. As diferenças motoras incluem coordenação, desafios motores finos e grosseiros e dificuldades posturais, e a sua gestão pode reduzir a capacidade cognitiva disponível para as interações sociais. Esses desafios motores também podem interferir na capacidade de coordenar as ações em tempo útil com um parceiro social, conforme necessário para uma atenção conjunta bem-sucedida e sincronia interpessoal.


A Teoria da Mente, sobejamente referenciada no autismo para ajudar a enquadrar o seu funcionamento, e explicar as questões da cognição social no autismo, diz que esta se refere à capacidade de atribuir certos estados mentais a si e aos outros e que esta competência é crucial para a cognição social. A falta de capacidade desta Teoria da Menta na pessoa constitui uma das principais explicações para os deficit na tomada de perspectiva e empatia nas pessoas com PEA. No entanto, ao longo dos anos, tal como o próprio autismo tem vindo a ser compreendido de forma diferente. Também outros modelos têm surgido para se melhor adequar neste enquadramento.


Como alternativa à abordagem da Teoria da Mente, a teoria da interação oferece uma maneira mais abrangente de explicar os sintomas na PEA. Segundo a teoria da interação, as pessoas são dotadas da capacidade de compreensão intersubjetiva. Essa capacidade existe desde o nascimento, e desenvolve-se nos estágios iniciais da vida e pode ser dividida em intersubjetividade primária (isto é, compreensão incorporada desenvolvida precocemente das intenções e sentimentos de outras pessoas nas interações no nível da experiência perceptiva) e intersubjetividade secundária (isto é, expandir esse entendimento para objectos ou eventos que entram na interação). Para pessoas com PEA, a compreensão intersubjetiva é afectada.


E o que alguns autores propõem é que, para pessoas com PEA, há comprometimento precoce do processamento de informações sensoriais relacionadas consigo e com os outros. A abordagem da incorporação (embodiment), que serve como uma abordagem alternativa, sublinhada por uma perspectiva fenomenológica, argumenta que a cognição e a emoção são baseadas em estados corporais. Essa abordagem apoia o tratamento com métodos de terapia incorporados, como a terapia do movimento através da dança (DMT), porque eles podem promover experiências incorporadas por meio de intervenções corporais.


O construto da empatia, tão falado no autismo, pode ser descrito como sendo composto de diferentes componentes, incluindo emoções (isto é, respostas emocionais a um estado afectivo de outra pessoa) e cognições (isto é, compreensão dos sentimentos dos outros, usando a Teoria da Mente). Além desses dois aspectos comuns da empatia, a empatia motora e a empatia cinestésica têm sido sugeridas como formas de empatia baseadas no movimento corporal ou em respostas incorporadas. Os terapeutas do movimento através da dança há muito tempo usam a empatia cinestésica para descrever a experiência de se conectar à experiência do cliente por meio das próprias sensações corporais, atendendo às próprias reações e sensações internas ao espelhar ou observar os movimentos do outro. A empatia motora é definida como uma sensação ou reação automática à observação das ações de outras pessoas através da activação dos neurónios-espelho.


A investigação em neurociências tem demonstrado que os neurónios-espelho de uma pessoa são activados tanto quando o indivíduo executa uma ação orientada a objetivos ou observa essa ação em outra pessoa. Espera-se que a ativação desses neurónios-espelho durante a observação do comportamento de outra pessoa ajude uma pessoa a entender e interpretar o comportamento do outro e seus estados mentais conectados. Uma conexão entre neurónios-espelho e empatia parece plausível, uma vez que o entendimento empático entre diferentes pessoas é proposto como sendo essencialmente influenciado por um mecanismo que envolve grandes redes de neurónios-espelho.


A evidência cientifica sustenta as práticas mas por vezes a resistência dos profissionais em implementar determinadas metodologias ou modelos na sua intervenção que parecem ter algumas diferenças daqueles habitualmente usados entravam certos avanços. As artes, seja o teatro, mas também a expressão plástica, a música e a dança são não somente formas de expressão universais e facilitadoras do contacto humano. Mas também promotoras de determinadas competências fundamentais no desenvolvimento de todos nós. Talvez precisemos todos nós de olhar em torno do nosso espaço e aliviar um pouco a corda que nos prende a um determinado ponto para explorar um pouco mais além.

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