Coronavirus spring

No dia 20 deste mês às 16h57 começou a Primavera. E com ela o sol brilha, os pássaros cantam, os dias começam a ficar mais longos e o ser humano apaixona-se mais facilmente na primavera. E tudo isto seria mais fácil se não estivéssemos a viver um período único na vida de todos nós com a pandemia de Coronavirus Covid-19. Nomeadamente com a medida de isolamento social/distanciamento físico. Mas se há coisas que o ser humano sabe é contornar situações adversas. Na minha altura de jovem se fossemos proibidos de ver a pessoa desejada nada como deixar umas escadas junto à janela do quarto para sair ou entrar a meio da noite. Em gerações anteriores as cartas românticas mais inflamadas e com a ousadia de alguns acompanhada de uma fotografia também servia o propósito. Hoje em dia para muitos jovens tudo isto parece um guião de um filme de fraca categoria. A internet e os smartphones permitem-nos contornar todo um conjunto de obstáculos na comunicação e relação com o outro. Nos tempos actuais se este desenvolvimento tecnológico tem sido uma mais valia para nos mantermos juntos. Por outro lado também tem trazido todo um conjunto de desafios a que muitos de nós precisamos de estar atentos. Por exemplo, já ouvir falar de sexting?

Há cerca de três semanas atrás, ainda Portugal se estava a preparar para entrar neste cenário da pandemia e os jornais noticiavam que o PornHub possibilitava aos Italianos a possibilidade de aceder gratuitamente aos conteúdos pagos do seu site como medida de alivio no período de quarentena. Se não sabe o que é o PornHub eu posso poupar-lhe a perplexidade de ir pesquisar no google. Esta é uma plataforma com conteúdos de cariz pornográfico. Agora se quiser aprofundar a sua pesquisa fica por sua conta. Mas se pensa que a visualização de conteúdo pornográfico tem um pico de visualização mais acentuado nestes períodos de isolamento social está enganado. O próprio site disponibiliza com alguma frequência a estatística dos períodos de maior acesso aos seus conteúdos em determinados eventos. Por exemplo, em 2018 o acesso ao site subiu 5% a nível mundial no decorrer do PornHub Awards. Algo semelhante à cerimónia dos Óscares em Holliwood. Mas no mesmo ano durante a cerimónia do casamento do príncipe Harry e de Meghan causou uma quebra de 10% a nível mundial. Para quem achava que o acesso à pornografia seria apenas para um grupo restrito de pervertidos engana-se. Ainda em 2018, durante a apresentação do último episódio da série 11 do Big Bang Theory o tráfego de acesso ao site caiu em cerca de 5% nos EUA para os utilizadores de IOS (Iphone). O que nos leva a pensar que os geeks & nerds também gostam de ver pornografia. Mas gostam ainda mais de ver o Sheldon Cooper.


Aqui podemos ver que a questão da pornografia e de uma forma mais abrangente, a sexualidade é algo que importa ao ser humano. Mas nem tudo é pornografia. Nos últimos anos tem surgido todo um léxico, com a mesma velocidade com que evolução tecnológica nos habituou. Eu que ainda sou do tempo em que as mensagens enviadas por SMS devem levar virgulas e acentos tive que me adaptar rapidamente a todo um conjunto de termos como nudes ou sexting. Até porque alguns dos meus clientes, sejam jovens ou adultos, homens ou mulheres trazem estas questões para as consultas. Ou então são os seus pais que trazem estes assuntos quando estão preocupados com alguns dos comportamentos seus filhos quando acederam acidental ou propositadamente aos conteúdos do seu smartphone. Mas uma coisa é certa, os nudes e o sexting não são, tal como a pornografia não o é, uma coisa de jovens imaturos ou velhos pervertidos. Os nudes e o sexting são usados por jovens e adultos, nomeadamente nas suas relações amorosas.


Para clarificar o leitor relativamente aos dois conceitos, nudes ou nude é o envio de fotografias ou videos de nús pelas redes sociais. Enquanto que o sexting (contração de sex e texting) é umanglicismo que se refere à divulgação de conteúdos eróticos e sensuais através do smartphone. Podemos correr a pensar todo um conjunto de questões negativas em relação a isto tudo. Mas se pensarmos nós fazemos isto, ou pelo menos algo similar, ao nível do nosso pensamento. Não nos esqueçamos que estamos a falar do facto de sermos seres humanos sexuados e a sexualidade humana representa um pilar vital em nós, enquanto um conjunto de comportamentos que dizem respeito à satisfação da necessidade e do desejo sexual. E de uma forma global estamos a falar da libido enquanto força e energia vital.


Após ter tentado normalizar muitos destes comportamentos penso que é importante poder falar daquilo que são alguns dos riscos dos mesmos e principalmente em alguns grupos específicos e que possam estar mais desprotegidos devido a algumas das suas características e/ou imaturidade. Por exemplo, lembro-me de há alguns anos atrás ter recebido um adolescente que havia a suspeita de visionar sites pornográficos. Quando a situação foi melhor compreendida a realidade apresentava contornos mais singulares. O adolescente com uma Perturbação o Espectro do Autismo era gestor de um site e a sua função passava por receber todo um conjunto de e-mails com conteúdo para publicar no referido site. O seu trabalho visto por si como de grande importância e responsabilidade passava por clicar nos links dos mails que lhe era enviado em quantidades incalculáveis. E a sua tarefa por um período grande de horas passava por visualizar e ver se estaria adequado ou não para enviar para o site. O certo é que este adolescente estava exposto a todo um conjunto de material pornográfico e outro, nomeadamente de violência explicita e que apesar de muitas das situações serem sublimadas por si. O certo é que tinham impacto sobre a sua pessoa. Este é um exemplo entre muitos outros e que precisam de ser pensados, reflectidos e falados.


Nas relações amorosas entre jovens e adultos como já tinha dito é comum a utilização do envio de nudes e do sexting. Em alguns destes utilizadores quando questionados sobre a preocupação com a utilização indevida da sua imagem exposta respondem que não estão preocupados. E porquê? Porque a pessoa com quem estão a trocar imagens são a pessoa com que estão numa relação, num namoro. E a outra pessoa não vai fazer isso, porque lhe tinha dito que a amava, e as pessoas que amam não fazem essas coisas. E quando as pessoas se deixam de amar perguntei eu em determinada altura a um deles. Não me soube responder. Ficou a pensar um pouco e depois respondeu rapidamente que tal nunca iria acontecer e que não desejaria falar mais sobre o assunto. Provavelmente terá ficado com alguma dúvida de se a sua namorada da altura poderia fazer alguma coisa com as suas imagens nuas. O certo é que o namoro acabou e a situação não foi propriamente cordial e as imagens deste rapaz circularam por entre um conjunto infindável de colegas, rapazes e raparigas da escola. Escusado será dizer que o impacto para este jovem foi devastador, e não me estou a referir ao namoro entre ambos ter terminado.


Apesar de todo um conjunto de episódios drásticos e com um impacto bastante negativo nos próprios. O certo é que a utilização das nudes e do sexting aumenta a activação fisiológica sentida e faz disparar os níveis de dopamina no nosso corpo. Estou certo que a grande parte dos leitores já terá sentido algo semelhante. Isto para poder dizer que na altura em que estamos sobre o efeito da libertação destes níveis de dopamina a nossa capacidade racional de ajuizar sobre uma determinada situação diminui. Nomeadamente, se enviamos ou não uma foto do nosso corpo ou de parte dele desnudado.


É fundamental poder ajudar as crianças e jovens acerca dos aspectos respeitantes à sexualidade como um todo. Ao conhecimento do seu corpo enquanto parte integrante da sua identidade e que importante poder respeita-lo. E quando algumas destas pessoas, jovens e adultos apresentam uma perturbação do neurodesenvolvimento, seja Perturbação do Espectro do Autismo ou Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, a pertinência do tema torna-se ainda maior. Não apenas para os proteger, ainda que num primeiro patamar isso possa ser o mais importante. Mas também. para poder fornecer ferramentas para que eles próprios possam entrar nas relações e usufruir adequadamente dos nudes e do sexting.

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