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Conversas enroladas

Ainda sou do tempo em que quem se atrevia a comprar mortalhas era imediatamente rotulado como "o agarrado". Ou seja, aquela pessoa certamente consumiria Haxixe, na maior parte das vezes, ou Marijuana, menos frequentemente. Isto pelo menos em contexto escolar. Já fora da Escola o cenário era bem diferente e mais negativo que no actual momento. Na altura também ouvia que quem fumava Haxixe fazia menos mal que fumar tabaco. Da mesma forma que se ouve o mesmo sobre o Vape. Era uma forma de justificar o consumo. O certo é que ainda hoje se ouve estas e outras justificações semelhantes. Mas precisamos muito de conversar acerca dos comportamentos de adição a substâncias psicoactivas no Espectro do Autismo. Mesmo quando ainda se pensa que o facto de se ter esta condição possa ser um factor protector. Até porque já se viu e ouvi algumas pessoas do Espectro do Autismo a repudiar veemente o fumo do tabaco e outras substâncias, etc.

Apesar dos dados empíricos limitados e ambíguos, presume-se que os problemas relacionados com o uso de substâncias seja raro em pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), principalmente porque se pensa que as características nucleares na PEA podem reduzir o risco de uso de substâncias psicoactivas. Ou seja, o facto da pessoa com PEA apresentar maiores dificuldades na interacção social vai ter maiores dificuldades em conseguir interagir com alguém para comprar e ou consumir. Para além do facto de se pensar que a maior rigidez e preocupação com as questões morais e legais possam fazer com que se afastem destes consumos


A adição não conhece fronteiras, seja ao nível da classe social, origem étnica, mas também da psicopatologia, ela pode vir para qualquer um de nós.

Os problemas relacionados com o uso de substâncias psicoactivas têm sido referido entre um intervalo de 19 a 30% das pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo diagnosticadas em contextos clínicos. Tem sido reportado que há um aumento no risco de perturbação por uso de substâncias em pessoas com PEA, quando comparados com a população que não é do espectro e que esse risco se torna significativamente mais algo quando o diagnóstico de PEA ocorre com o de Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção.


Mas porque é que a ideia de que as pessoas com PEA estão de alguma forma protegidas com o problema relacionado com o consumo de substâncias tem perdurado? Uma possibilidade é que o número de situações reportadas de uso de substâncias psicoativas no espectro do autismo eram bem menores no passado comparativamente ao presente momento. Apesar de haver alguns factores explicativos que possam ser avançados para ajudar a compreender o aumento de casos de consumo de substâncias psicoactivas no espectro do autismo.


Um desses factores prende-se com os próprios critérios de diagnóstico de PEA que têm mudado ao longo dos anos. O alargamento dos critérios de diagnóstico foi anteriormente culpado pelo aumento na prevalência de PEA. Assim, enquanto pessoas com PEA foram diagnosticados após 1996 com a CID-10 parecia ter aumentado o risco de problemas relacionados com o uso de substâncias em relação às pessoas com um desenvolvimento normativo. Uma prática de diagnóstico prévia mais restrita pode ter excluído pessoas com PEA com problemas relacionados ao uso de substâncias ou outros diagnósticos.

É possível que devido ao risco altamente aumentado de consumo de substâncias em pessoas com PEA com comorbilidade de PHDA tenham sido desconsideradas devido ao viés existente no manual de diagnóstico ICD-10. Isto porque o manual em questão não permite uma diagnóstico de PHDA em comorbilidade na presença de vários outros diagnósticos, como PEA, Perturbação de Ansiedade ou do Humor.


É preciso compreender que o consumo de substâncias psicoactivas e/ou álcool possam servir o propósito de ajudar a regular algumas das dificuldades sentidas no espectro do autismo. Seja a necessidade de se sentirem mais desinibidos socialmente e como tal recorrem ao uso do álcool. Mas também para procurar uma fuga ao sofrimento e à angustia sentida e como tal recorrerem ao Haxixe e à Marijuana. São muitos os que no espectro do autismo referem que devido às suas dificuldades relacionadas com a ansiedade recorrem em determinados momentos a estas substâncias para aliviar no final de um dia mais difícil. No entanto, também tem sido reportado situações de agudização dos sintomas existentes e o surgimento de sintomas de psicose em pessoas com Perturbação do Espectro do Autismo e consumidoras de substâncias psicoactivas. Se a intervenção junto da população com uma perturbação de consumo de substâncias o trabalho terapêutico já oferece um conjunto de desafios. O que dizer quando associado temos um quadro conjunto de uma Perturbação do Espectro do Autismo e uma Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção.

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