Contra os contra

O fenómeno não é novo, mas nos últimos meses, em que estivemos confinados, em teletrabalho e mais recolhidos em nossas casas, muitos de nós que estávamos mais afastados de certos conteúdos online ou sem tempo suficiente para nos apercebermos, não nos dávamos conta do fenómeno chamado de Haters. Traduzido à letra como aqueles que odeiam, e que no fundo caracteriza as pessoas que postam comentários de ódio ou critica sem muito critério. Ou então, com um critério que diz respeito ao seu perfil de personalidade, e que ainda não tem sido muito explorado. Não confundir Hater com Trol ou Ciberbully, até porque todos eles acontecem em contextos diferentes, e aparentemente com pessoas diferentes, sejam os que perpetuam o comportamento mas também as suas vitimas. A permanência no mundo virtual, através do simples comportamento de navegar na internet, ficar a par das noticias no país e no mundo, seguir as redes sociais ou jogar videojogos, passou a ser uma realidade cada vez mais frequente. E com isso muitos de nós passou a ser inclusive mais participativo nos comentários aos post nas redes sociais, ou então a ler os comentários de outras pessoas. Eu próprio já dei comigo a fazer um comentário num post da A Pipoca mais Doce. E como alguns de outros vocês, também eu já fui comentado em relação a algum comentário que tenha feito.

Um comentário frequente que tenho ouvido ou lido em relação a este tema dos Haters é de que as pessoas estão a exercer a sua liberdade de expressão. Ou então, que estamos num pais democrático e livre e que as pessoas que escolhem estar em determinadas redes sociais ou fazer posts ou comentários públicos, se devem subjugar à própria democracia. Ou que na verdade parece significar - aguenta-te!


É verdade que vivemos num pais livre e democrático e que isso compreende saber escutar e viver com as opiniões dos outros, nomeadamente, quando estas são diferentes das nossas. Até aqui tudo bem, até porque a pluralidade de ideias sempre me pareceu não só mais benéfica mas também construtiva. No entanto, muitos de nós parecem ter maiores dificuldades em lidar com o facto de haver quem pense de forma diferente e quando decide fazer um comentário fá-lo neste formato de hater.


O comportamento depreciativo foi há muito identificado como um problema social de grande dimensão. Não é surpreendente que, junto com o crescimento da popularidade da Internet, tais comportamentos também tenham sido observados em ambientes online e, portanto, identificados como ódio online. Tem sido demonstrado que o ódio online aumenta as emoções negativas, causar suicídios e até mesmo de levar ao assassinato de figuras públicas. O ódio na Internet pode afectar não apenas vidas humanas, mas também alvos não humanos. Por exemplo, já foi comprovado que as campanhas de ódio são responsáveis pelo fracasso de filmes de grande orçamento. E este fenómeno de comportamento de ódio online está a tornar-se cada vez mais prevalecente mas também com extensões novas.


Apesar da literatura crescente sobre o comportamento de ódio, ainda existe pouca evidência sobre as características pessoais das pessoas que se envolvem nestes comportamentos. Para além de nem sequer haver um acordo entre os cientistas que investigam sobre o que constitui a definição de "aqueles que odeiam na Internet" ou haters, já que esses termos são referidos a uma ampla gama de comportamentos depreciativos.


Em primeiro lugar, parece valer a pena destacar a distinção entre ódio online e outras formas de actividades online negativas. Por exemplo, o objetivo do discurso de ódio é expressar desprezo e minar a posição de um determinado grupo social (de acordo com, por exemplo, raça, género, etc.), expressando uma opinião depreciativa sobre esse grupo, seus membros específicos ou sobre os seus produtos característicos. Assim, não é considerado discurso de ódio expressar uma opinião depreciativa sobre uma pessoa, independentemente de pertencer a um determinado grupo social.


O ódio online, por outro lado, não consiste necessariamente em expressar uma opinião depreciativa sobre um grupo social. Pode ser depreciativo sem que de alguma forma se refira à posição social de determinada pessoa ou objeto e/ou objectivar a diminuição da posição social de um grupo. Exemplos típicos encontrados no Facebook e em outros sites incluem comentários que insultam, por exemplo: figuras públicas, desportistas, actores (por exemplo, “Como é que um inútil destes pode ganhar tanto dinheiro !?”; “Ele deve ter conseguido este trabalho porque ele/a pagou muito a alguém ou tem um tio “influente”), pessoas falecidas (ou seja,“ Esse idiota estava a conduzir tão rápido que teve o que merecia”; “Que maneira estúpida de morrer , lol ”).


Dentro dos três comportamentos depreciativos online já referido, trolling, cyberbulling e haters, todos eles parecem estar ligados a um perfil psicológico ligeiramente diferente. Por exemplo, os trolls parecem pontuar mais alto em traços de psicopatia, enquanto que os cyberbullies em sadismo. Como tal, parece razoável supor que aqueles que rotineiramente se envolvem em comportamentos de ódio online podem exibir certas características comuns, mas também diferentes no tipo ou gravidade dos comportamentos mencionados anteriormente. Mas em relação aos haters continuamos a saber ainda muito pouco. Até porque os próprios investigadores e a sociedade têm estado mais inclinados para estudar estes fenómenos associados a grupos minoritários especificos.


No vários estudos realizados ao longo dos anos no comportamento depreciativo, os traços de Narcisismo, Psicopatia e Maquiavelismo, são aqueles que mais têm sido estudados, nomeadamente associado a níveis de frustração e inveja experimentada e satisfação com a vida. No caso dos haters, parece que o traço de Psicopatia parece ser um indicador significativo de comentários de ódio online. No entanto os outros traços parecem não apresentar uma relação significativa. Esta noção parece ser enquadrada no facto do traço de Psicopatia ser caracterizado por impulsividade e comportamento de procura de emoção. E como tal, os níveis mais altos de impulsividade podem promover a realização de comportamentos mais impetuosos, como expressar uma atitude/opinião negativa e insultuosa em relação a alguém ou algo e que não inclui uma critica construtiva.


A necessidade de compreensão deste tipo de fenómeno na população em geral parece fundamental. Já não é a primeira vez que oiço jovens referirem que aquela é uma forma muito habitual de falarem com os amigos e colegas, e que as pessoas não levam a mal e sabem que é assim mesmo. Parecemos estar a observar não somente uma dessensibilização em relação a este comportamentos, mas também ao desenvolvimento de uma nova narrativa, ainda que ancorada num determinado perfil de personalidade. Se fizermos o exercício de passar algum tempo a ler os comentários às noticias dos jornais diários penso que ficamos elucidados em relação à diversidade e gravidade daquilo é dito. E isto parece acontecer em relação a qualquer situação social, seja relacionado com minorias étnicas, nomeadamente à boleia das ultimas noticias e acontecimentos relacionados com o racismo. Mas também relação às questões de género.


Por exemplo, ainda ontem lia uma noticia numa instituição de referência - PORDATA, sobre o facto das mulheres receberem menos 200 euros mensais que os homens. E a quantidade de comentários desagradáveis, não vou adjectivar de mais nada, até porque não é esse o interesse, foi grande. Ou então, os comentários depreciativos que se amontoaram ainda esta semana sobre o facto das filhas do Dr. Nuno Lobo Antunes não saberem cozinhar. Estas e outras situações, leva a que muitos de nós, cidadãos mais ou menos envolvidos, possam sentir a vontade de intervir. Muitos dirão que numa situação destas é compreensível e até mesmo aceitável uma resposta no mesmo formato. Sendo que quem já o experimentou acabou por rapidamente perceber que isso não levou ao sitio desejado. Não será um caminho fácil, mas parece fundamental que continue a ser compreendido as razões destes comportamentos. Até para que possa ser continuado a fazer algo que dê uma resposta às necessidades dos que se sentem vitimas, mas também daqueles que são identificados como agressores.


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