(contra)Balancear a vida

Há mais rapazes autistas do que raparigas, dizem os estudos científicos! Os mesmos estudos que muito frequentemente continuam a usar quase exclusivamente amostras masculinas. A mudança está para ficar.

Cada vez mais a minha agenda está a ser preenchida por adultos autistas e outros adultos que suspeitam de ter autismo mas que ainda ninguém os diagnosticou. Cada vez mais esse número de pessoas são mulheres adultas que procuram uma resposta para as suas questões! Dificuldades ao longo da vida, dúvidas acerca do porquê de certas coisas! Ou certas pessoas serem como são! Ou de fazerem aquilo que fazem! Porquê, perguntam!


O autismo não afecta apenas os rapazes e homens mas a própria investigação continua a debruçar-se maioritariamente neles. Há um corpo de cientistas que começa a mudar o foco e a incluir mulheres nos estudos.


Continuo a receber mulheres adultas em consulta que continuam a perguntar se determinado conjunto de comportamentos ou atitudes não são partilhados por todos de uma maneira geral. Por exemplo, assumir que a grande maioria das pessoas se incomoda com a luz nas lojas ou com o ruído nos centros comerciais. Ou que a grande maioria das pessoas diz sempre a verdade, etc. O facto de terem uma maior dificuldade em conseguir compreender ou intuir os pensamentos e sentimentos dos outros torna esta tarefa mais difícil. Ainda assim, pergunto-me porque é que nas mulheres este tipo de comportamento continua a não ser assinalado comparativamente ao que acontece com os rapazes. Ou porque é que as raparigas e mulheres conseguem modificar mais facilmente este comportamento e não o demonstrar? Este tipo de pensamento e/ou outros comportamentos que vão acontecendo vão sendo contextualizados e/ou normalizados e como tal não são assinalados.


É fundamental ajudar as raparigas e as mulheres que possam suspeitar de ter uma Perturbação do Espectro do Autismo a terem a possibilidade de serem avaliadas e devidamente acompanhadas. Mas é fundamental consciencializar toda uma comunidade. A começar pelas famílias e profissionais de saúde que acompanham as crianças. Os professores que as acompanham ao longo de um percurso grande da sua vida. Mas também é fundamental ajudar a comunidade cientifica a olhar de forma enviesada para a mulher e a incluir nos seus estudos. Já começa a ser comum que alguns investigadores quando tentam replicar alguns estudos antes realizados com amostras masculinas e agora com amostras femininas que os resultados encontrados sejam diferentes. Ou outra questão comum de ocorrer em alguns destes estudos é a exclusão de participantes com comorbilidades psiquiátricas (e.g., depressão, ansiedade, etc.). O que faz com que as mulheres sejam maioritariamente excluídas destes estudos por serem elas que maioritariamente apresentam estas comorbildiades.


Fundamental que todos nós possamos encontrar uma forma de equilibrar esta desvantagem face à rapariga e mulher autista. Seja na realização de mais e melhor formação e adaptação de ferramentas de avaliação e intervenção capazes de dar uma outra resposta. Mas também na capacidade de resistir a uma tentativa de impor que algo é assim porque é resultado de um estudo cientifico. E sabermos questionar a realidade trazendo um novo equilíbrio as coisas.

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